Carta de Wall Street

Jack vs. Jack

Quando investirem em Portugal, recomendo que usem um parceiro local competente, honesto e bem conectado 


Por Pedro Ramos

Nova Iorque, março 2021

Queridas Filhas,

Nos negócios e investimentos precisamos de conhecer o ambiente em que operamos. Apesar da globalização, as condicionantes de cada país têm ainda um papel fundamental. 

Nos últimos meses estas diferenças foram bem ilustradas pelos destinos divergentes de dois empreendedores com o mesmo nome: Jack. 

Jack Dorsey, fundador do Twitter baniu o Presidente (Donald Trump) da sua plataforma em janeiro de 2021 e nenhuma consequência legal e regulatória viu (pelo menos até agora). 

Jack Ma, fundador da plataforma de e-commerce Alibaba e da plataforma financeira Ant Financial criticou a regulação financeira do seu país (China) no último trimestre de 2020. Dias depois, a saída na bolsa de Hong Kong da Ant Financial foi cancelada. Semanas depois o grupo Alibaba foi alvo de buscas no âmbito do início de uma investigação anti monopólio (anti-trust) que se encontra ainda a decorrer. 

Os destinos muito diferentes dos dois Jack mostram bem o impacto do ambiente jurídico, político e regulatório nos negócios e investimentos. Antes de qualquer investimento estes têm de ser estudados a fundo. 

Os EUA e a China são exemplos extremos. A grande maioria dos países situa-se num ponto intermédio deste continuo. Mas estudar os extremos é útil para perceber as vantagens e inconvenientes de cada sistema.

A força da lei e do estado de Direito nos EUA atraem capital e talento. Permitem ainda experimentar novos modelos de negócio com segurança de proteção de propriedade intelectual. Isto faz dos EUA o destino predileto de empreendedores de todo o mundo. 

Na China o modelo autoritário permitiu mobilizar o país no combate à covid-19 melhor do que os países ocidentais. Permitiu ainda criar um modelo de crescimento económico de muito sucesso nas últimas décadas. Surgem agora questões se esse modelo pode assumir a liderança na inovação em alguns setores de atividade dados os obstáculos para atrair talento.

Que modelo escolheu Portugal? Não tem uma escolha definitiva e estratégica. Historicamente tem estado alinhado com os EUA seguindo a posição da União Europeia. Mas na prática o país tem uma regulação alta e crescente. Tem ainda pouca transparência em matérias de poder político, com alegados abusos e crimes a arrastarem-se por tribunais por mais de 10 anos. A isto acresce um peso muito elevado do estado na atividade económica. 

Este modelo misto, faz de Portugal um caso pouco notório no panorama mundial. Isto dificulta a atração de capital e de talento necessário para desenvolver novas indústrias e criar mais empregos com melhores salários. 

Quando investirem em Portugal, recomendo que usem um parceiro local competente, honesto e bem conectado. Recome ndo ainda que se foquem só em projetos com perspetivas de rentabilidade muito acima da média. Com a regulação e falta de transparência, muita coisa pode e vai correr mal. E se o projeto já tiver viabilidade apertada antes dos ventos contra, é pouco provável que chegue a bom porto.