Cultura

Festivais de música devem regressar no verão. A bolha e os testes que podem salvar os concertos no país

A DGS permitiu a realização de concertos-piloto, em Lisboa e no Porto, com testes rápidos à entrada. Promotores e artistas agradecem e veem a luz ao fundo do túnel.

Serão poucos os jovens que não sentem saudades das emoções que se vivem nos festivais de Verão. Mas o fim do jejum forçado começa a perfilar-se no horizonte.

Embora ainda não exista data prevista para o desconfinamento, agentes ligados a festivais e concertos estão confiantes que voltaremos a poder assistir, ainda este Verão, a concertos e outros eventos. Para isso, continuam em reuniões com o Governo na tentativa de perceber a melhor estratégia para a realização do que começa a ser conhecido como “festivais-bolha” livres de covid-19.

Há várias semanas que empresários do setor defendem este modelo. Álvaro Covões, diretor-geral da Everything Is New, em declarações ao ECO, esclarece que estes “eventos-piloto” serão como “ensaios clínicos que se foquem numa eventual introdução do sistema de criação de bolhas”, acrescentando que a ideia passa por garantir que todos os que frequentam o referido evento sejam testados previamente, podendo apenas entrar no recinto aqueles que apresentem um resultado negativo.

Estes “eventos-teste” deverão mesmo acontecer, com luz verde da DGS, no Campo Pequeno, em Lisboa, e no Pavilhão Rosa Mota, no Porto,. Terão um número muito reduzido de pessoas, permitindo criar um modelo matemático a partir daí. Além de fazerem um teste rápido à covid-19 até 72 horas antes do evento e um segundo teste à entrada para o recinto, terão de responder a um questionário passados 14 dias, fazendo ainda um novo teste de despiste. O uso de máscaras será obrigatório.

Álvaro Covões afirma que isso irá permitir perceber se será possível realizar festivais de música “com mais pessoas” e com “menos distanciamento”. No seu entender, uma redução da lotação deste tipo de eventos “não faz sentido”, dado que os festivais se realizam em condições em que o “vírus se dá menos bem”, ou seja, no verão e ao ar livre.

É nestes moldes que a atividade dos festivais de música deverá decorrer até se atingir a tão aguardada imunidade de grupo. O diretor da Everything Is New mostra-se ainda desejoso que se “consiga criar um sistema ainda mais seguro” do que os dos “hospitais” e “aviação”.

Artistas esperançosos O mundo do espetáculo foi surpreendido por esta previsão e são muitos os artistas que se mostram otimistas com este avanço. “Fico muito contente que isto possa vir a ser efetuado este ano”, afirma ao i Nuno Gonçalves (músico, compositor e fundador dos The Gift). Mas no que toca à forma de testar os participantes o músico frisa que “mais do que o teste rápido, poderia ser aplicado um passaporte de saúde”. Sobre o tempo de espera associado a estes novos modelos, que obrigam os participantes a aguardar durante um compasso de tempo enquanto recebem o resultado do teste feito antes de entrar na sala, Nuno Gonçalves tem pensamentos divididos. Mesmo se poderá afastar alguns, “quem esteve um ano à espera de concertos, tolera meia hora ou até uma hora de espera”.

Da mesma opinião é Luís Salgado, programador cultural do espaço Maus Hábitos, no Porto. “As pessoas estão com sede de ir a concertos”, diz ao i, e portanto o tempo de espera não será um obstáculo.

A utilização de testes é “a única solução possível a pensar neste verão”, refere o músico dos The Gift, que acredita que a imunidade de grupo só será atingida por completo no fim do ano, impedindo que os festivais de verão se realizem nos moldes pré-covid. 2021 será assim uma “medida de transição”, permitindo às empresas faturar e aos organizadores começarem a gerar alguma receita, de forma a aguentar os custos e poder dar condições aos diferentes trabalhadores do setor.

“Para quem gosta de música, ter a solução de esperar uns minutos, mas podermos ver um concerto como víamos antes, sem divisões, é de longe uma ótima notícia, e devemos ficar muito felizes”, conclui.

Festivais pelo mundo Mas não é só em Portugal que assistimos à retoma das actividades do setor cultural.

Para quem acha que “festivais-bolha” é apenas uma metáfora para dizer que as salas onde ocorrerão os “eventos-piloto” são seguras, não conhece a mente futurista da banda Flaming Lips, que presenteou os seus fãs com um concerto dentro de “bolhas espaciais”, no princípio deste ano.

Por todo o mundo já se assiste a um acordar do “coma artístico”.

O governo holandês já marcou eventos-teste que decorrerão no próximo mês, e anunciou que está a trabalhar no sentido de permitir a realização de festivais a partir de 1 de julho. Os dois eventos teste juntarão 3 mil pessoas, que terão de apresentar testes negativos à covid-19, medir a temperatura à entrada e permitir que sejam rastreados os momentos de contacto no interior do recinto.

O Ministério da Cultura francês, por sua vez, confirmou que “é essencial darmos visibilidade aos nossos organizadores dos festivais que, no início do ano, devem decidir se prosseguem [os festivais e espetáculos] e em que formato”. Segundo a ministra da Cultura francesa, Roselyne Bachelot, estes concertos deverão ter a audiência “limitada a cinco mil pessoas com público sentado”.

No Reino Unido, o plano de desconfinamento apresentado recentemente pelo Governo prevê que os festivais de música regressem a partir de 21 de junho.

* com Sara Porto