Contra a Corrente

É disto que é feito Portugal

Na Escola de Fuzileiros, sob a influência do Calvão, ensinava-se que «matar um preto era como matar uma cabra». Um camarada meu que, depois, foi lá diretor de instrução, passou a ensinar que os africanos são homens iguais a nós, devendo ser tratados com respeito e dignidade. São estes os exemplos que importa lembrar e seguir, os do ‘povo miúdo’ e do meu camarada ‘de Abril’. É disto que é feito Portugal, e não do seu contrário!

Li nestes dias o livro Ir Pró Maneta, de Vasco Pulido Valente, sobre a revolta popular de 1808 contra os franceses. Em síntese, estava, por um lado, todo o ‘establishment’ nacional de mãos dadas com os invasores franceses e, por outro lado, o ‘povo miúdo’ obrigado a suportar às suas fracas custas o fardo da ocupação. Este povo miúdo pegou nas suas armas, isto é, em paus, forquilhas e outros instrumentos de trabalho e, por todo o lado, ‘de norte a sul e de leste a oeste’, perante o cagaço da ‘sociedade’ instalada, começou e perseguir os colaboracionistas, a constituir juntas autónomas de ‘governo local’ e a perseguir e flagelar as formações militares francesas. Estes retaliaram de modo brutal e o ‘Maneta’, o general Loison, a quem faltava um braço, sediado em Almeida, organizou uma expedição punitiva visando a reconquista das terras sublevadas no Norte. Teve de recuar, humilhado, perante hostes populares armadas de paus, tendo então iniciado a «única estratégia coerente de contraguerrilha: as represálias maciças sobre a população civil». Pouco interessava a Loison «se as vidas e os bens pertenciam ou não a guerrilheiros ou a cúmplices da guerrilha, não importava. Em certa medida, convinha até atingir a maioria inerte, neutra e inocente, porque se o estrago fosse suficientemente profundo e dramático, ela própria, para sua defesa, se encarregaria de asfixiar na agitação, ou, pelo menos, tornar-se-lhe-ia hostil».

O Maneta descreveu assim as suas atividades na Guarda: «O massacre foi terrível, a desordem geral; tudo o que pôde escapar, fugiu e dispersou-se; mais de mil mortos [portugueses  ] ficaram no campo de batalha». «Como não hesitava em gabar-se de haver passado à espada, arrasado e incendiado aldeias inteiras para punir atos de hostilidade de algum dos seus habitantes».

«Em Beja, Maurasin assassinou 1200 pessoas e permitiu também a pilhagem, as violações, e profanação de conventos e igrejas». O general Margaron assaltou Leiria e «despovoou a cidade. Houve 200 mortos e milhares de pessoas debandaram em pânico para os campos; 81 não conseguiram salvar-se a tempo e foram fuziladas. Eram, na maior parte, mulheres, crianças, cegos, aleijados …». A 29 de julho, o Maneta surgiu «frente a Évora com 10.000 franceses dispostos a uma vingança exemplar. O avanço no interior de Évora foi duramente ganho, rua a rua, casa a casa, contra o fogo terrível que paisanos e milícias faziam das janelas, telhados e torres de igrejas. As operações militares custaram 5.000 mortos, 2.000 feridos e prisioneiros entre os portugueses vencidos. O saque e as execuções aumentaram a conta para 8.000 mortos».

Estas descrições servem para que meditemos, a partir do nosso próprio sofrimento, naquilo que foram as guerras coloniais que travámos com os povos africanos, eles também ‘ocupados’. Não quero falar dos nossos próprios ‘manetas’ a quem transformámos em ‘heróis nacionais’.

A mim, enquanto jovem oficial da Armada cheio de ideais patrióticos e de Justiça, chocavam-me as bazófias de outros oficiais que ‘vinham de comissão’. Uns divertiam-se com o episódio ‘da velha e das duas miúdas com trouxas de roupa à cabeça’ que os seus homens tentavam, a longa distância, acertar a tiro. ‘Quando uma caía, era uma festa’… Não gostei também da descrição do interrogatório a um ‘turra’, na Guiné, que ao fim de uma noite a levar com uma meia de areia na cabeça começou a deitar sangue pelos ouvidos e pelos olhos. Fizeram-lhe a misericórdia com uma granada enfiada na boca… Outro, tempos depois, mostrou-me a foto da cabeça cortada e enfiada num pau de outro ‘turra’ a quem tinham cortado o sexo e o haviam enfiado na boca antes da decapitação.  

Na Escola de Fuzileiros, sob a influência do Calvão, ensinava-se que «matar um preto era como matar uma cabra». Um camarada meu que, depois, foi lá diretor de instrução, passou a ensinar que os africanos são homens iguais a nós, devendo ser tratados com respeito e dignidade. São estes os exemplos que importa lembrar e seguir, os do ‘povo miúdo’ e do meu camarada ‘de Abril’. É disto que é feito Portugal, e não do seu contrário!