Internacional

Trocar a nobreza britânica pela aristocracia de Hollywood

A entrevista dos duques de Sussex com Oprah bateu recordes de audiências, abrindo caminhos ao casal para voos ainda mais altos, ao mesmo tempo que expôs os podres dos velhos círculos da realeza. 


Acima de qualquer outra coisa, a nossa realeza é para ser reverenciada. E se começares a observá-la de perto não consegues reverenciá-la», escreveu Walter Bagehot, um dos grandes jornalistas do séc. XIX, nos tempos da Rainha Vitória, cuja mensagem ainda soa atual. Quando nos questionamos sobre porquê manter uma tradição como a monarquia, porquê reverenciar uma família que ganhou o estatuto apenas por nascer, cujo grande orgulho é descender de uma longa linhagem de senhores da guerra medievais, é difícil ter uma resposta. Talvez seja um isco para turistas, como os milhões que inundam Londres todos anos, à procura do glamour da família real? Gastaram mais de 640 milhões de euros em 2017, segundo a Brand Finance, comparado com os 76 milhões de euros em fundos públicos pagos para sustentar a realeza nesse ano, com gastos em segurança estimados mais de 100 milhões de euros – mesmo que possa fazer sentido economicamente, isso não explica porquê tanto fascínio com a realeza.

«Se houver um comité parlamentar à rainha, o charme da realeza desaparecerá», alertou Bagehot, referindo-se à trisavó de Isabel II. «O mistério é a sua vida. Não podemos deixar incidir a luz do dia sobre a magia». Não é de espantar que, tantos anos depois, a família real esteja apoplética após os duques de Sussex, Harry e Meghan, lavarem a roupa suja da família em público, perante Oprah Winfrey e as câmaras de televisão.
De facto, a luz do dia não favoreceu nada a Casa de Windsor. Desde acusações de racismo, à negligência quanto à saúde mental, passando pelo peso da perseguição dos tabloides ao casal, num turbilhão que trás à memória a vida trágica da princesa Diana, mãe de Harry. Ao ver a entrevista, transmitida pela CBS nos EUA e pela ITV no Reino Unido, o retrato que emerge é o de uma família profundamente disfuncional, presa por tradições datadas e preconceito, uma «prisão dourada»,  um «poço sem fundo», descreveu o Liberation, a partir de França, um país com um longa e enraizada tradição republicana.

Não é de espantar que os duques de Sussex tenham preferido reestabelecer-se em Los Angeles, trocar os decadentes círculos da nobreza britânica pelo esplendor de Hollywood. Foram aplaudidos pela aristocracia americana, uma elite muito mais diversa, composta por profissionais de excelência nas suas respetivas áreas. Meghan e Harry receberam apoio de figuras tão sonantes como Oprah, a tenista Serena Williams ou o realizador Tyler Perry – um nome de culto no cinema produzido por e para afro-americanos, conhecido pela série de comédia Madea, e que se tornou uma espécie de mecenas multimilionário dos duques de Sussex, pondo ao ser dispor a sua mansão no sul da Califórnia, bem como os seus guarda-costas, quando os duques foram abandonados financeiramente pelos Windsor, no início de 2020.

«Tive que garantir a nossa segurança financeira», explicou Harry a Oprah. Por volta dessa altura, o príncipe foi filmado a sugerir ao diretor-executivo da Disney, Bob Iger, que contratasse Meghan, que ganhou fama na série Suits, como atriz de voz. «Claro, adorávamos experimentar», respondeu Iger. Entretanto, o casal conseguiu um lucrativo contrato com a Netflix, no valor de mais de 100 milhões de dólares, segundo a imprensa britânica, o equivalente a mais de 80 milhões de euros, para produzir documentários e séries infantis, ao longo de vários anos.

«Como pais recentes, fazer programação inspiradora para toda a família é importante para nós», declarou o casal, num comunicado citado pelo New York Times. «O nosso foco será em criar conteúdo que informe mas também dê esperança». 

