Falar Baixinho

Crianças, as heroínas da pandemia

Com ou sem covid, no verão ou no inverno, já é um clássico as praias encherem-se nos dias de sol. O que me surpreendeu foi ver quase só pais com crianças.

Esta semana, com a chegada do bom tempo, decretei que estava aberta a época balnear. Fui buscar os meus filhos à escola munida de fatos de banho, toalhas, pás, baldes e chinelos. Quando cheguei à praia percebi que estava longe de ser a única iluminada. Não me admirou a praia estar cheia de gente. Com ou sem covid, no verão ou no inverno, já é um clássico as praias encherem-se nos dias de sol. O que me surpreendeu foi ver quase só pais com crianças. Mais ou menos preparadas – de fato de banho, com a farda da escola, a roupa totalmente encharcada ou como vieram à terra – as crianças brincavam, alegremente entre a areia e a água. E os pais pareciam mais condescendentes e tranquilos. Não vi uma única birra, uma única criança a chorar, nem um pai a zangar-se.

As crianças têm sido as grandes vítimas e também as grandes heroínas desta pandemia. Foram obrigadas a ficar fechadas em casa, longe dos amigos e dos professores, dos avós de quem tanto gostam, privadas da sua liberdade, para remendarem os erros dos mais velhos e obrigarem os pais e o país a cumprir o confinamento, sem sequer entenderem verdadeiramente a razão de tudo isto.

Nesta pandemia não temos só de proteger os mais velhos, temos também de nos proteger a todos evitando voltar a estes confinamentos que destroem a economia, a liberdade, a saúde mental e o bem-estar geral, mas também as crianças, que estão a ser extremamente prejudicadas.

É verdade que estas semanas em casa podem ser preciosas para as famílias, sobretudo quando um dos pais consegue estar disponível. Mas os efeitos negativos são mais do que muitos. Ao nível escolar as crianças estão cada vez mais atrasadas, muitos sentiram-se constantemente ignorados pelos pais que faziam um esforço hercúleo para os conciliar com o trabalho, outros engordaram e a atividade física reduziu-se ao exercício dos dedos nos teclados e ecrãs, o que só serviu para criar ou alimentar a dependência destes aparelhos.

Tenho um filho de dois anos que é o resultado deste ano de pandemia. Se ouve uma mota salta-me para o colo, desconfia e envergonha-se com as pessoas com quem nos cruzamos, fica entusiasmadíssimo com as coisas mais simples que vê mas também tem mais receio de tudo, embora em casa tenha uma atitude totalmente oposta.

Nem sempre as crianças conseguem explicar o que sentem, nem sequer conseguem identificar, mas o aumento da ansiedade, a irritabilidade, a dificuldade em dormir, as alterações alimentares ou as birras que muitos pais e serviços de saúde têm sentido podem ser indicadores destes tempos difíceis.

Acho inacreditável que com tudo o que já lhes tirámos, ainda se tenha a insensatez de manter tantos parques infantis embrulhados em fitas. Este longo castigo tem de cessar ou mesmo depois de passar a pandemia elas vão continuar a pagar a fatura.