Cultura

Rijksmuseum. Mulheres chegam à galeria de honra

O Rijksmuseum de Amesterdão aproveitou a pandemia para fazer uma pequena revolução na sua coleção permanente. As paredes da galeria de honra, onde estão expostas as obras-primas da pintura holandesa do Século de Ouro, vão passar a ter também quadros de mulheres pintoras, para oferecer uma perspetiva mais abrangente da produção artística da época.

Por estes dias, o maior museu de arte da Holanda (e um dos mais importantes da Europa), o Rijksmuseum, em Amesterdão, encontra-se de portas fechadas. Mas lá dentro, no silêncio das galerias, está a acontecer uma pequena revolução.

Esta semana, à boleia do dia da mulher, a instituição anunciou que a sua galeria de honra, onde se encontram expostas as obras-primas da Era de Ouro Holandesa (o período de grande prosperidade económica, criatividade artística e progresso científico entre cerca de 1600 e 1672) contará pela primeira vez com obras assinadas por mulheres.

Pinturas de artistas como Judith Leyster, Gesina ter Borch e Rachel Ruysch estarão penduradas lado a lado com algumas das estrelas do Rijksmuseum, como A Leiteira, de Johannes Vermeer, A Ronda da Noite, de Rembrandt, ou O Alegre Beberrão, de Frans Hals. A administração espera assim oferecer uma perspetiva mais abrangente e completa do panorama artístico da época.

O museu no feminino O facto é que o número exato de obras feitas por artistas mulheres presentes na coleção é desconhecido porque no passado os inventários não especificavam o género do autor.
Jenny Reynaerts, curadora da pintura do século XIX, será a responsável pela investigação, e garante que o objetivo é colmatar essa falta de representatividade das mulheres. “A colecção permanente oferece uma imagem da cultura com pouca perspetiva feminina”, aponta. 

Judith Leyster, a artista mais famosa da Idade de Ouro, era especializada em cenas tradicionais, naturezas-mortas e retratos – três géneros sobejamente apreciados pelo público e que floresceram na Holanda de então. Mas, após a sua morte, acabaria por cair no esquecimento. Agora será recuperada: em breve, os visitantes do museu de Amesterdão poderão contemplar A Serenata, de 1629, que apresenta um músico a observar a varanda onde deveria encontrar-se a sua amada. 

Rachel Ruysch teve mais sorte. Tornou-se uma das mais populares pintoras de naturezas-mortas florais dos séculos XVI e XVII, o que lhe permitiu obter um retorno financeiro superior ao do próprio Rembrandt. A paixão dos holandeses por flores já então era rentável. Ruysch foi a primeira mulher a ser admitida na Guilda dos Pintores de Haia, em 1701. A pintura da sua autoria que poderá ser vista no museu leva o título Natureza-morta com flores em jarro de vidro, realizada no ano de 1690.

Gesina ter Borch é a terceira criadora escolhida. Filha de um pintor e meia-irmã do famoso Gerard ter Borch (de quem existe uma pintura no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa), era especializada na exigente técnica da aguarela. Solteira, serviu de modelo em várias pinturas do seu meio-irmão. A obra que passa a integrar a exposição permanente é assinada pelos dois em parceria: Retrato em memória de Moses ter Borch, pintado entre 1667 e 1669, em memória de outro irmão falecido.

O século de ouro Popularizada pelos historiadores, a expressão “século de ouro holandês” designa o período de ascensão da República dos Países Baixos, cujo início praticamente coincide com a perda da independência portuguesa.

Foi neste período que, com o apoio de Inglaterra, a pequena República se rebelou e libertou do jugo da Espanha dos Habsburgos. Quando conquistou definitivamente a independência, em 1648 – o culminar da Guerra dos Trinta Anos – já era uma das nações mais prósperas da Europa.

