Opinião

Do inferno na Luz ao paraíso de Alvalade

O Benfica e o Sporting traçam caminhos opostos: um aposta nos ‘velhos’ e o outro nos jovens, um faz compras milionárias e o outro investe em jogadores baratos, um mostra arrogância e o outro humildade. E sejam quais forem os resultados daqui para a frente, a estratégia dos leões é a correta e a única que se adequa aos clubes portugueses. Querer uma ‘equipa europeia’ é uma fantasia que só pode acabar mal.

Com a ausência de espetadores nos estádios, o ‘inferno da Luz’ passou das bancadas para o relvado. Só que o feitiço se virou contra o feiticeiro, e agora quem vive o inferno é o Benfica. O estádio parece assombrado. Mesmo quando a equipa da casa ganha, passa sempre por angústias e dificuldades.

Inversamente, o Sporting vive no paraíso. Tudo lhe corre bem. Não pode, de facto, haver situações mais diferentes do que aquelas que se vivem no Benfica e no Sporting.

Comecemos pelos treinadores. Enquanto Jorge Jesus está perto do fim da carreira, e se aproxima dos 70, Rúben Amorim está no início da carreira e ainda não tem 40. Enquanto Jorge Jesus é do Sporting e está a treinar o Benfica, Rúben Amorim é do Benfica e está a treinar o Sporting. Enquanto Jorge Jesus ao chegar ao Benfica anunciou que não contava com vários jogadores e exigiu um rol de contratações, Rúben Amorim chegou ao Sporting e conformou-se com os jogadores que tinha, dizendo que dispunha de um plantel «fantástico». Enquanto Jorge Jesus prefere os jogadores feitos e despachou alguns da academia do Seixal (como Ferro), Rúben Amorim acredita nos jovens e foi buscar vários à academia de Alcochete.

Várias razões explicam esta diferença de atitudes.

Jorge Jesus vinha do Brasil cheio de títulos, depois de ser condecorado pelo Presidente da República de cá e louvado pelo Presidente da República de lá, e naturalmente trazia o ‘rei na barriga’. É humano. 

Luís Filipe Vieira tinha-o chamado de urgência, invocando a amizade entre ambos, para servir de trunfo na campanha eleitoral, e Jesus não podia dizer que não. Estava bem onde estava, ganhava muito dinheiro, era adorado pelos adeptos do Flamengo, já tinha passado de Jesus a Deus, mas resignou-se a vir para ajudar o amigo.
Vindo contrariado, como que ‘por favor’, fez exigências leoninas: um grande ordenado e alguns jogadores de craveira europeia. Luís Filipe Vieira prometeu-lhe tudo: não estava em situação de recusar. 

Só que essa atitude de Jesus teve logo um efeito péssimo sobre o plantel: desmotivou os jogadores que cá estavam.

Se o treinador não contava com eles, o que estavam ali a fazer? Perderam a confiança – neles próprios e no clube. Em vez de chegar de mansinho, vendo o material que tinha e tentando adaptar as suas ideias às características dos jogadores, Jesus fez o contrário: vinha com uma ideia feita e queria 11 jogadores com as características que pensava para cada lugar. Fez-me lembrar Artur Jorge, quando intentou uma revolução no plantel da Luz que redundou num terrível fracasso. E não digo isto com satisfação, pois tenho uma grande estima por Jorge Jesus. 

Rúben Amorim, o oposto de Jesus

Com Rúben Amorim, passou-se praticamente o oposto. Vinha do Braga, onde fizera um ótimo mas fugaz trabalho, e ainda não provara nada. E como a sua transferência custara ao Sporting 10 milhões de euros, tinha de justificar o investimento. Cingiu-se ao plantel que tinha, que estava muito depauperado depois das fugas provocadas pela invasão de Alcochete. E depois aproveitou o Verão para despachar discretamente alguns jogadores que não estavam lá a fazer nada, como Bolasie ou Jesé Rodríguez, e para contratar futebolistas baratos vindos de clubes portugueses mais modestos, como Nuno Santos ou Pedro Gonçalves, mandar vir outros que estavam emprestados, como Palhinha, ou ir buscar alguns à academia, como Nuno Mendes ou Tiago Tomás.

E pela calada, sem grandes parangonas, silenciosamente, montou uma equipa que parecia jeitosa mas sem estofo para grandes cometimentos.

