Novos tempos

Nas últimas duas semanas surgiram dois sinais de esperança: a apresentação da candidatura de Carlos Moedas à CML e a assinatura de um acordo entre Francisco Rodrigues dos Santos e Rui Rio para juntar esforços para derrotar o PS nas autárquicas.

por Filipe Anacoreta Correia

Esta semana o primeiro-ministro suspendeu a administração das vacinas da AstraZeneca com base no receio de outros (vulgo o ‘diz que diz’).

As vacinas em questão correspondem a mais de 30% do total de vacinas que o Governo adquiriu e neste momento Portugal – que está em processo de desconfinamento – tem apenas 8% da população vacinada (a expectativa era a de que no final do mês tivesse pelo menos 20%).

O Governo – o mesmo que há uma semana anunciou que o plano de desconfinamento se baseava no consenso científico – não procurou qualquer parecer técnico e científico para tomar uma decisão de consequências vitais.

Passado um dia de ter lançado a suspeita (irrecuperável?) sobre esta vacina – a principal que dispõe para administrar em Portugal –, o Governo ouve a Agência Europeia de Medicamentos e anuncia que retomará o que suspendeu sem fundamento.

Esta ligeireza e irresponsabilidade seria grave em qualquer circunstância, mas num tempo de uma pandemia que nas suas consequências é apenas equiparável a uma guerra, a atuação do primeiro-ministro não é apenas censurável. É repugnante.

António Costa demonstra uma coisa muito simples: entre a sua vida política e a vida dos portugueses, o primeiro-ministro está sobretudo preocupado com a sua. Lançando uma suspeita sobre o principal instrumento de que dispõe para salvar vidas e a economia, o líder socialista não hesita em preservar a sua pele, como se a matéria de vacinas resultasse de um palpitar de qualquer ‘focus group’.

Já tinha sido assim na tragédia dos incêndios de 2017. Diante da morte de mais de dezenas de pessoas, quando se esperava que António Costa se comovesse, o líder socialista acorreu a grupos de pesquisa de mercado para avaliar o impacto da tragédia na sua imagem.

E volta a ser assim na condução da mais grave e fatídica crise que estamos a viver no nosso tempo de democracia.

Os sinais que nos chegam são muito preocupantes a todos os níveis: o país empobrece e perde a corrida para os seus concorrentes diretos a Leste. Os níveis de dependência do Estado acentuam-se a ritmo acelerado. O Governo usa fundos (os PRR’s) – que foram concebidos para contrariar a tendência de empobrecimento e almejar o dinamismo da economia – para, em vez disso, aumentar despesa pública futura.

No plano político, o PS é cada vez mais tributário de uma visão antirreformista, estagnante e sem outro horizonte que o da salvaguarda do poder. Teme a investigação judicial independente, procura sedimentar o seu poder no controlo da comunicação social – que procura comprar com fundos públicos –, aprofunda um ciclo de poder hegemónico que dissemina excessiva familiaridade entre o poder da República e o Partido Socialista.

No meio desta nuvem que paira, surgiram nestas duas semanas dois sinais de esperança.

O primeiro sinal foi a apresentação da candidatura de Carlos Moedas à Câmara Municipal de Lisboa. Em primeiro lugar, porque Carlos Moedas disse ao país que está disponível para sair do conforto da sua situação profissional para assumir a incerteza do serviço público. E isso não é coisa pouca, sobretudo em quem é reconhecido tanto talento e capacidade. Portugal precisa de sentido de serviço não menos do que de competência.

Em segundo lugar, porque a gestão da cidade de Lisboa é farol para o país: também aqui se pede um novo horizonte muito mais aberto e reformista, uma visão de serviço aos lisboetas e não uma teimosia contra quem cá vive. Carlos Moedas tem mundo e experiência e parece ser a pessoa certa para este momento.

O segundo sinal vem na sequência do primeiro: esta semana Francisco Rodrigues dos Santos e Rui Rio assinaram um acordo para juntar esforços para derrotar o PS nas eleições autárquicas, subordinando visões partidárias aos interesses daqueles portugueses que reclamam mudança.

Não é ainda nada de definitivo. Mas é um caminho, um esforço que nos poderá apontar para um outro ciclo.

É precisamente nessa leitura – entre aquilo que precisamos e aquilo que desejamos – que este pode ser um daqueles momentos de viragem. E quem quiser que a mudança se desloque para a direita do PS não poderá nem poupar nem pulverizar esforços, sob pena de fazer um grande favor a Costa. Que continuará preocupado em cuidar mais da sua imagem do que da saúde dos portugueses.

Desse sentido de urgência e dessa responsabilidade dependem também os novos tempos.