Desporto

Arsenal. As meias desaparecidas

Em 1971, Benfica e Arsenal jogaram uma espécie de eliminatória: 2-0 para os encarnados, na Luz; 6-2 para os gunners, em Londres.


Cinco dias antes, o Arsenal tinha ido ao Estádio da Luz sofrer a bom sofrer para sair de Lisboa com uma derrota aceitável por 0-2, tal tinha sido a superioridade do Benfica no jogo amigável que marcara a despedida de José Torres dos encarnados, encaminhado para oVitória de Setúbal no negócio que trouxera Vítor Baptista na volta do correio. A imprensa inglesa tinha carregado o campeão português até aos píncaros do elogio: «Oh my God! What a marvellous team!». E deixara-se encantar pelas supersónicas fugas de Nené pela direita: «Tem movimentos que fazem lembrar o grande Stanley Matthews». Ficara marcado o jogo da desforra, para Londres, no Highbury, dia 4 de agosto. O mundo virar-se-ia do avesso.

Recordam-se daquela cena d’Os Maias, do imarcescível Eça, com o Carlos e o Ega na festa dos Gouvarinhos? Às tantas, um fulano bem ataviado aproxima-se do Carlos e pergunta-lhe: «O cavalheiro que viajou bastante pela Europa, elucide-me sobre um assunto: em Inglaterra também se encontra desta literatura amena como entre nós, folhetinistas, poetas de pulso?». E o Carlos, com um descaramento divino: «Pois fique vossa excelência sabendo que em Inglaterra não existe literatura!». O outro, impávido, aceitou a resposta como válida: «Logo vi, logo vi. Um povo essencialmente prático!».

O Benfica iria sofrer na pele e nos ossos essa tendência tão britânica para serem essencialmente práticos. Depois de terem perdido, em Lisboa, a possibilidade de golear tranquilamente o campeão inglês, optando pelo espetáculo em detrimento dos golos, saíram de Highbury ao peso de uma derrota dura: 2-6.

A sova e as meias

Estranharam os adeptos, e estranharam os próprios jogadores do Benfica, subirem ao relvado com o habitual equipamento alternativo, na altura completamente branco, mas com umas folclóricas meias amarelas. Pelo meio da confusão da viagem e das declarações alfandegárias, o baú das meias desapareceu e não restou alternativa senão pedir uns pares ao adversário que, por acaso, tem o seu equipamento de recurso baseado no amarelo e no azul. Mas, claro que apesar do episódio ter sido embaraçoso, a derrota nada teve que ver com ele.

Decididos a desmentir a imagem que tinham deixado na Luz, batidos por golos de Vítor Baptista e Eusébio e enfiados num carrossel de magia técnica interpretada pelo meio-campo e pelo ataque do onze de Jimmy Hagan, os arsenalistas atiram-se para cima dos portugueses com uma fúria e uma gana que tornavam bem percetível que tinham levado a mal a derrota da primeira mão desta espécie de eliminatória amigável de Taça dos Campeões. Curiosamente, ambos os oponentes foram eliminados pelo mesmo adversário na Taça dos Campeões Europeus dessa época, o Ajax. OArsenal nos quartos-de-final (2-1 e 1-0), e o Benfica nas meias-finais (0-1 e 0-0). Mas isso seria mais lá para o final dos trabalhos que estavam agora a começar, de tal forma que os desafios frente aos gunners foram os primeiros dos encarnados nessa pré-época.

Ao intervalo, o Arsenal já vencia por 3-0, com golos de Roberts, Redford e Armstrong, com José Henriques, Adolfo e Rui Rodrigues a saíram dos lances bastante mal vistos.

Era altura de puxar pelo galões e o segundo tempo foi inequivocamente mais equilibrado. Eusébio, a contas com mais uma das suas infinitas lesões, incapaz de exibir toda a sua suprema categoria, saiu para entrar Toni e o Príncipe de Mogofores dinamizou um meio-campo moribundo. De repente tínhamos jogo. Para cá e para lá. Logo aos 3 minutos, Artur Jorge marcou com um formidando golpe de cabeça. Em seguida, um cruzamento de Nené deu a Diamantino o 2-3. O público de Highbury estava contente. Afinal era pelo espetáculo que tinha pago o bilhete.

Mas Norman Burtenshaw, o referee, não esteve propriamente pelos ajustes. Irritando os próprio adeptos londrinos, tornou-se protagonista do jogo. Graham, claramente fora-de-jogo, subiu a conta para 4-1 e, escassos minutos mais tarde, ei-lo que aponta um penálti que só ele foi capaz de vislumbrar e provoca um fudevu entre jogadores, levando dois ou três a exageros de contestação ao mesmo tempo que, das bancadas, vinha um assobio em uníssono de gente profundamente irritada por haver quem se atrevesse a estragar um espetáculo até aí entusiasmante. O sexto golo surgiu já com os rapazes das meias amarelas completamente desconcentrados. A bela révanche que o jogo da Luz prometera para Highbury desperdiçava-se pelo abuso de autoridade de um tipo que nada tinha de cavalheiro. O Benfica continuou na sua digressão inglesa, passando por Newcastle e Middlesbrough. A época seria de inequívoco sucesso.