Economia

Bruxelas revê em baixa previsões para a economia portuguesa para 4,1%

Um valor que fica aquém daquele que foi estimado pelo Governo e que apontava para um aumento de 5,4%, apesar de João Leão ter admitido, esta semana, no Parlamento que teria de "rever significativamente o cenário macroeconómico para 2021", tendo em conta o atual contexto pandémico.

A Comissão Europeia voltou a rever em baixa as previsões de recuperação da economia portuguesa para 2021: um crescimento de 4,1% contra os 5,4% estimados no passado mês de novembro. Um valor que fica aquém daquele que foi estimado pelo Governo e que apontava para um aumento de 5,4%, apesar de João Leão ter admitido, esta semana, no Parlamento que teria de “rever significativamente o cenário macroeconómico para 2021”, tendo em conta o atual contexto pandémico.

As novas estimativas foram avançadas esta quinta-feira nas previsões intercalares de inverno e justifica esta queda com o forte impacto da pandemia no setor do turismo, com as restrições aplicadas no último trimestre de 2020 e reforçadas no mês de janeiro, devido ao agravamento da situação sanitária. “A Europa continua a braços com a pandemia de coronavírus. O aumento do número de casos, juntamente com o aparecimento de novas estirpes, mais contagiosas, do coronavírus, obrigaram muitos Estados-Membros a reintroduzir ou a reforçar as medidas de contenção. Ao mesmo tempo, o início dos programas de vacinação em toda a UE permite um otimismo prudente”. E chama a atenção para o facto de o crescimento económico irá ser retomado “aquando do aligeiramento das medidas de contenção”.

Ainda assim, Bruxelas espera um melhor desempenho da economia portuguesa em 2022, com um crescimento do PIB a rondar os 4,3%, superior à estimativa de 3,5% divulgada em novembro. E acredita que o crescimento pré-pandemia só será possível no final de 2022, mas para isso, o turismo terá de voltar a crescer.

Europa também em queda

Estas previsões intercalares de inverno projetam também um agravamento do crescimento na Zona Euro e na União Europeia em 2021: No caso da Zona Euro, a quebra é de 4,2% para 3,8% tanto este ano, como em 2022, enquanto que para o conjunto dos 27 passou de 4,1% para 3,7% em 2021 e para 3,9% em 2022.

“Prevê-se que as economias da área do euro e da UE atinjam os seus níveis de produção anteriores à crise mais cedo do que o antecipado nas previsões económicas do outono de 2020, em grande medida devido a um dinamismo de crescimento mais forte do que o previsto no segundo semestre de 2021 e em 2022”, afirma.

E lembra que após um forte crescimento observado no terceiro trimestre de 2020, a atividade económica registou uma nova contração no quarto trimestre quando uma segunda vaga da pandemia levou à adoção de novas medidas de contenção. Com essas medidas ainda em vigor, no primeiro trimestre de 2021 as economias da UE, bem como as da área do euro, deverão registar uma contração. Mas garante que o crescimento económico deverá retomar na primavera e intensificar-se no verão, à medida que os programas de vacinação forem avançando e que as medidas de contenção forem sendo gradualmente aligeiradas e salienta que a recuperação também deverá ser apoiada pela melhoria das perspetivas para a economia mundial. No entanto, deixa um alerta: “o impacto económico da pandemia continua a ser variável consoante os Estados-Membros, prevendo-se que a rapidez da recuperação varie igualmente de forma significativa entre eles”.

Incerteza e riscos

As previsões apontam para um aumento da inflação na área do euro de 0,3 %, em 2020, para 1,4 %, em 2021, antes de registar uma ligeira descida para 1,3 % em 2022. Segundo as previsões, a inflação na área do euro e na UE aumentou ligeiramente em 2021 em relação ao outono, mas prevê-se que globalmente se mantenha moderada. “A pressão da procura global sobre os preços continua a ser atenuada pelo atraso na retoma. Em 2021, a inflação aumentará temporariamente devido aos efeitos de base positivos da inflação no setor da energia, a ajustamentos fiscais, principalmente na Alemanha, bem como ao facto de a procura não satisfeita se confrontar com algumas restrições ainda existentes a nível da oferta. Em 2022, com o ajustamento da oferta e a atenuação gradual dos efeitos de base, a inflação deverá voltar a diminuir”.

Já os riscos no que diz respeito às previsões são mais equilibrados desde o outono, embora continuem a ser elevados, mas ressalva que “dependem principalmente da evolução da pandemia e do êxito das campanhas de vacinação”. E aponta para riscos positivos que estão associados à possibilidade de o processo de vacinação conduzir a um aligeiramento das medidas de contenção mais rápido do que o previsto e, por conseguinte, a uma recuperação mais forte, que começaria mais cedo. “Além disso, o NextGenerationEU, o instrumento de recuperação da UE, cujo elemento central é o Mecanismo de Recuperação e Resiliência (MRR), poderá promover um crescimento mais forte do que o esperado, uma vez que a maioria dos financiamentos previstos neste âmbito ainda não foram integrados nestas previsões”, acrescenta. 

Já em termos de riscos negativos refere que a pandemia poderá revelar-se mais persistente ou mais grave a curto prazo do que o indicado nestas previsões ou poderá haver atrasos na implementação dos programas de vacinação. “Tal poderá atrasar o aligeiramento das medidas de contenção, o que, por sua vez, afetará o momento e a robustez da recuperação esperada. Existe também o risco de a crise deixar marcas mais profundas no tecido económico e social da União Europeia, nomeadamente através de falências e perdas massivas de postos de trabalho. Tal prejudicaria igualmente o setor financeiro, aumentaria o desemprego de longa duração e agravaria as desigualdades”, salienta.

Paolo Gentiloni, comissário responsável pela Economia, admitiu que «os europeus atravessam tempos difíceis. Continuamos a enfrentar o sofrimento doloroso da pandemia e as suas consequências sociais e económicas, que são mais do que evidentes. No entanto, há uma luz ao fundo do túnel. Com o aumento do número de pessoas vacinadas nos próximos meses, o aligeiramento das medidas de contenção deverá permitir reforçar a retoma na primavera e no verão. A economia da UE deverá regressar aos níveis de PIB registados antes da pandemia em 2022, ou seja, mais cedo do que o previsto — embora a produção perdida em 2020 não seja recuperada com a mesma rapidez nem ao mesmo ritmo em todos os países da União. Estas previsões estão sujeitas a inúmeros riscos relacionados, nomeadamente, com novas variantes da covid-19 e com a situação epidemiológica mundial. Por outro lado, é de esperar que nos próximos anos o NextGenerationEU dê um forte impulso às economias mais afetadas, o que ainda não é tido em conta nas previsões atuais".

Já Valdis Dombrovskis, vice-presidente executivo de Uma Economia ao serviço das Pessoas mostra-se mais otimista ao garantir que as previsões são “motivo de grande esperança num período de enorme incerteza para todos nós”, acrescentando que “a forte retoma do crescimento prevista para o segundo semestre deste ano demonstra inequivocamente que estamos prestes a superar esta crise”. E vai mais longe: “Para resolver questões como a perda de postos de trabalho, o enfraquecimento do setor empresarial e o aumento das desigualdades, será fundamental uma resposta europeia forte. Teremos ainda muito a fazer para dar resposta às consequências socioeconómicas em geral. O nosso pacote de recuperação ajudará de forma significativa a impulsionar a recuperação, para a qual contribuirá igualmente a disponibilização das vacinas e uma provável retoma da procura mundial”.