Internacional

Proibição do véu islâmico divide a Suíça

Alguns veem no referendo uma derrota do islão “radicalizado”, outros um ataque à liberdade religiosa.

 


Para as muçulmanas suíças que queiram utilizar hijab ou niqab, tapando o rosto, a vida tornou-se mais complicada. Um referendo vinculativo na Suíça, este domingo, proposto pelo partido de extrema-direita Povo Suíço (SVP), proibiu que se oculte o rosto em público, abrindo exceções no Carnaval. Pode parecer paradoxal numa altura em que se vêm máscaras em todo o lado, em tempos de pandemia, mas o objetivo é impedir o uso do véu islâmico - não o diz na nova lei, mas os seus proponentes deixaram-no bem claro,

“Nos últimos anos, assistimos a uma forma de radicalização ostentosa do islão no espaço público”, afirmou Jean-Luc Addor, dirigente nacional do SVP, ao Swissinfo, considerando que “esta tendência manifestou-se num crescente número de mulheres que saem à rua usando hijab ou, nos casos mais radicais, hijab”. 

Contudo, para muitas das mulheres que de facto usam estas vestes, trata-se de algo muito diferente. “Sinto-me melhor e mais segura a usá-lo”, explicou Valentina, que optou por passar a usar niqab recentemente, à Al Jazira. “E é um ato de adoração religiosa”, acrescentou, durante a campanha do referendo - caso vencesse a proibição, Valentina prometia voltar ao seu Egito natal. Talvez já esteja a fazer as malas, como tantas outras, ou a esconder-se em casa, tendo o “sim” à proibição obtido 51,2% dos votos, contra 48%. 

Contudo não houve um consenso geral. Tanto o governo como o parlamento Suíços opuseram-se à proibição do véu islâmica, considerando que esta medida pode provocar um fenómeno de marginalização no país, advertindo ainda para os efeitos negativos que poderá vir a ter no setor do turismo.

Os grupos muçulmanos, em massa, também já demonstraram o seu desagrado na proposta. “A decisão de hoje abre velhas feridas, expande ainda mais o princípio da desigualdade legal, e envia um sinal claro de exclusão à minoria muçulmana”, disse o Conselho Central de Muçulmanos suíço. A declaração vai ao encontro do que considerou Cyrielle Huguenot, responsável de direitos das mulheres na Amnistia Internacional na Suíça. “A proibição do véu completo não é uma medida que vise a libertação das mulheres. Pelo contrário, é uma perigosa política simbólica que viola a liberdade de expressão e religião”, declarou o ativista. 

A Suíça já tinha proibido a construção de novos minaretes em 2009 - com o SVP a liderar a carga - e junta-se a países como França, que proibiu o uso do véu facial completo em público, em 2011, e à Dinamarca, Áustria, Holanda e Bulgária, que proibiram que se tape o rosto, parcial o totalmente, em público.

De acordo com dados de 2019 do Gabinete de Estatística, cerca de 5,5% da população suíça é muçulmana, principalmente com raízes na Turquia, Bósnia e Kosovo.