Tautologias

Do outro lado do mundo, perplexa, a China...

Na China, a História não se pode reescrever, visto que somos pontos de chegada e de passagem para o futuro. Todo o património histórico que deixámos em Macau lá continua.


«A natureza dos homens é a mesma. São os seus hábitos que os distinguem». Confúcio

1. Uma escola em Nova Iorque quer que os alunos deixem de usar palavras como pai, mãe ou pais. A China olha com perplexidade a conversão (das elites) do Ocidente a estes delírios e defende-se promovendo os valores perenes que são o cimento da sua civilização. Desde logo, a família, força cósmica centrípeta, modelo de tudo na sociedade chinesa, nomeadamente da política. E o patriotismo.

2. Segundo pensadores como J. Needham, há duas grandes civilizações, diferentes mas comunicáveis: a indo-europeia e a chinesa. Cada uma com a matriz estruturante de um começo de pensamento próprio, definindo culturas e mundivisões particulares nos respetivos espaços geográficos.

3.No mundo chinês, os contactos com o ‘outro’ remeteram sempre para a diferença de costumes, nunca para as cores da pele. Talvez por haver todas as cores naquele mosaico de grupos humanos. Desde logo, os hans, maioritários, mais brancos do que eu. ‘Racismo sistémico’, ‘racializados’, ‘privilégio branco’, ‘interseccional idade’, são aberrações para os chineses. Para a China, toda a distinção é de costumes e tudo é remível pela educação.

4. No período de ocupação das regiões costeiras, seriam as potências coloniais a usar a expressão ‘raça amarela’. Ora, ‘povo amarelo’ era a designação que os chineses se atribuíam a si próprios: do Rio Amarelo, berço e fonte da China, entenda-se. E, daí, o ‘Imperador Amarelo’, cor simbólica e das vestes que o distinguiam. Acrescente-se que a expressão ‘raça amarela’ em nada afetou os chineses e o seu mundo, pela razão simples de terem sentido sempre que a sua civilização e os seus costumes eram superiores – como durante milénios foram, de facto.

5. Aos portugueses que aportaram ao sul da China (povoado por gente de pequena estatura) chamaram ‘piratas gigantes’ (os japoneses eram os ‘piratas anões’), pelo desconhecimento que os mareantes revelavam dos seus costumes e pelas barbaridades que cometiam. No imaginário popular julgaram-nos meio demónios.

6. Outra diferença: o respeito pela História, que não se pode reescrever, visto que somos pontos de chegada e de passagem para o futuro. Todo o património histórico que deixámos em Macau ali está hoje, porventura mais protegido do que sempre.

7. E outra ainda: não entra na cabeça de um chinês que se possa matar em nome de Deus. Num passeio por Guangdong, no táxi de um jovem chinês, passámos por templos das grandes religiões. Em todos, ele entrou reverencialmente. Perguntei-lhe: «Mas afinal, qual é a sua religião?». Respondeu-me: «Mas não há só um Deus?». Por isso, temem o islamismo (teme-se mais aquilo que não se compreende).

8. A possibilidade de resistência ao islamismo é a China. Oxalá consiga evitar aos uyghurs (minoria muçulmana), na região do Xinjiang, o terror e a devastação islâmica. Veja-se Moçambique.