Os navegadores e exploradores holandeses, muitos deles ao serviço da Companhia das Índias Orientais, dominavam as rotas marítimas e estabeleceram redes comerciais em locais tão longínquos quanto Batávia – o nome dado pelos holandeses à atual Jacarta, na Indonésia.

O enriquecimento económico daí decorrente proporcionou as condições ideais para o florescimento da pintura. Os burgueses utilizavam os lucros dos seus investimentos para embelezar as suas casas com móveis, porcelanas, tapetes e pinturas. Mas não eram os únicos compradores. “Até por volta de 1660, mesmo o mais humilde dos lojistas fazia questão de possuir os seus quadros, que colocava em todas as suas salas. Até camponeses gastavam dois mil ou três mil florins na compra de quadros”, escreveu o historiador Paul Zumthor em A Vida Quotidiana no Tempo de Rembrandt.
Tendo em conta que a Holanda era um país protestante, a Igreja não desempenhava o papel de mecenas, nem as criações artísticas se destinavam a ornamentar as paredes dos templos.

Com a exceção de Rembrandt – que se dedicou, com resultados brilhantes, à representação de temas bíblicos –, os artistas holandeses dedicavam-se pois a retratar cenas mais mundanas do que acontecia nos países católicos, como Itália, Espanha ou Portugal. Retratos, naturezas-mortas, paisagens, interiores, grupos de homens a beber e a fumar na taberna são alguns dos temas favoritos dos artistas – e dos clientes – do século de ouro holandês.
Por todo o país surgiram escolas de pintura – Leyden, Delft, Haarlem... – com algumas características comuns: riqueza nos detalhes, precisão técnica, realismo, grande mestria no tratamento da luz.

As obras, maioritariamente direcionadas à classe média, estavam literalmente ao alcance de todos. Podiam ser adquiridas através de comerciantes de arte tradicionais, mas também em feiras, mercados e quermesses, onde eram expostas e vendidas lado a lado com frutas, aves ou legumes. Estima-se que nas duas décadas entre 1640 e 1660 os artistas holandeses tenham produzido mais de um milhão de pinturas.
 
A imagem da mulher na pintura O crítico de arte, romancista, pintor e poeta inglês John Berger, que se tornou famoso pela série pioneira da BBC Ways of Seeing, transmitida em 1972 e depois adaptada para o livro homónimo, debruçou-se ao longo da sua carreira sobre a diferença entre as presenças masculina e feminina na arte. Berger afirmava que existiam dois tipos de poder: o poder masculino, extrínseco, definido por algum objeto fora e além de seu corpo e mente; e o poder feminino, intrínseco, baseado nas conceções do seu próprio corpo e mente.

O crítico mostrou as continuidades entre pinturas europeias pós-renascentistas de mulheres e imagens de pósteres e revistas femininas, mostrando como se representava a figura feminina como um mero objeto. E notava que, durante muitos anos, as mulheres só entraram nas coleções dos museus como “modelos” de pinturas e, na maior parte das vezes, despidas. Os homens agiam e as mulheres apareciam.

O Rijksmuseum Fundado em 1800 na cidade de Haia, transferido oito anos depois para Amesterdão, por iniciativa do irmão de Napoleão Bonaparte, e só instalado no atual edifício em 1885, o Rijksmuseum é, a par do Mauritshuis, o melhor museu de arte da Holanda. Possui um acervo de sete milhões de obras e, antes da pandemia, atraía perto de dois milhões de visitantes por ano, que se acotovelavam para contemplar obras-primas como a tela de grande dimensões conhecida como A Ronda da Noite, de Rembrandt, A Leiteira, pintura de Johannes Vermeer de um realismo insuperável que conjuga a tranquilidade da leiteira com o movimento do leite, e O Alegre Beberrão, que reflete o otimismo de Frans Hals.

Em 2013 o edifício oitocentista desenhado por Pierre Cuypers reabriu após uma remodelação profunda que se prolongou por dez anos e custou mais de 300 milhões de euros.

*Editado por José Cabrita Saraiva