Política a Sério

O preço da liberdade

Havia uma ditadura: polícia política, censura à imprensa e aos espetáculos, proibição de partidos, interdição de greves, limitações sindicais, etc. Mas, em contrapartida, havia uma eficácia incomparavelmente maior do que a atual ao nível da decisão e realização. Sobretudo nos anos trinta e quarenta, mas ainda na década de cinquenta, o salazarismo mostrou um dinamismo que ainda hoje impressiona.

Todos sabemos que a democracia tem um preço.
 Quando olhamos para trás, para o regime que precedeu a democracia iniciada em 25 de Abril de 74, verificamos que a sua capacidade de realização era muitíssimo superior.

Havia uma ditadura: polícia política, censura à imprensa e aos espetáculos, proibição de partidos, interdição de greves, limitações sindicais, etc.

Mas, em contrapartida, havia uma eficácia incomparavelmente maior do que a atual ao nível da decisão e realização.

Sobretudo nos anos trinta e quarenta, mas ainda na década de cinquenta, o salazarismo mostrou um dinamismo que ainda hoje impressiona.

Quando olhamos para o que se construiu nessa época, parece-nos quase impossível.

A Lisboa moderna que conhecemos é praticamente toda desse tempo: as gares marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, a reabilitação da zona de Belém, com a Praça do Império, na sequência da Exposição do Mundo Português, os bairros económicos da Madre de Deus, Ajuda, Serafina, Encarnação, Benfica, Belém, etc., o Instituto Nacional de Estatística, a Casa da Moeda, o Aeroporto da Portela, o Hospital de Santa Maria, o IPO, o Instituto Superior Técnico, o Estádio Nacional e a respetiva autoestrada e o viaduto Duarte Pacheco, a Estrada Marginal, a Cidade Universitária, o Parque Eduardo VII, o Parque de Monsanto, o arranque das autoestradas do Norte e do Sul. E, mais tarde, a ponte sobre o Tejo e o Padrão dos Descobrimentos.

Mas não só por Lisboa se ficou a fúria construtiva.

Sem querer ser exaustivo – e citando de memória – refiro os milhares de escolas primárias chamadas ‘dos centenários’, os muitos liceus distritais, o Hospital de São João, o Hospital Universitário de Coimbra, os edifícios dos palácios da Justiça (os famosos Domus Iustitiae) distribuídos pelo país inteiro, várias barragens, a reabilitação do património (castelos, etc.), a Ponte da Arrábida, no Porto, os barros operários e de pescadores…

E isto só no continente.

Nas colónias construíram-se cidades modernas e a maior barragem de África: Cahora-Bassa.

Dir-se-á que foram 48 anos – e o que mais faltava é que não se tivesse feito nada.

Sucede que, do 25 de Abril até hoje, passaram 47 anos – e o que se fez?

A Ponte Vasco da Gama, o Parque das Nações, no recinto da Expo, umas autoestradas do tempo de Cavaco e Sócrates, o CCB, a Casa da Música, muitas escolas secundárias, uns centros culturais espalhados pelo país (quando não se não sabe o que fazer, constrói-se um Centro Cultural, que na maioria dos casos não tem uso). E as cidades estão mais bonitas, é verdade.

Mesmo assim, a comparação entre os dois períodos é esmagadora.

E ainda mais se se pensar que no Estado Novo as obras foram feitas com capitais gerados no país – e, na democracia, a maior parte delas teve uma grande ajuda dos dinheiros europeus.

As pessoas, em geral, também vivem melhor do que então viviam.

Mas vivem melhor, à custa de quê?

Recorde-se que o Portugal democrático já recebeu da União Europeia mais de 130 mil milhões de euros; e, além disso, tem uma dívida pública de 170 mil milhões e uma dívida total que atinge o astronómico valor de 740 mil milhões de euros, não contando com as dívidas dos bancos.

Contas feitas, os portugueses gastaram quase 1 bilião de euros mais do que produziram.

E vão deixar grandes encargos às novas gerações.

É como se, numa família, os pais tivessem uma vida melhor… à custa de dívidas a pagar pelos filhos.

Inversamente, o Estado Novo não só não deixou praticamente dívidas (o Orçamento teve quase sempre superavit, enquanto depois do 25 de Abril teve quase sempre défice) como deixou grandes reservas de ouro no Banco de Portugal: a ironicamente chamada ‘pesada herança’.

Agora, em vez da ‘pesada herança’, deixamos uma ‘pesada dívida’.

Ora, para um regime ser sustentável, tem de ser minimamente eficaz.

Não pode haver um abismo, para pior, entre a capacidade de realização de uma democracia e de um regime autoritário – sob o risco de as pessoas começarem a pensar que o passado é que era bom.

E a verdade é que já muita gente pensa assim.

A democracia, para ter crédito, precisa de funcionar.

Precisa de ser pragmática, de fazer obra, de dar garantias aos cidadãos de que os filhos viverão melhor do que os pais.

Mas a democracia portuguesa não tem sido nada disto.

A história do novo aeroporto é paradigmática.

Parece uma anedota!

Já esteve em todo o lado, já andou de Herodes para Pilatos, já foi objeto de múltiplas decisões governamentais nunca cumpridas.

Quem pode acreditar num poder executivo que mostra tanta indecisão, tanta incapacidade de concretização?

Note-se que a construção de novo aeroporto de Lisboa foi decidida em 1969, no tempo da ‘outra senhora’, tendo-se criado um gabinete que deu logo início aos estudos e se pronunciou a favor de Rio Frio.

Pouco depois, o local escolhido começava a ser alvo de medições várias (vento, pluviosidade, etc.), e o aeroporto deveria estar concluído, se não erro, em 1976.

E a ideia que temos é que, se não tivesse havido 25 de Abril, o novo aeroporto já estaria feito há décadas – apesar de na altura estarmos envolvidos numa guerra em três frentes, que exigia um enorme esforço humano e financeiro.

Isto diz muito sobre a ineficiência da democracia.

Que, a prolongar-se por muito tempo, a colocará inevitavelmente em questão.

A realidade tem muita força.

Se o preço da liberdade se tornar demasiado alto, as tentações totalitárias começarão a despontar e as pessoas começarão a pensar duas vezes.