Biblioteca Pessoal

Jesus e Tolstói

A sua paixão por comboios fazia com que aos sábados fosse religiosamente tomar o pequeno-almoço a Santa Apolónia.


Não me levem a mal os leitores que esperavam encontrar aqui uma reflexão séria sobre a relação entre Tolstói e o Cristianismo ou um comentário ao seu livro sobre a vida de Jesus. O tema que vou tratar hoje é bastante mais prosaico.

A história passa-se numa madrugada de 2006 ou 2007, para os lados de Santa Apolónia. São 7h da manhã e o Lux Frágil acabou de fechar. Não satisfeito, um pequeno grupo de resistentes, onde me incluo, vai tomar o pequeno-almoço à estação de comboios.

Enquanto conversamos, noto que na mesa ao lado está um homem dos seus setenta anos, de óculos de massa com lentes grossas, acompanhado por uma montanha de jornais, alguns deles em duplicado. O homem lê e relê os jornais, com as folhas quase coladas à cara. De vez em quando pousa o exemplar e recorta cuidadosamente um texto com uma pequena tesoura das unhas.

Eu tinha então acabado de iniciar a minha carreira de jornalista e fiquei intrigado. Um dos poucos jornais que não estavam em cima da mesa era o SOL. Lá me decidi a abordá-lo e metemos conversa.

Disse-me que se chamava Juan e explicou que já tinha comprado o SOL uma vez ou outra, mas eram demasiados jornais e ele não conseguia lê-los a todos. Apontou para as folhas espalhadas à sua volta com um gesto de impaciência.

Apesar do ar um tanto desleixado, não se pode dizer que o senhor tivesse mau aspeto. O que recordo com mais nitidez é a cabeça calva, a barba por fazer, os óculos antiquados e umas ligaduras nos pés que despontavam a espaços entre os sapatos e a bainha das calças. Falava com sotaque espanhol.

Ao fim de alguns minutos, ficámos a saber da sua paixão por comboios, que fazia com que aos sábados fosse religiosamente tomar o pequeno-almoço a Santa Apolónia, onde passava a manhã à volta dos jornais. Quando encontrava uma notícia sobre comboios ou outro tema do seu agrado, recortava-a e comprava um exemplar suplementar para oferecer a uma pessoa amiga.

Uma vaga hesitação ao apresentar-se tinha-me feito desconfiar, mas a páginas tantas, ao reproduzir um diálogo, ‘Juan’ descaiu-se: ‘E o fulano diz-me: Jesus, quando é que vais…?’. Percebeu o seu lapso de imediato e fez uma expressão de menino traquinas apanhado a fazer uma patifaria. Improvisou uma desculpa e deu a entender que afinal éramos de confiança e por isso podia assumir a sua verdadeira identidade.

Antes de nos despedirmos, disse que teria gosto em que um dia fôssemos jantar a sua casa. «Eu preparo uns bifes».

De Santa Apolónia seguimos a pé para o Chiado. Por volta das dez da manhã passei na Fnac dos Armazéns para ver um livro que na altura andava a namorar, uma monumental biografia de Tolstói da autoria de Henri Troyat. Enquanto não reunia dinheiro para o comprar, pelo menos duas vezes por semana tinha de ir lá assegurar-me de que o livro não tinha sido levado por um ímpio ou um novo-rico que não lhe desse o devido valor. Até que lá chegou o dia em que me tornei o seu feliz proprietário.

Sei que não passa de uma coincidência sem importância, mas gostaria de a referir na mesma. Tolstói morreu numa estação de comboios (tal como Anna Karenina), na cama do chefe da estação, depois de ter fugido de casa. Troyat conta como, no caminho, o grande escritor mandou comprar vários jornais, através dos quais ficou a saber que a sua fuga já tinha sido descoberta.

Quanto a Jesus, não chegou a convidar-nos para jantar e nunca mais soube dele. Às vezes pergunto-me se continuará a ir para Santa Apolónia passar as manhãs de sábado, com a sua montanha de jornais e a pequena tesoura das unhas para fazer os recortes.