Viagens

Índia. Comboios e comboios pontualmente fora de horas

Não há praticamente lugar nenhum na Índia onde não seja possível chegar de comboio. A grande herança dos ingleses tornou-se em algo indispensável para a vida do país e emprega mais de milhão e meio de pessoas. É preciso entrar neles e nunca esquecer.

Ah! O tempo! Essa maravilhosa abstração. Gosto de comboios: mexem com a noção do tempo. Talvez seja pelo ritmo mecânico dos tirantes. Andei o mundo de comboio, todo o mundo menos África, o único continente onde o comboio foi desprezado. Europa e Ásia, o transiberiano, o pequeno trem que atravessa o Vale di Urubamba no caminho de Cuzco, o Vale do Vouga lá na Águeda da minha infância. E, depois, a Índia...

Já passei por tantas estações de comboio na Índia. Trivandrum e Pondichérry, Bangalore e Hyderabad, Tirichurapalli, Amritsar e Bikaner, Srinagar, Calcutá, Bubhaneswar, Cochim e Gangtok. Vou-lhes perdendo a conta. Mas em todas encontro um fascínio especial, um chamado obscuro, qualquer coisa escondida ainda por descobrir. As moscas picam como vespas por cima da roupa, as caras mais indesvendáveis cruzam-se nas plataformas. De onde vem este sikh de turbante cor-de-laranja e uma estranha pressa na medida dos passos? Com que sonha esse velho senhor enrugado bebendo a sua mistela de chá, leite e açúcar, de olhar perdido nas linhas paralelas que se encontrarão provavelmente no infinito segundo a velha teloria euclidiana? Quem terá direito à ternura daqueles olhos enormes, negros, aveludados, que espreitam por entre as pregas de um chawl púrpura? Ah! Coo são profundos os olhos da Índia...

Homens escuríssimos de longos bigodes; carregadores de berrantes camisas vermelhas e cor-de-rosa; mulheres de meia idade de óculos de aros de massa grossa, barrigas à mostra caindo sobre os lunghis como odres apenas meio cheios; rapazes magros de dhotis brancos e chinelos cambados; guardas de estação de pomposas fardas castanhas e pingalins na mão; raparigas exibindo na testa bindis de cores vivas: encarnados, verdes, azuis, amarelos; homens ocidentalizados de fato e gravata e calças de ganga; gente suando em bica na exasperação do calor húmido; as carruagens enfileiradas num silêncio de ferros prometendo-me novos destinos e cumprindo sempre as suas promessas.

Milhões
A Indian Railways transporta diariamente mais de 15 milhões de pessoas. Eu percorri os 528 km do Trivandrum-Nizamuddin Rajdhani Express. A viagem mais longa sem paragens: seis horas e meia. Sem atrasos. Talvez não acreditem, aqueles que não conhecem: mas as máquinas da Indian Railways são pontuais como poucas. A rota mais longa é entre Dibrugarh e Kanyakumari. - 4286 km; 82h40. Não se deixam influenciar pela confusão das estações e apeadeiros. As pessoas que saltem a tempo para as carruagens ou ficam em terra. Por exemplo, não consigo estar em Bombaim e não ir a Goa e a Colva, essa espécie de minha casa distante continuamente à minha espera.

O comboio é lento para a distância. Tem de rodear os ghats, as montanhas que separam os estados de  Maharashtra e de Goa. Longe vai ficando a cidade grande. Pedaços de Índia soltos pelas janelas gradeadas. Perco-me num livro e nos números que lá vêm: Indian Railways. Tudo o que queira saber sobre esta teia de ferro que nos leva para toda a parte deste sub-continente fascinante. É um universo. Por toda a Índia existem mais de setenta mil quilómetros de linhas de caminho de ferro. Diariamente, mais de sete mil comboios de passageiros  deslocam-se transportando mais de quinze milhões de passageiros entre cerca de sete mil e duzentas estações. Tem a imensidão de qualquer coisa como quase dois milhões de funcionários. Distraio-me depois pelas janelas gradeadas. Deixo que os olhos vão e venham do horizonte. Trago comigo a lembrança surpreendente da pontualidade destes comboios de aspecto arruinado. Em tantos e tantos milhares de quilómetros percorridos nunca sofri um atraso de mais de meia hora. Certa vez, em trinta e duas horas de viagem, tiraram-me dez minutos. Não lhes sinto a falta.

