Opiniao

Entre negócio e segurança, um dilema europeu?

Deste modo, somando as duas parcelas, os Estados Unidos continuam a ser o primeiro parceiro económico dos Vinte e Sete. Também sempre segundo o Politico, os números do investimento americano na Europa nos três primeiros trimestres de 2020 (55 mil milhões de Dólares) são muito superiores aos investimentos chineses. E postas as coisas do lado americano, os lucros das companhias norte-americanas na Europa atingiram os 254 mil milhões de dólares, mais de vinte vezes os lucros das suas operações na China.

por Alexandre Pinto

Em meados de Fevereiro, a CNN anunciava, citando dados da EUROSTAT, que a República Popular da China, segundo as estatísticas comerciais de 2020, era agora o primeiro parceiro comercial da União Europeia. Isto graças a um aumento das importações europeias da China (5.2%) e um aumento das exportações para a China (2,2%). O valor total do comércio tinha sido, entre os dois parceiros, de 586 mil milhões de Euros.

Nesse mesmo annus horribilis de 2020, os valores em relação ao comércio europeu com os Estados Unidos tinham caído drasticamente –13,2% nas importações e 8,2% nas exportações. Não era de surpreender já que, em 2020, e economia da China crescera cerca de 2,3% e a dos Estados Unidos caíra 3,5%. Esta era a situação em termos da importação e exportação de mercadorias, mercê da Pandemia e dos desastres em cadeia que trouxe às economias euro-atlânticas. Enquanto o total de transacções de mercadorias com a China era de 586 mil milhões de euros, com os Estados Unidos ficava-se nos 555 mil milhões. No ano anterior, pré-Covid-19, o comércio com os Estados Unidos tinha atingido 617 mil milhões de Euros, e com a China 561 mil milhões de Euros.

Mas se levarmos em conta um conceito alargado de relações comerciais, e incluirmos a balança de serviços, a relação altera-se. Num artigo em Politico (19-02-2021), Daniel Hamilton chama a atenção para este aspecto. Embora ainda não haja estatísticas completas do ano de 2020, nos três primeiros trimestres o total do valor da troca de serviços entre a União Europeia e os Estados Unidos, foi de 296 mil milhões, enquanto que, com a China, se ficou nos 53 mil milhões.

Deste modo, somando as duas parcelas, os Estados Unidos continuam a ser o primeiro parceiro económico dos Vinte e Sete. Também sempre segundo o Politico, os números do investimento americano na Europa nos três primeiros trimestres de 2020 (55 mil milhões de Dólares) são muito superiores aos investimentos chineses. E postas as coisas do lado americano, os lucros das companhias norte-americanas na Europa atingiram os 254 mil milhões de dólares, mais de vinte vezes os lucros das suas operações na China.

A questão é diferente quando se examinam as implicações políticas, ou melhor o ponto das relações políticas entre os dois grandes poderes político-económicos – Estados Unidos-China – e a posição da Europa.

 

A América de volta – Mas quem a espera?

Depois de confirmada a eleição de Biden, houve alguma tendência nos Estados Unidos, na Europa e na própria China, em atribuir ao mau feitio e à agressividade do ex-Presidente Trump, a escalada com Pequim (a célebre referência ao “Chinese vírus”) e o afastamento da Europa e dos Aliados europeus. Talvez valha mais a pena encarar a questão dum modo realista: seja com Trump, seja com Biden, são muito maiores as identidades e afinidades civilizacionais dos Europeus com os Americanos do que com os Chineses. Mas muitos políticos e homens de negócios europeus gostariam de ter o melhor de dois mundos:  a aliança e segurança político-militar dos Estados Unidos e os negócios da China – e com a China.

Isto é capaz de ser possível no curto prazo, mas não vai ser sustentável no médio prazo, e terá que haver escolhas.

Nesse sentido as propostas de Biden, nomeadamente na conferência virtual de Segurança em Munique, manifestando a sua crítica às práticas de Pequim nas relações económicas internacionais (“Temos que resistir aos abusos e à coerção do Governo chinês, que põe em causa as fundações do sistema económico  internacional”).Biden, sem o mencionar directamente, referia-se, com os “abusos”, a práticas monopolísticas das grandes empresas chinesas e ao modo como o poder político do Estado e do Partido comandam e controlam essas empresas.

As respostas de Merkel e de Macron ao “America is back” de Biden não foram, entretanto, entusiásticas. Enquanto Macron referia a importância da “autonomia estratégica” da Europa, Merkel sublinhou que os interesses dos Estados Unidos e da Europa “nem sempre são convergentes”.

 

Neutralidade e liberdade

Num artigo no Wall Street Journal de 23 de Fevereiro, William Galston referia que esta consequência está precisamente, como reacção ao quadriénio de Trump e à tensão política nos Estados Unidos revelada pelas últimas eleições, e que muitos europeus estão a repensar a relação atlântica; e que gostariam que os seus governos mantivessem uma posição de neutralidade na “guerra fria” China-Estados Unidos, posição seguida por metade dos inquiridos em 11 países europeus onde foi feita uma sondagem. Mais, uma maioria dos interrogados está convencida que a China, em dez anos, poderá ultrapassar os Estados Unidos como primeiro poder mundial.

A pergunta que fica no ar, entretanto, é se os Europeus estão dispostos ou vão a tempo de criar um poder militar que os torne independentes, para a sua segurança, dos Estados Unidos. E sem esse poder militar, conseguirão manter essa neutralidade? E, em qualquer caso, será um mundo de hegemonia da RPC compatível com a tradição das liberdades e dos direitos a que estão habituados povos europeus?