Opiniao

Democracia amordaçada

Goste-se ou não dele, temos de aceitar a existência de dois factos que não podem ser postos em causa: Cavaco foi o único político que venceu cinco eleições de âmbito nacional, quatro delas com maioria absoluta, e foi durante o seu consulado, mal-grado os grosseiros erros cometidos, que se assistiu ao único período de crescimento económico que o País conheceu desde a abrilada, com uma efectiva melhoria das condições de vida das pessoas.

Cavaco Silva falou.

E, tal como sempre acontece quando Cavaco abre a boca, os indignados do costume, quais guardiões do regime, vieram a terreiro insurgir-se contra a ousadia de ele ter exprimido uma opinião, como se esse direito lhe estivesse vedado em razão da circunstância de anteriormente ter ocupado a mais alta magistratura da Nação.

Outros antigos presidentes nunca se retraíram em formular juízos críticos sobre a governação do País, e jamais por isso foram admoestados pelos habituais zeladores do pensamento dominante.

Mário Soares disse sempre aquilo que bem lhe apeteceu, fosse em deitar abaixo os governantes com quem ideologicamente mantinha distância, ou mesmo em imiscuir-se em assuntos de natureza judicial, procurando influenciar as decisões dos Tribunais, como o observado aquando da detenção de Sócrates, e nunca ninguém se lembrou de questionar a sua legitimidade para o fazer.

Sampaio tem-se contido um pouco mais, mas, igualmente, não prescindiu do direito que lhe assiste em abordar temas políticos, discordando de muitas das suas orientações, sem que para isso tenha que se sujeitar a ouvir vozes reprovadoras.

Eanes tem sido um crítico constante do rumo traçado para o País, sendo frequente apontar baterias contra a nociva governação que nos vai afundando, mas as suas opiniões jamais foram contrariadas por estes coléricos censores, bem pelo contrário, têm sido quase sempre enaltecidas.

Mas Cavaco não, esse tem, obrigatoriamente, que se remeter ao silêncio.

Confesso que nunca simpatizei com Cavaco, até porque o considero, também, um dos responsáveis pelo marasmo em que a política portuguesa se deixou embrenhar.

Reconheço, no entanto, e em abono da verdade, que não me recordo de alguma vez ter sido contagiado por sentimentos de empatia por algum destes políticos que se têm destacado na nossa partidocracia, pelo que não será de estranhar que Cavaco não me desperte nenhum especial carinho.

Mas irrita-me esta obsessão colectiva pelo homem, como se ele fosse o culpado de todos os males que nos enfermam.

Goste-se ou não dele, temos de aceitar a existência de dois factos que não podem ser postos em causa: Cavaco foi o único político que venceu cinco eleições de âmbito nacional, quatro delas com maioria absoluta, e foi durante o seu consulado, mal-grado os grosseiros erros cometidos, que se assistiu ao único período de crescimento económico que o País conheceu desde a abrilada, com uma efectiva melhoria das condições de vida das pessoas.

Foram os fundos europeus, dirão os tais militantes detractores de tudo quanto ele faz ou diz. Também, certamente, mas soube-os gerir com competência, algo de que os seus sucessores foram incapazes.

Esses dinheiros não deixaram de nos ser encaminhados com o fim do cavaquismo, apenas passaram a ser mal aplicados, conforme se provou com o senhor que se seguiu, Guterres de seu nome, que passados escassos seis anos de governação bateu com a porta, deixando o País, segundo as suas próprias palavras, num pântano!

Esta será, sem dúvida, a principal motivação do ódio de estimação gerado à volta de Cavaco: os portugueses, regra geral, sempre se deram mal com o sucesso dos outros!

Mas há outro motivo, este bem mais fútil.

A burguesia que se instalou no poder, e que por lá tem permanecido desde o advento da república, despreza todos quantos, vindos de dois distintos estratos sociais, lhe procura fazer sombra: por inveja, aqueles que nasceram com pergaminhos; e por desdém, os de origem mais humilde.

Para estes burgueses, a maioria deles armados em defensores das classes mais desprotegidas, Cavaco será sempre o filho do gasolineiro de Boliqueime, pelo que, fruto disso, alvo de toda a chacota.

