Mente (In)quieta

Prioridades Invertidas e alegadas sugestões mal-amanhadas

Qual é o papel do Estado? É o de ser mero intermediário da transferência de fundos, imposta por decreto, entre cidadãos solidários, forçados ou voluntários, e cidadãos necessitados?


por Sofia Aureliano

1. Burguesia e Teletrabalho. Juntar os dois conceitos para definir um forçado arquétipo de pessoas alegadamente favorecidas pelo acaso de terem escapado financeiramente ilesas à conjuntura pandémica é um protuberante ato falhado.

Primeiro, do ponto de vista conceptual. Supõe-se que, se se é burguês, no sentido em que a palavra foi empregue, é-se patrão. Logo, não se trabalha. Nem presencialmente nem à distância. Os burgueses, no sentido pejorativo em que o termo foi evocado, não fazem. Mandam fazer.

Segundo, porque associar a manutenção de um posto de trabalho em contexto de pandemia a um estatuto de privilegiado é redutor, papalvo e manifestamente simplista. Pouco habitual em quem se faz bem valer de um profícuo curriculum académico. Mas enfim, todos temos dias maus. E temos direito a tê-los.

Contudo, aquela que poderá parecer uma sugestão aparentemente apenas mal-amanhada, tem tido eco como “de bom fundo”, com o inocente objetivo de lançar uma reflexão sobre se deverão os privilegiados que mantiveram o rendimento inalterado durante a crise contribuir para minorar a perda de rendimentos dos que a pandemia mais afetou, à luz de um princípio de solidariedade outras vezes já utilizado.

Pode ser defeito de fabrico, mas não me convencem que a forma imperfeita com que foi enunciada a ideia seja ingénua ou fruto de um mau dia. Ou sequer que comprometa qualquer tentativa de levar o tema a sério. Pelo contrário. Estamos todos a falar sobre isto, não estamos?

Parece-me mais ser um engenho ardiloso, inteligente e astuto: uma bala de canhão que entretém as redes sociais por uns dias, ocupa os espaços de opinião umas semanas (mesmo desconfiada, eu mordi o isco!), consegue milhares de partilhas, cumprindo um propósito encriptado de medir o pulso à putativa solução, enquanto desvia a nossa atenção para a escandalosa inversão de prioridades de quem decide.

2. Decretos e Bazucas.

Comecemos pelo substantivo. Entre solidariedade e obrigatoriedade vai um caminho muito longo. E qualquer regra que obrigue a um ato de bondade, que deve ser individual e autêntico, deixa de ser solidariedade e passa a ser obrigação.

Chamem-lhe o que quiserem: o que é imposto não é voluntário.

Terminemos na culpa. Nenhum de nós queria estar a viver nesta conjuntura e cada um está a sofrer as consequências à sua escala, à medida da sua realidade. O impacto da pandemia não se mede só em euros. E quem somos nós para fazer juízos de valor sobre o grau de sofrimento dos outros?

Não entremos em campeonatos de quem sofre mais nem porquê. Ninguém sai vencedor nessa corrida. E como sociedade, só nos afasta. Perdemos todos.

Temos tanta culpa de sair ilesos da pandemia como de escapar a um furacão. O facto de não termos perdido dinheiro com a crise não faz de nós piores pessoas nem tampouco ricas. Na generalidade, vivemos com as mesmas obrigações e as mesmas contas para pagar ao final do mês.

Não estou a dizer com isto que a crise humanitária possa ser ignorada nem que não tenham de ser criados mecanismos de apoio para uma substancial parte da população. Têm! E o quanto antes.

Só questiono quem é que tem essa responsabilidade.

Qual é o papel do Estado? É o de ser mero intermediário da transferência de fundos, imposta por decreto, entre cidadãos solidários, forçados ou voluntários, e cidadãos necessitados?

Não será o Estado quem deve suportar a perda de rendimentos e dirigir o dinheiro da tão afamada “bazuca” para socorrer os setores mais afetados, atender às necessidades mais prementes e reequilibrar a economia?

3. Um teto ou um lago? O governo anunciou com pompa e circunstância que Souto Moura projetou a construção de um lago artificial gigante, que custará ao Estado 1,8 milhões de euros, com intento de homenagear as vítimas de Pedrógão Grande.

Sabemos que a reconstrução total das segundas habitações ficou de fora dos apoios do Estado a fundo perdido, porque o dinheiro que os portugueses tão generosamente doaram só chegou para reconstruir as habitações permanentes. E os 2,5 milhões de euros com que o Estado contribuiu não chegaram para cobrir sequer a totalidade do apoio aos agricultores. Parte desse apoio foi também suportado pelos donativos dos portugueses.

As segundas habitações, apesar de não serem local de residência fixa, são fundamentais para evitar a desertificação da região e dinamizar a sua economia. Arderam centenas delas que hoje continuam em ruínas, por reconstruir, deixando aldeias fantasma onde a recordação da tragédia é dolorosa e permanente.

Sinto-me verdadeiramente irritada por ser pouco criativa e não conseguir mudar a cassete, mas vejo-me impelida a perguntar: não estamos novamente perante uma situação de prioridades invertidas?

Será que o governo acha que se olharem para o lago, os cidadãos que viram o seu património arder naqueles dias de horror em 2017 serão imbuídos do espírito de Pessoa em “Lago Mudo”: Contemplo o lago mudo / Que uma brisa estremece. / Não sei se penso em tudo / Ou se tudo me esquece.

Talvez seja isso. Ou talvez não. É deveras sofisticado.