À Esquerda e à Direita

Querida mãe, está tudo doido

A cereja em cima do topo do bolo foi a notícia de que a Universidade de Manchester proibiu os funcionários de usarem expressões como mãe ou pai, que devem ser substituídas por progenitor ou guardião. Mulher ou homem passa a ser pessoa, mulher e marido por companheiro.

O mundo enlouqueceu definitivamente e a esperança começa a morar em Marte, pois a cada novo dia é difícil descrever o que se passa aqui na terra. Despedem-se tradutoras por serem brancas; procura censurar-se Eça, alegadamente por ser racista; O Lago dos Cisnes não deve ser interpretado nos teatros de Paris pelas mesmas razões; idem aspas para a exibição do magnífico E Tudo o Vento Levou; há quem defenda a destruição de monumentos como o Padrão dos Descobrimentos; e a cereja em cima do topo do bolo foi a notícia de que a Universidade de Manchester proibiu os funcionários de usarem expressões como mãe ou pai, que devem ser substituídas por progenitor ou guardião. Mulher ou homem passa a ser pessoa, mulher e marido por companheiro. Estou mesmo a ver a confusão no bar da universidade: «Ó companheiro, passa aí o sal», ouvindo uma resposta dupla: do marido e do amigo companheiro.

As parvoíces não se ficam por aqui e até a idade da pessoa não deve ser revelada: «Inclua a idade apenas se for relevante, por exemplo, com iniciativas que estão disponíveis apenas para uma determinada faixa etária». Segundo os gurus desta nova linguagem, o objetivo é claro: «A forma como escrevemos para e sobre as pessoas pode ajudar a promover a igualdade, diversidade e inclusão, e fornecer o mesmo tipo de oportunidades para todos», querendo isto dizer, segundo a cartilha, que não se pode excluir ninguém pela idade, orientação sexual, género, raça ou etnia.

Não sei como a minha mãe, se ainda fosse viva – que saudades de lhe chamar mãe ou ‘velhota linda’ – reagiria se lhe chamasse «querida progenitora» ou «guardião»._Seguramente que se aproximaria de mim para sentir o meu hálito e saber se eu estava completamente bêbado. Estes cretinos, que querem rescrever a história segundo as suas crenças, só dão azo ao aparecimento de outros cabotinos como eles, mas de extrema-direita. É normal que uma boa parte da população se revolte contra estas imposições e exija que o Estado possa permitir uma educação alternativa a estas novas beatas, que mais não são do que inquisidores.

P. S. É óbvio que acho uma alarvidade André Ventura querer expulsar Mamadou Ba, apesar de este defender a morte do homem branco, ou Joacine Moreira por querer enviar o Padrão dos Descobrimentos para o espaço. Mas não acho muito normal o Estado português convidar um assumido racista para o Grupo de Trabalho para a Prevenção e o Combate ao Racismo e à Discriminação.

São figuras como Mamadou Ba que incitam ao ódio e ao racismo, e se assim não fosse deixaria de ser contratado para tratar do racismo que ele tanto gosta de aumentar. Vivi em África, em Moçambique e Angola, dois países que adoro, nalguns locais fui tratado por ‘pula’ e por aí fora, mas sempre respeitei as regras do país, e a esmagadora maioria da população tratou-me de igual forma. E tenho imensas saudades de Luanda e de Maputo. Mas como europeus não devemos copiar o modelo desses países, onde há uma coisa muito simples chamada 20/24. Quem se portar mal, tem 24 horas para levar uma mala de 20 quilos consigo. Recordo o exemplo de Diamantino Miranda, treinador português, que no final de um jogo disse o seguinte: «Todos aqui são ladrões. Vocês são todos uma cambada de ladrões, você e outros jornalistas são pagos por um prato de sopa. Este país não é sério». Resultado: Diamantino foi rapidamente expulso. Cinco anos depois, Diamantino foi contratado de novo, mas não pôde regressar. «O treinador português Diamantino Miranda perdeu o direito a residir em Moçambique e não pode assumir o comando da Liga Desportiva de Maputo, depois de ter sido expulso do país em 2013», anunciou o então ministro dos Negócios Estrangeiros, José Pacheco, que acrescentou: «Tendo sido expulso, não pode ter qualquer presença no território nacional, muito menos fixar residência». É simples, são as regras.

vitor.rainho@sol.pt