Ainda hoje, com desmesurada frequência, vem à baila o episódio em que ele respondia às perguntas de um jornalista enquanto comia uma fatia de bolo-rei.

Mas ainda no Verão passado, numa praia madeirense, Marcelo se entretinha a comer uma bola de Berlim ao mesmo tempo que tagarelava com as pessoas que o rodeavam.

Para alguém com uma educação esmerada, como aquela que o actual inquilino de Belém teve a felicidade de receber, falar com a boca cheia não só é absolutamente normal, como até é chique! Mas para quem nasceu num meio pobre, é sinónimo de indecência.

Cavaco Silva, à semelhança de qualquer outro político dos que nos saíram em rifa, quando fala é habitual que diga asneiras. Mas, desta vez, disse uma verdade incómoda, daí o burburinho que provocou junto de tantos indignados.

Somente os mais distraídos é que poderão duvidar da autenticidade da afirmação de que vivemos numa democracia amordaçada, ou seja, num regime camuflado de democrático, mas que, na realidade, se transformou em totalitário e no qual os mais elementares direitos constitucionalmente reconhecidos nos são sonegados.

Um regime em que a imprensa livre não passa de uma utopia, porque quase toda se deixou vender aos interesses instalados, nomeadamente da corrupção, abdicando de escrutinar a actividade governativa, antes se tornando numa sua correia de transmissão.

Um regime em que a independência do poder judicial passou a ser uma simples miragem, conforme ficou visível no afastamento da anterior procuradora-geral da república e no do presidente do tribunal de contas, substituídos por personagens dóceis, dispostos a branquear as constantes violações da justiça protagonizadas pelos mais diversos actores do nosso sistema político.

Um regime em que o principal partido da oposição pactua descaradamente com o desgoverno do País, oferecendo-lhe o necessário suporte para que este se eternize impunemente.

Um regime que deve a sua sobrevivência às sistemáticas cedências aos caprichos de minorias, as quais não descansam em impor as suas libertárias convicções a toda uma maioria, teimando em levar à capitulação do tecido familiar, base primária da vida em sociedade.

Um regime refém do único partido europeu que se mantém fiel à defesa do genocídio levado a cabo pelo estalinismo, advogando, no seu programa, a instauração da ditadura do proletariado.

Um regime que se permite suspender as liberdades consignadas na Constituição, com o argumento da adopção de medidas que visam controlar uma pandemia, mas assumidas com base exclusiva nas recomendações do mesmo naipe de supostos especialistas, e do qual são excluídos os que pugnam por vias alternativas menos penosas para a liberdade individual e para a economia nacional.

Um regime em que as próprias redes sociais se dão ao luxo de controlar o pensamento de quem nelas se exprime, anulando, a seu bel-prazer, as publicações que não se enquadrem no espírito da nova ordem mundial e banindo os seus autores.

Sim, Cavaco Silva desta vez tem razão, vivemos mesmo numa democracia amordaçada. E louve-se a sua coragem em o denunciar, já que aqueles que teriam a obrigação de o fazer se calam cobardemente.

Cavaco foi ainda acusado de ressabiamento, por ter abandonado a cerimónia de entronização presidencial sem ficar para a habitual sessão de cumprimentos.

Sinceramente, não percebo a admiração por esse seu gesto, atendendo a ter sido forçado a presenciar os reparos que publicamente lhe foram endereçados pelos titulares dos dois principais órgão de soberania.

Ferro Rodrigues, do alto da sua completa boçalidade, aproveitou a oportunidade para confrontar o antigo presidente, trazendo, para uma cerimónia daquela natureza, uma quezília indigna da solenidade do momento.

Marcelo, com cinismo, arte em que é especialista, não quis ficar atrás e também não resistiu em lançar farpas ao seu antecessor.

Admito que no lugar de Cavaco teria feito exactamente o mesmo, com a diferença de que não me escusaria em assuntos domésticos.

E, dessa forma, ficaria liberto da condição de ter de prestar vassalagem a figuras menores, sem obra feita na construção da Nação.

Pedro Ochôa