Brilhante ou frustrante?

Paz e laranjas

São infinitos os fatores a influenciar o aparecimento do fruto pretendido, e o leitor não tem capacidade para intervir em todos. Por esse motivo, há duas formas de chegar à colheita do fruto, frustrado ou sereno


Mesmo que em confinamento, movimento é vida. Física, mas principalmente psicologicamente, é importante para qualquer indivíduo sentir que está a progredir e a crescer. O ser humano cresce na proporção da energia depositada nos aspetos que controla, e no desprendimento dos aspetos que não controla.

Sinto que o leitor compreenderá que a circunstância que rodeia cada indivíduo é como um jardim: havendo espaço e terreno fértil para tal, é possível semeá-lo com as sementes que sabemos poderem originar as árvores ou plantas cujos frutos pretendemos colher. 

São infinitos os fatores a influenciar o aparecimento do fruto pretendido, e o leitor não tem capacidade para intervir em todos. Por esse motivo, há duas formas de chegar à colheita do fruto, frustrado ou sereno, que apenas dependem dos aspetos em que se foca durante o processo. Uma colheita em plena serenidade advém do foco nos aspetos que podem ser controlados, como é o caso da rega do jardim e da compostagem orgânica com que fertiliza o solo. 

Qualquer espécie de preocupação ou tentativa de controlo da temperatura ambiente, da frequência da precipitação ou da polinização irão esgotar-lhe as energias, pois não podem ser controlados e apenas muito dificilmente influenciados.

Durante o processo, imaginando que se trata de uma laranjeira, não sabemos o exato dia em que vamos colher a primeira laranja. Contudo, sabemos que, por muito que o fruto possa ter um tom amarelado inesperado, daquela árvore só podem vir laranjas, e desconfiar do processo não acresce em nada positivo. É muito provável que o leitor desconheça todos os processos macro e microscópicos cuja combinação resulta na laranja: o aparecimento do fruto não depende do grau de conhecimento do processo. Da mesma forma, a agricultura começou a ser praticada muito antes de se conhecerem os processos cientificamente.

Deduzo que não queira ficar por uma laranjeira apenas. Não é um problema, o processo é o mesmo, independentemente da espécie do objetivo: defina o fruto que pretende colher e os aspetos que sente serem realmente importantes para si (aqueles que, caso não sejam reunidos, não o fará querer o fruto). De seguida, encontre o espaço na sua vida ou quintal para que ele possa emergir do solo. No processo, não se esqueça de se cultivar com as informações necessárias para garantir que os aspetos que controla são aplicados, seja a rega ou a profundidade da semente. Plante a mesma no local que preparou anteriormente, e aguarde serenamente, com a confiança de que efetivamente nascerão laranjas e não peras.

A paz inerente ao crescimento e desenvolvimento do leitor não surge quando abdica de plantar uma laranjeira no seu quintal por não controlar a temperatura ambiente. Surge sim quando confia que, mesmo em ignorância relativamente ao funcionamento da natureza na sua totalidade, o processo natural do meio que nos rodeia conspira para que a laranjeira cresça e lhe ofereça laranjas sumarentas.

Quando coloca no GPS uma localidade que desconhece, desconfia que lho encaminhe pela melhor rota, ou segue só!? 

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