Tomar partido

Marcelo primeiro, Carlos Moedas a seguir

Carlos Moedas tem o PS, PCP e BE à esquerda; à sua direita tem Chega e IL. Estas são as suas circunstâncias, veremos o que faz com elas...

Os principais partidos da constituinte, PS, PSD, CDS e PCP, têm mostrado uma resiliência incomum. Subsistem, vencem eleições, sendo os seus dirigentes em grande medida, militantes da primeira hora dos partidos e do regime democrático. Aliás, o Presidente da República é também, ele próprio, um constituinte. 

Os partidos, como grande parte das instituições, são muito avessos à mudança e a novas ideias. A sociedade avança e os partidos não conseguem acompanhar a mudança, dessa forma afastando-se das genuínas preocupações das pessoas e impossibilitando a identificação entre elas e os partidos. Também sucede que muitas vezes as gerações mais novas saem dos partidos desiludidos com as entropias e os tetos de vidro que encontram. Não raro, tentam criar novos partidos, fenómeno bem difícil, aliás.

O cemitério político está cheio de defuntas ambições políticas, até porque é um sistema cheio de ‘barreiras à entrada’ que protege quem está dentro e dificulta a vida a quem está de fora e quer entrar. O Bloco de Esquerda é o caso de maior sucesso eleitoral pós-eleições da constituinte. 

Não é por isso de estranhar que, de cada vez, que uma nova formação partidária aparece, o prognóstico de sucesso seja muito reservado. Afinal, é o que demonstram 45 anos de regime democrático.

Foi por isso com reserva, se não com total descrença, que foram recebidos o Chega e a IL: não só porque o insucesso dos novos partidos costuma ser a regra, como, objetivamente, para eles terem votos, alguém os vai perder e como votos são poder, perder votos é perder poder – justamente a última coisa que qualquer partido quer perder.

Se o Chega e a IL tiveram nas eleições legislativas de 2019 a sua primeira experiência nas urnas, mostraram nas eleições presidenciais que tinham vindo para ficar. O Chega é um partido populista de extrema-direita, igual aos seus congéneres europeus e de olho posto em Bolsonaro e Trump, um partido catch all, que se impõe através de uma comunicação muito agressiva que mostrou nas eleições presidenciais já deter uma máquina pronta no terreno para disputar eleições. A Iniciativa Liberal é um partido de nicho, à procura de um eleitorado mais jovem, urbano e elitista, apresentando-se como uma marca em franco crescimento.

Diria que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa foi o primeiro político a debater-se contra estes partidos já organizados e em crescimento e Carlos Moedas, na sua corrida por Lisboa, será o segundo. 
Colocadas as coisas desta forma, poderá parecer que o modo (ecuménico, equidistante, ao centro) como o presidente Marcelo se desenvencilhou de André Ventura e Tiago Mayan seja a fórmula ganhadora para Carlos Moedas em Lisboa. Todavia, tal não se afigura possível: Marcelo Rebelo de Sousa, justamente porque era PR, podia contar com o voto dos socialistas. 

A circunstância de Carlos Moedas em Lisboa é completamente outra: à sua esquerda tem o PS, PCP e Bloco; à sua direita tem Chega e IL. Estas são as suas circunstâncias, veremos o que faz com elas.