Economia

Francisco Calheiros: "Há um esforço demasiado  elevado para manter os milhares postos de trabalho"

Para Francisco Calheiros, o turismo vive uma crise sem precedentes e ainda vai demorar a recuperar: ‘Nunca antes de 2022’. Para resolver o problema de tesouraria e ‘salvar’ milhares de postos de trabalho, a Confederação apresentou 10 medidas ao Governo e que passam pelo reforço dos incentivos financeiros não reembolsáveis, reforço financeiro do programa Apoiar, entre outras propostas.

 

Que análise faz do setor de turismo?

O turismo está a viver uma crise sem precedentes, numa pandemia que dura quase há um ano. As empresas estão a enfrentar enormes dificuldades financeiras e estão a ficar muito debilitadas, com um esforço demasiado elevado para manter os postos de trabalho de milhares de pessoas. A situação é preocupante, sobretudo porque é difícil de prever quando irá terminar esta pandemia.

2020 e 2021 vão ser anos para esquecer?

2020 foi um ano negro para o turismo, sob todos os pontos de vista e para todos os seus subsetores. Estimamos quebras de 65% em todos os indicadores turísticos. As receitas turísticas devem situar-se nos oito mil milhões de euros, o que representa um decréscimo de 57% face ao ano anterior. O impacto será negativo de cerca de 10 mil milhões de euros no saldo das contas externas portuguesas. Quanto a 2021, o início do ano foi e está a ser bastante mau, mas ainda é difícil fazer previsões a médio prazo. Não me parece razoável avançar cenários de retoma ou de crise, sem termos ainda dados concretos sobre a evolução da pandemia. Estamos num contexto ainda bastante incerto, com as economias mundiais sob grande pressão e o processo de vacinação ainda no início. Temos apenas a certeza que, consoante as medidas impostas e quanto mais restritivas forem, pior será para o turismo, e desta forma, para a economia nacional.

Estava à espera deste novo confinamento?

Não comentamos decisões sobre matérias de saúde pública. O nosso esforço centra-se na urgência de intensificar e acelerar as medidas de apoio às empresas e à preservação do emprego no turismo.

O Carnaval ainda vai estar incluído no estado de emergência. Acredita que na Páscoa vamos assistir ao mesmo?

Impossível de prever. Não sabemos se o período da Páscoa ainda estará ou não inserido no estado de emergência, mas, independentemente dessa informação, o que podemos assegurar é que neste momento as reservas para esses dias são quase inexistentes.

As duas datas são importantes para o setor?

São duas datas muito importantes, mas principalmente a Páscoa. São períodos em que, em anos normais, a atividade turística tem muito movimento. Em 2018 e 2019, no mês em que se comemorou a Páscoa, em abril, alcançámos 5,7 e 6 milhões de dormidas, respetivamente. Em 2020, em início de pandemia registámos em abril 155 mil dormidas.

O que acha das medidas que estão a ser implementadas para estimular este setor? Poderiam ir mais além?

A CTP tem vindo a trabalhar em contacto permanente com o Governo, que tem estado muito atento a esta atividade. Todas as medidas de apoio ao turismo foram e serão bem-vindas, mas exigimos novas medidas porque as empresas estão no limite. As empresas estão a ficar sem reservas de tesouraria e é preciso agir. Entre as várias medidas que a CTP tem vindo a defender, destaco algumas: reforço dos incentivos financeiros não reembolsáveis; reforço financeiro do programa Apoiar; prolongamento das medidas de apoio à manutenção e emprego pelo menos até ao final deste ano, alargando o layoff simplificado a todas as empresas com perda de faturação e volume de negócios. Seria ainda importante adotar medidas que tenham em vista moratórias, ou suspensão de prazos, de cumprimento de obrigações fiscais e da segurança social. Apelamos ainda ao Governo que crie um quadro legal e de medidas que seja previsível, desburocratizado e eficiente. A atual dispersão de normas e de medidas, pela sua complexidade e falta de previsibilidade, não ajuda a quem está a viver situações dramáticas

Esta semana, o Ministro da Economia anunciou um fundo de 215 milhões. É uma verba suficiente?

O que o Ministro da Economia referiu foi que já aprovou cerca de 215 milhões de euros de apoios a fundo perdido, dos quais cerca de 177 milhões já foram pagos, no âmbito do programa Apoiar. Claro que não é suficiente. Este apoio tem de ser reforçado, porque há muitas empresas que não conseguiram aceder-lhe e porque a evolução da pandemia não nos permite prever uma recuperação a curto prazo.

A Confederação do Turismo propôs ao Governo dez medidas para salvaguardar empresas do setor em contexto pandémico. Que reação está à espera? Acha que algumas têm hipótese de serem implementadas?

