Economia

Diálogo divulgado dá queixa-crime

Pedro Nuno Santos acusa Alfredo Casimiro de tornar pública frase polémica do ministro sobre os privados da TAP, divulgada em primeira mão pelo Nascer do SOL. E vai levá-lo a tribunal.


O diálogo que o Nascer do SOL divulgou na edição da semana passada, entre Pedro Nuno Santos e o presidente da Groundforce Alfredo Casimiro, no âmbito das negociações com vista a solucionar a situação de salários em atraso na empresa de handling vai conhecer novos capítulos em tribunal. A conversa, dura, foi posteriormente colocada a circular em grupos do Whatsapp, o que motivou o ministro a apresentar uma queixa-crime contra Alfredo Casimiro.

Pedro Nuno Santos acusa o acionista privado da Groundforce – que detém 50,1% do capital da empresa através da Pasogal (a TAP tem os restantes 49,9) – de ter divulgado o teor da conversa tida naquela reunião sem autorização. «O ministro das Infraestruturas e Habitação avançou com participação criminal junto do Ministério Público contra Alfredo Casimiro», confirmou ao nosso jornal fonte oficial do ministério tutelado por Pedro Nuno Santos.

Recorde-se que, num momento mais tenso das negociações, que decorreram por videoconferência, o titular da pasta dos transportes deixou escapar que a posição de Humberto Pedrosa no Grupo TAP (de 22,5%) seria para ‘pulverizar’. No áudio, que tem a duração de cerca de dois minutos, Pedro Nuno Santos confirma que a intenção do Governo é resgatar esta posição assim que as negociações com a Comissão Europeia sobre o plano de reestruturação da companhia sejam dadas por concluídas.

O Nascer do SOL apurou que o ‘tom duro’ utilizado por Pedro Nuno Santos durante estes encontros deixou os responsáveis da empresa de gestão de bagagens do Grupo TAP surpreendidos e desconfortáveis, levando, depois de findas as reuniões, Alfredo Casimiro a reagir publicamente, acusando o Governo de tentativa de «roubo» da Groundforce.

Em causa, estão as condições apresentadas à empresa pelo Governo e pela TAP para a concessão de um empréstimo de emergência que permitisse pagar os salários em atraso, referentes ao mês de fevereiro, aos cerca de 2.400 trabalhadores da empresa. No acordo, a TAP aceitava ceder à Groundforce 2,05 milhões de euros para fazer face a necessidades imediatas de liquidez, mas o Governo impunha à empresa de handling o penhor das ações que pertencem à Pasogal, e também que a mesma fique obrigada a pagar os quase dez milhões de euros de dívida total que tem com o Grupo TAP até 31 de agosto.

Apesar dos protestos, Alfredo Casimiro viu-se mesmo ‘obrigado’ a aceitar o acordo, tal como também anunciámos na última semana. Porém, o facto de as suas ações da Pasogal já estarem sob outra penhora acabou por impossibilitar a conclusão do negócio. 

Os ordenados continuam por pagar e os protestos prosseguiram ao longo desta semana, chegando mesmo às portas de S. Bento. Cerca de 500 trabalhadores da empresa manifestaram-se, quarta-feira, dia 10, em frente à residência oficial do primeiro-ministro gritando palavras de ordem como «Não deixem cair a Groundforce» ou «Casimiro, ladrão! Groundforce sem um tostão». A Comissão de Trabalhadores da Groundforce defendeu, entretanto, a nacionalização da empresa, por considerar ser essa a única solução «para segurar a empresa e salvaguardar os postos de trabalho». 

Sete meses à espera de aval para receber empréstimo 
Entretanto, Alfredo Casimiro continua a aguardar pelo aval do Estado português para receber o empréstimo proveniente do Banco de Fomento e das linhas de covid (através da Caixa Geral de Depósitos) no valor de 30 milhões de euros.

A demora na decisão levou mesmo o empresário a atacar o Governo. O empresário afirmou ainda que o «senhor ministro [Pedro Nuno Santos] propõe que eu possa perder as minhas ações na Groundforce se o Estado se atrasar na concessão do aval». «Isto é inadmissível: quem tem a caneta é ele e quem decide senta-se com ele no Conselho de Ministros. Não sou eu, porque se fosse não estávamos à espera há sete meses. Mais: se o Estado acredita no futuro da Groundforce e da TAP, porque hesita? Porque estamos à espera há tanto tempo de um aval?», questiona. O aval tem, porém, de ser decidido pelo ministro das Finanças João Leão. Mas, para já, o processo parece não avançar.