Cultura

Zygmunt Bauman: 'É inevitável a queda do capitalismo pela própria ganância'

Foi um dia em cheio para terminar a 3.ª edição do Festival Literário do Madeira. O Teatro Baltazar Dias teve quase lotação esgotada ao longo das várias conversas cruzadas que lhe ocuparam o palco. A manhã começou em força: pelas 10h, António Scurati, Carlos Vaz Marques, João Luís Barreto Guimarães e Pedro Mexia juntaram-se para discutir ‘A arte da guerra’ e, logo depois, às 11h45, foi a vez de Anselmo Borges, Lídio Araújo, Gina Picart e Tabish Khair se debruçarem sobre ‘A arte da libertação’.

à tarde, a plateia já não tinha lugares livres e os vários camarotes encheram-se. o tema proposto, de resto, não poderia ser mais actual. ‘a arte de pagar as suas dívidas’ juntou em palco não economistas mas escritores e historiadores: carlos quiroga, maria do rosário pedreira, raquel varela e ruiz zink discutiram a dívida do país, as dívidas em geral, as dívidas connosco próprios e as dívidas perante amigos ou familiares.

raquel varela inverteu a ordem dos factores e chamou a atenção para os credores de portugal serem os próprios portugueses, credores de um bom sistema de saúde e educação, de respeito e de dignidade, dizendo: “é preciso inverter o jogo de espelhos. temos direito ao pão. e temos direito à poesia”. carlos quiroga falou da religião do dinheiro, dos seus fregueses típicos e das alternativas a essa fé que, espera, não passem por cuidados paliativos mas pela escolha de um modelo social digno.

maria do rosário pedreira, que contraiu uma dívida consigo própria de publicar livros de qualidade, traçou um panorama da edição ao longo dos últimos anos e disse que, apesar de a pagar religiosamente, as prestações estão cada vez mais difíceis de cumprir porque “o que enriquece o espírito nem sempre enriquece o bolso”. já rui zink, que fez questão de pagar uma dívida a sérgio godinho entoando, perante a plateia cheia, os versos de ‘etelvina’, afirmou que “tentar ser feliz no portugal de 2013 não é um direito, é um dever cívico, e um dever de rebeldia”, lembrando que as dívidas mais importantes que temos, de amizade, de amor e educação, nunca as poderemos pagar. e contou como uma vez um bom ladrão lhe assaltou a casa vazia a meio da noite, desistindo do roubo quando percebeu que ali viviam crianças. “graças ao bom ladrão comprei uma porta blindada”, disse zink. “não me protege dos ladrões profissionais mas protege-me dos que podem ir presos. porque os outros estão-se cagando para as crianças”.

mais tarde foi a vez de josé rodrigues dos santos e zygmunt bauman entrarem em cena para discutir a crise da europa, num teatro onde muitos já estavam de pé por falta de lugares sentados livres. josé rodrigues dos santos falou sobre a constituição da união europeia e do euro, dizendo que dificilmente poderá existir uma união monetária sem existir uma união política, considerando que, apesar de duro, talvez seja benéfico para portugal sair do euro.

e bauman falou não só sobre a história europeia, as suas guerras e processos de paz, como salientou o actual divórcio entre política e poder, reiterando que é preciso uni-los de novo. e não deixou de notar o profundo fosso que existe hoje na distribuição de riqueza e nos ordenados de um mesmo país: se, nos anos 60, os rendimentos dos mais ricos eram doze vezes superiores aos de um trabalhador manual, nos anos 80 esse rácio subiu para 82 e, em 2011, para 531. “essa é a consequência da ganância capitalista” afirmou o sociólogo, apelando à criação de instrumentos para a parar e questionando quem irá usar esses mesmos instrumentos. “não há nenhuma forma de impedir o capitalismo de cair em virtude da sua própria ganância. não faço profecias mas tenho a certeza que este séc. xxi será dedicado a recasar poder e política. até lá, vamos continuar a cair cada vez mais em crise”.

rita.s.freire@sol.pt