Retratos Contados

O País das Maravilhas da avó Alice

A tua gargalhada, tal como o teu abraço são genuínos. Pertences a mim e a todas as gerações que se deliciaram, e deliciam, com os teus livros, com os teus pensamentos passados à escrita. Detestas adjetivos, mas acho-te maravilhosa.

Querida avó, Tomei a liberdade de usurpar este espaço, que nos últimos meses tem sido dos dois. Mas hoje é o dia do teu aniversário, e o que tenho para partilhar não cabia no espaço que me é destinado. Nasceste no dia em que inicia a Primavera e se celebra o Dia Internacional da Felicidade. Nem podias ter escolhido outro dia para nascer!

Contigo entramos na Terra da Alegria! Um lugar que é bem melhor do que o da outra Alice, a do País das Maravilhas.
Tens um riso transbordante, que nos envolve a todos, e uma energia vital que encontra forças, mesmo nos momentos de aperto. És uma força da natureza que irradia alegria. A tua amizade é quente e aconchegante. Detestas adjetivos.

As coisas boas, contigo, tornam-se em coisas maravilhosas. É bom, aliás, muito bom estar contigo. É bom ouvir-te a falar de tudo. Todos os dias aprendo contigo e agradeço à vida ter-te colocado no meu caminho. Através das nossas conversas levas-me a fazer viagens à Lisboa e às pessoas de outras épocas. Detestas adjetivos, mas acho-te fascinante.

A tua gargalhada, tal como o teu abraço são genuínos. Pertences a mim e a todas as gerações que se deliciaram, e deliciam, com os teus livros, com os teus pensamentos passados à escrita. Detestas adjetivos, mas acho-te maravilhosa.
Recentemente li uma mensagem que te enviaram, em que diziam: «Tive a minha bebé faz amanhã um mês. Tem o nome Rosa devido ao seu primeiro livro. Ainda ponderamos chamar-lhe Alice. Choro sempre no final e já o li dezenas de vezes. Eu e a minha irmã dizemos que é a nossa avó literária».

Começaste a ser escritora para calares os teus filhos, que queriam uma história escrita por ti. Passados 40 anos da 1.ª edição do livro Rosa Minha Irmã Rosa, receberes mensagens destas é indescritível. Detestas adjetivos, mas acho-te formidável. Leio outra mensagem que te enviaram. Desta vez, com referência a muitos títulos de livros por ti escritos:

«Os frágeis olhos de Ana Marta
me disseram para onde ir,
porque a Lua não está à venda
e as águas de Verão já começam a cair.

E se perguntarem por mim, digam que voei
para lá do lote 12, 2º frente.
Fui ouvir a vida nas palavras de Inês Tavares
e pela voz de tanta outra gente.

Já sozinha, partilhei um chocolate à chuva
com os olhos num fio de dumo nos confins do mar…
Oh, Rosa, minha irmã Rosa, lembras-te?
São os sons de uma vida inteira para te contar.

Contar-te as pessoas, as histórias e o tempo,
as tristezas e as alegrias desde a minha partida.
Naquela noite em que saí com nada mais na alma
além de meia hora para mudar a minha vida».

Adoro! Detestas adjetivos, mas acho-te incrível. Cresceste sozinha, sem os abraços, o carinho, o afeto… que cada criança merece (e necessita)! Sem a rede a que todas as crianças têm direito. Cresceste desamparada, sem pais que te amparassem e te mostrassem um caminho. Tinhas tudo para falhar. Mas ousaste caminhar contra o destino! Costumas dizer: «As coisas só me tocam até uma determinada altura, até eu deixar, e não me tocam mais. Eu esforço-me muito por ser alegre, sou assim!». Detestas adjetivos, mas acho-te magnificente.

Quando entraste pela primeira vez na redação de um jornal pensaste: «Esta é a vida que eu quero e aquele é o homem que eu quero!». E assim começou uma longa carreira de jornalista e conheceste o Mário Castrim, com quem virias a casar e a ter dois filhos. Deram-te poucos meses de vida, e para bem de todos nós, já passaram várias décadas. Detestas adjetivos, mas és resiliente.

«Tive os empregos e a profissão que eu quis. Tive os homens que eu quis. Tive os filhos que eu quis». Detestas adjetivos, mas acho-te extraordinária. «Acho mesmo que sou privilegiada! A infância foi complicada? Foi! Mas até isso me proporcionou muita coisa que, se calhar, de outra maneira não teria tido!».

Perdoa-me por ter falado pelos dois. Mas foste tu que me ensinaste a não me calar. Obrigado por existires. Feliz aniversário. Detestas adjetivos, mas acho-te única!