Mente (In)quieta

Pela demolição dos Salteadores da História e das Mentes Bafientas

Ainda há racismo? Claro que há! Como há mentes brancas, pretas, iluminadas que acham normal propor o extermínio da História. O racismo existe, sim. Como a estupidez. E são de todas as cores.

por Sofia Aureliano

Foi uma semana de inquietações, de perplexidade e até de vergonha alheia. De tal modo que não sei se estas linhas chegarão para a catarse.

1.História é História. Quem somos nós para negarmos aquilo que fomos, o caminho que fizemos e não honrarmos os nossos antepassados? Com que direito julgamos poder, no século XXI, apagar séculos de acontecimentos, de cultura e de vida, porque não se coadunam com o que hoje são os valores com que nos identificamos? O que é que isso faz de nós? Obscurantistas, hipócritas e, acima de tudo, ingratos.

É imensa a perplexidade com que assisto, em democracia, a propostas de destruição de monumentos de homenagem à nossa História ou de apagamentos de vestígios do que fomos. Mas é a mesma democracia que me obriga a ter de controlar o repulso visceral que tais sugestões me provocam e a ter de tolerar coexistir com quem faz asserções destas.

Não deixa, contudo, de ser irónico que tenha sido a História a trazer-nos até aqui. Até ao momento e à conjuntura que permite que se possa alvitrar, sem consequências, que se desrespeite a História, se maltratem os antepassados e se a tente fazer esquecer. Ou acham que, noutros tempos da História, o simples sussurro deste pensamento não teria consequências?

2. Serpente disfarçada de lagarta. Esta não é mais uma manobra de diversão. Não pode nem deve ser tratada como tal. Deve ser profundamente analisada porque falamos de representantes do povo, eleitos democraticamente, que enchem o peito para falar de direitos fundamentais, de respeito pela dignidade humana e pela liberdade de expressão, de pensamento e de culto.

Viram a face e, sob a capa de pensadores avant-garde, arremessam opiniões bafientas que dão origem a petições perigosas que se assemelham a comportamentos que acordam em nós recordações de tempos idos ou de outras geografias.

Como quando a política marxista-leninista da União Soviética impunha o ateísmo, perseguia os cristãos e demolia tudo o que representava a liberdade de culto: igrejas, mesquitas e sinagogas.

Deitar abaixo tudo o que não se coaduna com os valores que defendem. Este é só um dos exemplos da História. Há muitos outros, de diferentes ideologias, correntes e motivações, em que sendo os temas distintos, o modus operandi repete-se.

Serão assim propostas tão diferentes?

3. Racismo vs. Racismo. É inquietante a forma como hoje se cospem palavras como pastilhas elásticas já gastas e insípidas. Fala-se de brancos e de pretos. De negros e de arianos. Usurpam-se conceitos e desencantam-se opressores, conforme dá jeito à retórica e se ajusta ao argumento. Ganham-se mais uns likes e juntam-se mais uns braços no ar daqueles que parecem hipnotizados e automaticamente se juntam à causa quando ouvem a palavra “Raça”. Nem interessa o enquadramento. Fica bem no mural. “Estamos juntos!”

Hoje, racismo e antirracismo servem para tudo. Servem para expulsar, para agredir, para hostilizar, para oprimir, para separar. Servem para alimentar o ódio e teorizar sobre a prevalência de uma atitude de superioridade de um grupo, ou “raça”, sobre outro. Não há forma de equilibrar o passado: os brancos foram colonizadores. Os pretos foram escravos. Foi assim. O contrário não aconteceu e não podemos reescrever os factos.

Mas como a História evoluiu, e como a democracia nos obriga a tolerar sugestões dilacerantes (proferidas por brancos) que achamos completamente absurdas e inaceitáveis, também a História evoluiu, e hoje a democracia da sociedade moderna tende para a supremacia da miscelanização, onde se caminha para o fim dos grupos. Se for a paz o que se procura.

Ainda há racismo? Claro que há! Como há mentes, brancas, pretas, iluminadas que acham normal propor o extermínio da História.

O racismo existe, sim. Como a estupidez.

E são de todas as cores.