Retratos Contados

Uma Vida Desfolhada

por Nelson Mateus e Alice Vieira

por Nelson Mateus

Querida avó,

A Simone completa 83 anos. Cresci a ouvi-la e a vê-la na televisão. Não sei explicar o fascínio que ela causava a uma criança. A verdade é que, cada vez que ela aparecia, ficava deslumbrado a ouvir as suas palavras. A ver a garra e alma, com que cantava, com que falava sobre qualquer assunto.

Por altura do Festival da Canção, inevitavelmente aparecia a Simone a cantar ‘A Desfolhada’.

Numa altura em que só havia um canal de televisão, em que não existiam redes sociais, em que a maioria ouviu o Festival através de uma telefonia … foram milhares os que se juntaram na Estação de Santa Apolónia, para a receber vinda de Madrid. Simone ficou em penúltimo lugar na Eurovisão, mas os portugueses receberam-na como se tivesse conquistado o primeiro prémio! 

Já tive o privilégio de estar várias vezes com a Simone. Todas as horas que passamos juntos são poucas para aquilo que ela tem para dizer, e para o que eu quero ouvir. 

Ao longo da vida, Simone tem sido o ‘Sol de Inverno’ dos dias mais difíceis de muitos. Cada ruga da Simone conta uma história.

Amada por muitos, odiada por outros tantos, é exemplo para muitas mulheres. Vestiu calças quando ninguém vestia, frequentava cafés e bares enquanto as outras mulheres ficavam em casa de avental, agarradas ao terço…

Simone dá voz à canção ‘Saudade’. Mas não tem saudades nenhumas do tempo em que as outras mulheres lhe viraram as costas, por cantar ‘Quem faz um filho, fá-lo por gosto’, pois as mulheres não podiam ter prazer!

Nunca a convidem para beber um chá! Recentemente provoquei-a ao telefone: ‘Combinamos um chá com a Alice’. Ao que respondeu: ‘Convidas-me para um chá, por ser velha. O que me apetece é um café, fumar um cigarro ou pedir um copo, com três pedras de gelo e um pouco de whisky. É isso que quero, precisamente por ser velha’…

Em breve iremos tratar disso!

 

por Alice Vieira

Querido neto,

Fala tu das canções da Simone, que eu tenho outras coisas para contar.

Muito antes de ser sua amiga, já era sua amiga. E por motivos que nada tinham a ver com as cantigas.

Naqueles princípios dos anos 60, quem não seguia os padrões convencionais de vida era posto de lado. E a Simone nunca foi mulher de vida convencional. Eu costumo dizer muitas vezes, a meu respeito, que sou feliz porque tive sempre a profissão que quis, os homens que quis e os filhos que quis. O que então também não foi nada fácil. Devo ter aprendido com ela.

Lembro-me um dia de ir com uma tia almoçar à Praia de Santa Cruz.  Tínhamos acabado de entrar no restaurante quando a minha tia me pegou na mão e me arrastou para a rua.

‘Vamos a outro’, disse.

Não percebi:  o restaurante estava praticamente vazio. Cá fora ouço-a ‘não gosto de lugares mal frequentados’.

Levei tempo a entender, e só mais tarde percebi: a Simone estava lá com o Henrique Mendes, que era casado e com quem ela então vivia… Um escândalo. E acho que foi exactamente nesse dia que, sem ela saber, me tornei sua amiga. Para sempre!

Muitos anos depois, já eu trabalhava no Diário de Notícias, já a Simone era famosa, mandaram-me entrevistá-la. Era a primeira vez que eu estava diante ela, e que ela estava diante de mim.

E ela começa a contar-me a vida toda. O primeiro casamento, a violência doméstica, os filhos de um homem com quem não estava casada, o que os tornavam ilegítimos, o padre que não os queria baptizar, tudo!

Eu ainda lhe perguntava de vez em quando ‘posso escrever isso?’, mas ela nem me ouvia.

Acho que foi uma das minhas melhores entrevistas.

E ficámos amigas. Partilhamos coisas boas e más: tivemos cancro da mama na mesma altura… E cá estamos.

Cheguei ao fim do espaço que me dão… e não falei de cantigas! Mas isto para mim é muito mais importante. Vão ao Youtube e oiçam-na. Qualquer canção. É das nossas maiores intérpretes.