Volta e meia, num pequeno apeadeiro onde o comboio pára por segundos, há uma criança escura e suja que entra de gatas, um pano sem cor por entre os dedos de uma das mãos, esfregando o chão das carruagens, mergulhando para debaixo dos bancos numa atarefada recolha de migalhas e bocados de comida e de papel. Há quem lhe conceda o favor de uma moeda de uma, duas, cinco rupias. Sem palavras, o menino continua rastejando o seu trabalho.

Quilómetros
De repente, em Goa, entre Cuncoim e Canacona, enquanto o velho jipe galga com esforço os quilómetros da estrada esburacada, por entre a verdura intensa dos cajueiros, dos eucaliptos e dos tamarindos, recortam-se os quadrados esmeralda dos arrozais. Tanto verde consome os olhos. E quando, numa curva do caminho, surge a mancha alaranjada das mulheres que vendem mangas, papaias e cocos, parece que qualquer coisa fica, sem se saber ao certo porquê, para sempre fora do seu lugar.

Há homens que, não sendo mudos, dispensam as palavras. O meu amigo Nilesh é um deles. Está pronto, está sempre pronto, traz consigo, vá para onde for, o seu sorriso perpétuo, indisfarçável, abana a cabeça num sim positivo e encantador que parece, ao mesmo tempo, encadear numa pergunta que não carece de resposta. Está na Rua do Norte, como se estivesse em Amedabadh, esperando-nos pacientemente à chegada de um avião madrugador num aeroporto incompleto pelo meio da confusa excitação dos condutores de riquexó e dessa amálgama de cheiros de que a Índia é feita, o cheiro inconfundível de todos os cheiros confundidos. Está na Rua do Norte como se estivesse nessa estação de caminhos de ferro decrépita onde nos comprou bilhetes para um comboio que já tinha partido com a convicção de uma certeza inabalável, fazendo-nos correr ao longo da gare e pelo meio de uma babilónia confusa de gente eternamente sem pressas, seguros de que, com esse esforço, ainda seríamos capazes de alcançar as carruagens que já rolavam distantes e indiferentes algures pelas planícies do Gujarat.

Índia.
O seu nome deve ficar assim, suspenso entre duas linhas, tão solitário como a sua imensidão, preso simplesmente ao parágrafo que lhe distingue a sonoridade das silabas. 
 

Índia.

Em milhares de quilómetros aprendi a sua verdade ímpar. Milhares de quilómetros que acabam no vento do sul que sobe a Rua do Norte; um comboio pontualmente fora de horas que nos deixa numa cidade errada; o frenesi ruidoso de Bombaim e os bairros megalómanos da pobreza elevada ao infinito;  espaço branco das areias de Colva, Malibu Beach, o mar quente e grosso das ondas, o futebol impreciso de gente de países misturados, o avançado-centro do Vasco da Gama de Panjim que justificava a sua inabilidade num inglês cortante: « Zizizvicozzovdavind». This is because of the wind... É preciso reaprender inglês de vez em quando.

As ciganas de Karnataka pousando o seu brica-braque prateado sobre panos vermelhos escuros e sobre sorrisos claros que se reflectiam no brilho dos olhos; a noite prolongada de estrelas em céus impossíveis e sem horizontes; as igrejas crescendo à sombra irrequieta das palmeiras; o barulho impreciso do vento nas folhas das árvores à mistura com o crucitar uníssono das gralhas e dos corvos. 

Índia.
Uma delas. Vi tantas outras. Entre o encanto e a miséria das crianças ao abandono como pontes velhas pelas quais já ninguém passa. Sem palavras, como o Nilesh, que não precisa delas, ou com palavras, como Salman Rushdie, que escreveu esta declaração de amor em O Chão Que Ela Pisa: «Índia, nadei nas tuas águas tépidas e corri, feliz, pelos caminhos das tuas montanhas. Mas por que é que tudo o que eu digo soa como uma ‘filmi gana’, uma canção barata dos filmes de Bollywood? Pois muito bem: percorri as tuas ruas imundas, Índia, sofri muitas dores devido às doenças engendradas pelos teus germes. Comi o teu sal e bebi o enjoativo chá açucarado que serves à beira das estradas.