Meghan e Harry provavelmente podem contar com voos ainda mais altos, e negócios lucrativos, no futuro. No Reino Unido, mais de 13,5 milhões mudaram para a ITV, para assistir à sua entrevista com Oprah – chegando a haver queixas de que o serviço de streaming do canal estava constantemente a ir abaixo, porque não aguentava tantos espetadores – e nos Estados Unidos as audiências da CBS bateram os 17 milhões, acima até de eventos como os Emmy e os Golden Globes. 

Da vénia ao racismo

Há muito que se suspeitava, mas a entrevista com Oprah deixou bem claro o quão difícil – talvez até fosse impossível à partida – foi para Meghan, uma mulher americana, divorciada, independente e negra, adaptar-se aos rígidos e anacrónicos formalismos da realeza. A dificuldade fez-se sentir logo de início.

«Diria que entrei naquilo ingenuamente, porque não cresci sabendo muito sobre a família real, não era algo que fosse parte da conversa em casa, não era algo que seguíssemos», contou Meghan, descrevendo o seu primeiro encontro com a rainha. «Ela estava a sair de uma missa e o Harry simplesmente disse: ‘a minha avó está aqui, vais conhecê-la’. Pensei: ‘Ótimo! Eu adoro a minha avó’»

«Ele perguntou: ‘Sabes como fazer uma vénia?’, e eu disse: ‘O quê?’. Pensei genuinamente que era algo que acontecia fora de portas, que fosse algo que fazia parte da fanfarra, não creio que fosse algo que acontecia dentro de casa». 

«Não houve qualquer orientação. Ao contrário do que vês nos filmes, não há aulas sobre como falar, como cruzar as persas, como ser da realeza. Isso não me foi oferecido», explicou Meghan. «Mesmo o hino nacional, ninguém pensou: ‘Oh, ela é americana, não vai saber isso’. Por isso passei a noite a aprender no Google».

O próprio casamento dos duques de Sussex, que se estima ter custado o equivalente a mais de 36 milhões de euros, foi uma farsa, uma cerimónia megalómana mas vazia, descobrimos na entrevista com Oprah – o casal já se tinha casado em segredo uns dias antes, para terem um mínimo de privacidade. Já o dia do casamento perante as câmaras, foi terrível para Meghan. «Era como se estivesse a ter uma experiência extracorporal», descreveu. «Creio que ambos estávamos muito consciente, mesmo antes disso, que aquele não era o nosso dia, era o dia que foi planeado para o mundo». 

Não ajudava nada que, já nessa altura, Meghan fosse carne para canhão para os tabloides britânicos, alguns dos quais pareciam ter critérios completamente diferentes no que tocava à cobertura do dia a dia de Meghan, comparativamente à mulher do irmão de Harry, Kate Middleton – algo que tem sido amplamente relacionado com um racismo enraizado. É difícil imaginar o quão difícil terá sido para Meghan lidar com isso – o seu próprio marido, Harry, foi em tempos amplamente criticado por se mascarar de nazi para uma festa, e a princesa Michael de Kent, mulher de um primo da rainha e filha de um oficial das SS, usou um broche com uma imagem estereotipada de um negro no primeiro encontro com Meghan.

A rejeição da aristocracia britânica por Meghan e Harry deixou os tabloides em fúria, e o palácio de Buckingham no caos. O irmão de Harry, o príncipe William, está «devastado», avançou a Entertainment Tonight, apesar deste se manter em silêncio, oficialmente, e o pai, o príncipe Carlos, saiu disparado de uma conferência de imprensa numa clínica de vacinação contra a covid-19, esta quarta-feira, mal foi questionado sobre o assunto. Já a Rainha Isabel II reagiu em comunicado, declarando que «os assuntos levantados, particularmente no que toca a raça, são preocupantes», prometendo que são «levados muito a sério e que serão resolvidos pela família em privado», e que «Harry, Meghan e Archie serão sempre membros muito amados da família». Contudo, ninguém duvida que este está longe de ser o último episódio da telenovela real britânica – e que o levantar da cortina sobre o «mistério» e «magia» da realeza está só a começar.