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Posse. Marcelo deixa aviso ao Governo: reconstruir é mais do que "regressar a 2019"

Presidente diz que é o mesmo de há cinco anos, que é preciso “estabilidade sem pântano”, ou seja, sem crises políticas e realçou o papel da democracia em tempos de pandemia. O novo mandato segue a alta velocidade.


Foi um discurso síntese de vinte minutos sobre o novo mandato de cinco anos. Marcelo Rebelo de Sousa tomou ontem posse para um novo capítulo da sua permanência em Belém com uma garantia: “Sou o mesmo do que era há cinco anos”. Mas o Presidente da República quis falar das lições do anterior mandato, da pandemia da covid-19 e as prioridades de futuro. E é aqui que fica o recado ao Governo, em jeito de missão (Marcelo elencou cinco): “(...)Teremos de reconstruir a vida das pessoas, que é tudo ou quase tudo: emprego, rendimentos, empresas, mas também saúde mental, laços sociais, vivências e sonhos. É mais, muito mais do que recuperar, ou seja, regressar a 2019 ou a fevereiro de 2020. E essa é a terceira lição deste ano”.

O recado estava dado e o Presidente recém-empossado deixou esta espécie de caderno de encargos ao Governo. O primeiro-ministro ouviu-o, até foi questionado sobre este aviso de Belém, mas António Costa preferiu desejar felicidades ao Presidente e destacar a agenda de Belém, muito clara, “de cooperação institucional e de solidariedade estratégica, que unirá os portugueses”.

No seu discurso de posse, como também à margem de uma sessão ecuménica do Porto, Marcelo quis focar a mensagem no papel da Democracia, insistindo que “vivemos em democracia, queremos continuar a viver em democracia, e em democracia combater as mais graves pandemias”. Mais: “Preferimos a liberdade à opressão, o diálogo ao monólogo, o pluralismo à censura, e demonstrámo-lo realizando duas eleições em pandemia, de uma das quais resultou a subida da oposição ao Governo”. Por isso, a primeira lição e prioridade para Marcelo é dar continuidade à defesa da democracia, (contra extremismos) porque é preciso “convergência no regime e alternativa clara na governação, estabilidade sem pântano, justiça com segurança, renovação que evite rutura, antecipação que impeça decadência, proximidade que impossibilite deslumbramento, arrogância, abuso do poder”. E “assegurá-lo é a primeira prioridade do Presidente da República para estes cinco anos”. Mais tarde, à margem de uma sessão ecuménica no Porto, Marcelo insistiu que o “pântano existe quando não há liberdade, quando não há democracia” e que muitas sociedades lutam contra a pandemia da covid-19 em ditadura. Mas, “com todos seus erros e insuficiências, a democracia tem uma riqueza humana e um respeito pela dignidade humana que nenhuma ditadura tem”.

Num dia solene –e quase sem povo ou afetos devido à pandemia da covid-19, a exceção foi à saída do Centro Islâmico do Porto, onde Marcelo tinha à sua espera dezenas de pessoas com os telemóveis a postos para registarem o momento. E Marcelo não resistiu a algumas (poucas) selfies, meteu conversa com uma criança – “tu gostas de chocolate”– e seguiu para outro ponto de agenda que não estava previsto: uma visita ao Bairro do Cerco. Há cinco anos visitou o bairro cinco dias depois de tomar posse. Ontem, fez tudo no próprio dia, ao lado do autarca Rui Moreira, que ainda ouviu algumas reivindicações dos moradores. Já o Presidente foi recebido por dezenas de pessoas que o quiseram acompanhar ao Bairro do Cerco, enquanto acenava aos moradores e tentava gerir distâncias devido à pandemia. “Eu tento fugir”, desabafava aos jornalistas enquanto caminhava e resistia à tentativa de um abraço de uma moradora.

Mas voltando ao discurso de posse, Marcelo ainda apontou mais três missões ou prioridades: “desconfinar com sensatez e sucesso”, “evitar nova exaustação das estruturas de saúde e dos seus heróis” e aprofundar o protagonismo de Portugal a nível internacional como uma “plataforma entre culturas, oceanos e continentes, simbolizada pela eleição e pela desejável reeleição e António Guterres e pela abertura a todos os azimutes da presidência portuguesa no Conselho da União Europeia”.

Por fim, a mensagem de esperança, mais transparência, menos corrupção, de um Portugal de diversidade, sem o mito do “português puro”. “Que os próximos cinco possam ser mais razão e esperança. É o nosso sonho e o nosso propósito. Temos de acreditar. Vamos acreditar”, pediu Marcelo, lembrando que “os portugueses [são] a única razão do compromisso solene” que assinou, leia-se o ato da posse num “ ano demolidor para a vida e para a saúde”. Pelo caminho, reconheceu que a crítica à gestão da pandemia “foi parcialmente injusta”. O dia ficou ainda marcado pelo facto de Cavaco Silva, antigo presidente da República, ter estado na posse, mas falhar a sessão de cumprimentos no final da cerimónia. “Teve de voltar a casa”, explicou o seu gabinete ao i, realçando a honra de ter participado na cerimónia. Horas antes, Ferro Rodrigues, presidente do Parlamento, recusava a ideia de que a democracia está amordaçada, ideia defendida pelo ex-chefe de Estado no fim de semana. Marcelo acusou o toque:”Não me vai pedir num dia que é tão importante que não me ocupe daquilo que é fundamental”, respondeu a propósito do não cumprimento de Cavaco Silva, Mais, os “ portugueses são democratas”, assinalou, convergindo com Ferro Rodrigues e sinalizando que houve eleições em pandemia, E assim deve continuar.

Entre os partidos, houve elogios do PSD e do CDS, os apelos à coesão também foram realçados pelo PS e o Bloco até considerou o discurso interessante, O PCP criticou omissões no discurso e o PAN apontou contradições. O Chega falou em “vazio”, enquanto a Iniciativa Liberal lembrou que há diferenças entre o que é dito e feito por Marcelo. O PEV pediu mais ação a Belém.