Enquanto Jorge Jesus dizia que ia «arrasar» e que os jogadores iam render «o triplo», Rúben Amorim disse humildemente que não lutava pelo título mas no máximo pelo 2.º lugar. E já seria muito bom.

E de repente, sem ninguém dar por isso, o Sporting está com 11 pontos de avanço sobre o Benfica e 8 sobre o Porto.

Uma estratégia errada

A estratégia seguida pelo Benfica de ir buscar jogadores já ‘velhos’, como Otamendi ou Vertonghen (e o mesmo valeria para Cavani, se tivesse vindo), ou com pretensões a serem grandes estrelas, como Darwin Núñez, é um enorme erro. Ainda por cima, contraria frontalmente o que Luís Filipe Vieira afirmara, garantindo que ia fazer uma equipa com base na academia do Seixal. 

Ir buscar jogadores ‘velhos’ é mau por todas as razões. Têm ordenados altos, chegam sem grande motivação pois vêm de clubes maiores, e de ligas mais importantes – e já não têm nada para provar ou conquistar, estão a gastar os últimos cartuchos e a ganhar uns dinheiritos enquanto não arrumam as botas. Que motivação podem ter jogadores que andaram na Liga inglesa a jogar contra o Liverpool, o Manchester United, o City, o Leicester, o Totenham ou o Arsenal, ao virem jogar contra o Paços de Ferreira, o Farense ou o Rio Ave? Mesmo que queiram muito, a motivação é completamente diferente. E as pernas já lhes pesam.

Além disso, esses jogadores não proporcionam bons negócios. Quando saem, não valem nada. Por muitas engenharias financeiras que se façam para esconder o fracasso, como aconteceu com Raúl de Tomás…

Coisa completamente diferente é ir buscar jogadores a clubes mais fracos ou à academia, como fez o Sporting. Têm ordenados razoáveis. Jogam com garra. Querem dar nas vistas e comem a relva. Têm pulmão para dar e vender. E valorizam-se: no fim, podem render dez vezes o que custaram. 

Benfica e Sporting nos antípodas

Hoje, Benfica e Sporting estão nos antípodas.

Um tem um presidente ‘velho’, um treinador ‘velho’, jogadores ‘velhos’ e caros, alguns com tiques de estrelas. E os que não são velhos parecem gastos, como Grimaldi, Taarabt, Pizzi ou Seferovic…

Outro tem um presidente jovem, um treinador jovem, jogadores jovens e baratos, modestos, desejosos de se afirmar.

Claro que nada está decidido. Nesta segunda volta do campeonato tudo se pode inverter: o Sporting pode fazer um ou dois maus resultados e a equipa afundar-se mentalmente por falta de maturidade; e o Benfica, fazendo valer a experiência e a manha de treinador e jogadores, começar a ganhar e passar à frente.

Mas aconteça o que acontecer, a estratégia certa para as equipas portuguesas é a que a dupla Varandas-Amorim está seguir: apostar em jogadores muito novos, que tanto podem vir da academia como ser comprados a clubes portugueses mais modestos ou em mercados relativamente baratos, como a América Latina.

Agora, mandar embora os jogadores da academia, desprezar o mercado português, e depois ir comprar por 20 milhões jogadores a grandes clubes europeus que vêm para Portugal sem qualquer motivação, como quem vem para o desterro, é um erro total. 

Dir-se-á que, sem uma estratégia ‘agressiva’, podem ganhar-se títulos em casa mas nunca mais se ganharão provas europeias, como Luís Filipe Vieira anunciava com pompa e aos quatro ventos. Mas deixemo-nos de fantasias e devaneios megalómanos: Portugal não tem condições económicas para ter grandes equipas europeias. Portugal tem de ter equipas jeitosas, clubes saudáveis financeiramente, e isso não é compatível com loucuras como as feitas pelo Benfica a comprar jogadores por dezenas de milhões que depois não rendem nada. 

Sejam mais modestos. Se o Benfica não quer pôr os olhos no rival da 2.ª Circular, ponha-os no FC Porto – que com uma equipa que reuniu os ‘restos’ que o Porto tinha emprestados a outros clubes, como Marega, juntando-os a outros comprados a clubes pequenos, como Manafá, Octávio ou Taremi, ou que foi buscar à academia, como Sérgio Oliveira, e com ajuda de sul-americanos que custaram barato, como Corona, tem feito muito mais em Portugal e mesmo na Europa. 

Não entra isto pelos olhos dentro?