Opiniao

Eutanásia: a Assembleia não deve andar contra a corrente

A eutanásia é, em si mesmo, um tema chocante. Pelo sofrimento que encerra; pelas vidas que deixam de o ser; pela dor que provoca nos que amam e são amados. Falar da eutanásia remete-nos para as fronteiras que separam a vida da morte. Essas linhas são sempre muito frágeis e transportam-nos para longos debates sobre o sentido da existência: uns religiosos; outros científicos; muitos exclusivamente ontológicos. 

O tema, duro e controverso, é dos mais sensíveis que nos interpela. Há muitos ses quando se fala da morte medicamente assistida. Em tempos defendi a opção pelo referendo. Não foi esse, no entanto, o entendimento do legislador. O Presidente da República considerou, e bem, enviar o diploma para o Tribunal Constitucional. Um diploma que encerrava omissões e premissas insuficientemente justificadas. O chumbo do Tribunal Constitucional era esperado e a forma como está fundamentado irá levar muito tempo a que uma nova lei volte a ser colocado em discussão. 

Não estamos, porém, perante um tabu. Há suspiros. Há lágrimas. Há seres que se tornam ‘ vegetais’. 

Tive uma amiga que sofreu um aneurisma, entrou em morte cerebral e esteve 12 anos num hospital privado com o corpo a definhar, ligada à máquina, até morrer.

Agora, neste tempo, um dos argumentos a que sou mais sensível decorre do facto da praticamente inexistência de cuidados paliativos em Portugal. Há muitos portugueses que morrem no maior dos sofrimentos e na mais profunda das solidões sem que o sistema tenha resposta para acudir às perguntas: viver como? Qual o sentido de prolongar a dor? Porquê viver preso a uma cama, tantas vezes sem consciência de si? O assunto é inesgotável e faz-nos pensar sobre os limites da vida humana. Mas esta não é a altura para que o debate se imponha. O país enfrenta há meses uma crise pandémica de dimensões gravíssimas com consequências devastadoras na economia e no acentuar das desigualdades sociais. É este o foco dos portugueses na sua maioria. A Assembleia não deve andar contra a corrente mas antes centrada nos problemas que pesam na sociedade portuguesa. Há que ter noção do que realmente importa em cada minuto da nossa vida em sociedade. O contrário ninguém o iria entender.