Todas as medidas apresentadas são de extrema importância para a recuperação do turismo e estamos certos de que o Governo irá analisá-las, tal como o fez desde o início desta pandemia. Da nossa parte, existe toda a disponibilidade para debatê-las e encontrar plataformas de entendimento.

A CTP defendeu que não deve haver discriminação entre as grandes e as pequenas empresas nos acessos aos apoios. Isso está a acontecer? E como pode ser evitado?

Sim, existem empresas que, pela sua dimensão ou porque apresentam perdas continuadas na faturação, não estão a conseguir obter apoios. E esta é uma correção que tem de ser feita nas próximas medidas a lançar pelo Governo, sob pena de colocar em risco a sobrevivência de muitas empresas.

Também falou na necessidade de se criar um balcão único para apoiar as empresas. Qual a vantagem? E como poderia funcionar?

O nosso tecido empresarial é constituído maioritariamente por pequenas e micro empresas e têm dificuldade no acesso à informação. Acresce a complexidade e burocracia dos processos que envolvem as candidaturas a apoios. Este balcão único teria como objetivo informar as empresas sobre as medidas disponíveis de apoio à economia e agilizar os respetivos pedidos.

Desde o início da pandemia tem ideia quantos hotéis e unidades de alojamento local encerram? E quantos despedimentos?

Não dispomos desses números concretos sobre os encerramentos. Muitas empresas optaram pelo recurso ao layoff, colocando a sua atividade em suspensão total ou parcialmente. Estão a tentar manter os postos de trabalho, mas é difícil porque muitas empresas não estão a faturar há muitos meses.

Há várias vozes a defenderem a reconversão de hotéis em apartamentos. Acha que essa poderá ser uma solução?

A CTP defende a manutenção da oferta de turismo instalada, para que possamos ter unidades de alojamento aquando da retoma. Quando acontecer a retoma teremos de ter capacidade de responder à procura. Para isso, todos os nossos esforços vão no sentido de manter todas as empresas na atividade turística.

Portugal tem sido destacado como um destino de eleição do ponto de vista internacional. Estes números de pandemia poderão prejudicar a imagem de Portugal nos mercados externos?

Esta pandemia afetou e afeta todos os destinos turísticos do mundo. Infelizmente, a situação pandémica atual que se vive no nosso país, com o número de mortos e novos casos acima da média, está a atrair a atenção da imprensa internacional pelas piores razões. Será necessário criar mecanismos que nos permitam alterar a perceção de segurança que possa prevalecer, nomeadamente, através de um plano de promoção turístico, que envolva entidades públicas e privadas e que atue juntos dos nossos principais mercados estratégicos.

Depois do turismo funcionar como uma ‘tábua de salvação’ da economia portuguesa, acha que deveria ser dada prioridade a outros setores?

Essa é uma discussão inútil. Apesar da importância do turismo para a economia, nunca lhe foi dada prioridade. Todas as atividades económicas são importantes para o país e em todas elas existem boas empresas e excelentes ativos.

Acha que o setor pode voltar a recuperar esse peso? E se sim, para quando?

O turismo foi, nos últimos anos, a atividade económica que mais gerou riqueza e postos de trabalho. Iremos, sem dúvida, recuperar este papel na economia nacional e estamos a trabalhar para que seja o mais breve possível, mas nunca antes de 2022. O turismo voltará a ser o motor da economia.

Como tem visto as negociações entre o Governo e a TAP?

Temos acompanhado de perto a situação da TAP. A nossa expectativa é a de que a companhia se mantenha fundamental para o turismo, como sempre o foi. Infelizmente, não há soluções perfeitas ou indolores, mas devem ser acionados todos os mecanismos que nos permitam manter uma companhia de aviação sólida.

É importante para o país ter uma empresa como a TAP ou poderia ter sido encontrada outra solução?

Tal como já referi, a TAP tem mantido ao longo dos anos um papel determinante para a economia e para o turismo em Portugal e sempre defendemos que deferia ser encontrada uma solução para manter uma companhia aérea que muito contribuiu, e irá contribuir, para o país.

Tem sido um dos defensores da manutenção do novo aeroporto. Com esta quebra abrupta do turismo acha que ainda faz sentido ou é possível adiar?

Não é possível continuar a adiar o Aeroporto do Montijo. Os pressupostos que estão na origem da decisão de avançar para o aeroporto do Montijo mantêm-se. Esta infraestrutura mantém o seu incontestável benefício para o país e para a economia e é a única solução que responde em termos de custos, eficácia e competitividade a um problema que se arrasta há mais de 50 anos. Se não tivesse existido a pandemia, o aeroporto de Lisboa teria vivido um caos em 2020. Entre o estudo de impacte ambiental e a construção do aeroporto teremos cerca de cinco anos. Todas as previsões mais negativas apontam para a recuperação dos valores da atividade turística de de 2019 em 2024, por isso, já estamos atrasados. Continuamos a adiar uma decisão que é estrutural para o país.