Desporto

Berlim. Os jogos de Adolfo

Ainda hoje a questão se coloca com frequência: por que é que as potências ocidentais não boicotaram os Jogos Olímpicos da propaganda nazi? A verdade é que Hitler teve de aceitar judeus na selecção que representava a raça ariana.

Hitler esfregava as mãos de contente mas o sorriso não surgia aberto por debaixo do bigodinho ridículo: «Ich rufe die Jugend der Welt!». Chamava a juventude de todo o mundo para Berlim, a cidade do futuro, construída para ser a capital do planeta. Os Jogos Olímpicos de 1936 foram, indubitavelmente, os mais politizados de sempre, mas é preciso acrescentar que essa politização se foi desenvolvendo à medida que o dia de abertura, 1 de agosto, se aproximava. Porque, não se esqueçam, os Jogos foram atribuídos a Berlim ainda antes de Adolfo ter chegado ao poder. Aliás, a questão foi colocada pelos historiadores nos anos vindouros: estaria Hitler realmente interessado em receber os Jogos? É que a Alemanha nazi não era propriamente um país de espírito internacionalista. Era, certamente, muito mais do que orgulhosamente só.

Quem esfregava as mãos bem mais do que o homem do bigodinho ridículo era outro homem, também com a sua boa dose de grotesco, chamado Joseph Goebbels. O seu espírito fino e a sua tremenda capacidade para gerar momentos de propaganda viram abrir-se às escâncaras a possibilidade de alardear durante quinze dias a superioridade da raça ariana através da componente desportiva. Sendo as Olimpíadas um movimento com raízes na Grécia antiga e assumindo-se os nazis como herdeiros da cultura grega, especialmente no que dizia respeito às noções da beleza humana e das proezas físicas, o discurso de Adolfo em Nuremberga, dois anos antes, no Dia da Juventude, batia certo com essa idiossincrasia: «No nosso ponto de vista, os rapazes alemães devem ser fortes e elegantes, rápidos como galgos, duros como couro e fortes como aço Krupp». E foi a fábrica de aço da família Krupp – que à revelia do Tratado de Versalhes ia alimentando com armas poderosas o exército do führer – que serviu para a introdução nos Jogos Olímpicos de uma cerimónia nunca feita até aí: a pira onde ardia a chama olímpica, transportada por jovens que percorreram, em estafeta, a distância entre a velha cidade de Olímpia e a nova Berlim, por estrada, atravessando os países de permeio e com milhares de pessoas à beira das estradas agitando bandeiras com a cruz gamada. Na verdade, esta ideia saiu da cabeça de um fulano que não tinha nada de nazi – Carl Diem, um professor universitário da história da Grécia. Goebbles era perito em aproveitar as ideias alheias.

 

Segregacionismo

Não foi sem confusões que a chama olímpica atravessou sete países, sobretudo com uma entrada em Viena que abriu uma fenda profunda entre os austríacos pró-nazis e antinazis. Cenas de pancadaria espalharam-se pelas ruas e avenidas enquanto os mapas distribuídos à populaça com o itinerário do facho já desenhavam fatias da Checoslováquia como parte da Alemanha.

Pelo caminho, a equipa olímpica alemã ia sendo formada com base na filosofia do segracionismo. Conta Gretel Bergmann, campeã alemã de natação, que foi posta de lado com um simples telegrama enviado pelo Comité Olímpico Alemão: «Por seres judia, deixas de ser bem vinda a esta equipa._Heil Hitler!». Tal como muitos outros atletas judeus, fora banida da prática do desporto. Telegramas do género eram expedidos às centenas, afastando os não arianos das pistas de atletismo e dos estádios. A seleção olímpica alemã deveria apresentar-se nos Jogos completamente purgada de quem não representasse o ideal da raça.

Os apaniguados de Hitler faziam-no às claras e não escondiam de ninguém, bem pelo contrário, a limpeza racial que estavam a promover entre os candidatos a participar nas Olimpíadas. De tal ordem que em Abril de 1933, mais de três anos antes de começarem os Jogos, os Estados Unidos da América abriram uma forte discussão sobre o assunto. O The New York Times não teve dúvidas em publicar na sua primeira página um aviso bastante evidente: «1936 Olympics May Be Cancelled Due to Germany’s Campaign Against the Jews». A diplomacia iria entrar em campo.

Muitos são os que ainda hoje se questionam porque é que as grandes potências democráticas não promoveram um boicote aos Jogos de Adolfo. O Major-General John F. O’Ryan, um herói da I_Grande Guerra, publicaria pouco depois um artigo no mesmo jornal no qual deixava bem explícita a sua posição: «Mr. Hitler’s violation of these common rights in their application to the Jewish citizens of Germany is a challenge to civilization». Uma ameaça à Civilização Ocidental levada a cabo por quem tinha a distinta empáfia de se assumir como herdeiro dos antigos gregos, os fundadores dessa mesma civilização ocidental.

Muitos foram os atletas americanos que vieram a público defender o boicote ao Jogos de Berlim. De tal ordem que Gretel Bergmann voltou a ser formalmente convidada para regressar à equipa olímpica alemã. Com ela, muitos outros atletas de diversas modalidades que tinham recebido o telegrama macabro foram readmitidos. Gretel não teve dúvidas quando, muitos anos mais tarde, participou num documentário sobre os Jogos de 1936: «De um momento para o outro, um forte movimento coletivo de desportistas americanos, franceses e ingleses começou a apoiar a ideia do boicote. Não tenho dúvidas de que houve ordens do führer para se voltar atrás na purga que tinha sido feita. Pelo menos no que dizia respeito aos atletas com maior capacidade para chegarem às medalhas. Um boicote teria sido desastroso para a ideia de grandiloquência que alimentava os propagandistas do nazismo».

Goebbels pôs, mais uma vez, mãos à obra com o cinismo que fazia parte da sua miserável personalidade. Começou a fazer convites aos representantes de comités olímpicos dos países mais poderosos para que se deslocassem a Berlim e pudessem testemunhar, in loco, não apenas o erguer de uma verdadeira cidade olímpica, com um estádio com 100 mil lugares e um complexo de piscinas, pistas de atletismo e campos de treino, como a forma independente de recrutamento e atletas. Convenhamos que aceitar ter judeus a representar a pátria da raça ariana foi, para Hitler, muito mais difícil de engolir do que as medalhas de Jesse Owens, o negro divino que bateu os deuses nazis. Apesar de tudo, o poderio germânico ficou expresso no total de 33 medalhas de ouro, 26 de prata e 30 de bronze, deixando bem para segundo plano os Estados Unidos com 24 de ouro, 20 de prata e 11 de bronze.

Owens, com as suas quatro medalhas de ouro, nos 100 e 200 metros, no salto em comprimento e na estafeta de 4 por 100, foi a figura maior dos Jogos Olímpicos de Berlim. A História registaria para sempre a grande hipocrisia que envolveu a ameaça de boicote por parte dos Estados Unidos: enquanto bramavam contra o segracionismo sofrido pelos judeus, viviam em pleno segregacionismo de negros dentro das suas fronteiras. Jesse Owens foi uma das maiores vítimas dele, mesmo após os seus títulos olímpicos. Por isso desabafou: «Ao menos Hitler acenou-me ao longe. O Presidente Fraklin Roosevelt nunca teve sequer a ideia de me apertar a mão».