Durante anos os teus mosquitos da malária andaram a morder-me por todo o sítio onde passasse e nos desertos ou nos verões de todo o Mundo fui picado pelas tuas vespas de Caxemira. Índia, minha terra infirma, meu abismo marinho, minha cornucópia, minha gente. Índia, meu excesso, meu tudo-ao-mesmo-tempo, meu abraço, minha fábula, minha mãe, meu pai e minha primeira grande verdade. Pode ser que eu não seja digno de ti, que tenha sido imperfeito, confesso. Posso não compreender o que estão a fazer de ti, que talvez já tenham feito, mas tenho idade suficiente  para dizer que esta nova Índia não a quero, nem preciso de a compreender. Índia, fonte do meu imaginário, nascente da minha selvajaria, destruidora do meu coração. Adeus».
Índia.

Viagens
Entre Bombaim e Chennai por três vezes repeti a viagem em tempos diversos. De comboio, de avião, talvez a faça um dia de autocarro, num desses velhos autocarros que atravessam a Índia de lés a lés, apinhados de gente escura e roupas coloridas e animais domésticos e fragrâncias de fruta. Entre uma e outra, o caos e uma certa sonolência nostálgica de passados riquíssimos. E aquele nome da estação onde desembarco, de provocar cãimbras na língua: Venkatanarasimharajuvaripeta.

No seu livro India. From Midnight to the Millenium, Shashi Tharoor serve-se de ambas para exemplificar como o Bharat começou a dominar a Índia dos dias de hoje. A Índia, o país que manda satélites para o espaço, que tem a maior taxa de crescimento no domínio do audovisual de todo o Planeta, o lugar onde se fez a primeira chamada de telemóvel, entre o líder comunista de Bengala Ocidental e o Ministro das Telecomunicações; e o Bharat, a Índia que só fala hindi, que vive em aldeias, que cultiva os campos, que não tem telefones, que cumpre as regras das castas e rejeita todos os tipos de modernidade. «Convencidos de que os nomes das cidades indianas revelam a colonização da sensibilidade nacional», escreve Tharoor, «os bharatvasis estão decididos a reverter definitivamente o processo. Por isso, o Shiv Sena – o governo do Estado de Maharashtra – rebaptizou a capital de Mumbai, proibindo a utilização da palavra Bombaim para qualquer tipo de iniciativa oficial».

Continuemos a lê-lo, que vale a pena: «Mumbai já era o nome da cidade em marathi; e o que é que se ganhou com a alteração além de um ressuscitar nativista que parece beneficiar apenas os pintores de sinais e as impressoras de documentos? O Shiv Sena foi mais longe e rebaptizou a principal estação de caminho-de-ferro, Victoria Terminus, uma construcção indo-gótico-sarracena universalmente conhecida por VT e completamente distante, na imaginação seja de quem for, da falecida Rainha-Imperatriz. VT é agora, forçadamente, conhecida por Chhatrapati Shivaji Maharaj Terminus.

Experimente dizê-lo a um condutor de táxi. (...) O DMK, que governa o Estado de Madrasta, rebaptizou-o de Tamil Nadu (a terra dos Tamiles) e decidiu que a cidade de Madrasta também tinha de ser rebaptizada. O governador fora informado de que Madrasta era uma corrupção do português, vinda do nome de um comerciante chamado Madeiros ou de um príncipe chamado Madrie (tal como Bombaim teria vindo da expressão portuguesa Boa Baía). ‘Madrasta não é um nome tamil’, anunciou o chauvinista governador justificando o novo nome de Chennai. (...)Infelizmente, na sua precipitação, ignorou o facto de Madrasta ser, de facto, um nome tamil (derivado ou do nome de um pescador local, Madarasan, ou da palavra para mel: madhu-ras). E pior: ignorou o facto embaraçoso de Chennai não ser, como pensava, de origem tamil. Vem de Chennappa Naicker, o rajá de Chandragiri, que concedeu aos britânicos o direito de comércio na Costa do Coromandel, e que falava telugu, a língua do actual Andhra Pradesh». 

De Mumbai a Chennai; de Bombaim a Madrasta; da Costa do Malabar à Costa do Coromandel. Na Praça Nagar Chowk, frente à estação de Chhatrapati, um mendigo dorme à sombra de uma mangueira, a prótese desatarrachada jaz sem vida ao estender da mão, um ruído contínuo de motores, uma vaca atravessa a rua tranquilamente e os edifícios coloniais e austeros de Naoroji Road, de Amrit Prath, St. Georges Road e D’Mello Road dão a imagem de uma inglaterra vitoriana perdida num lugar que não é seu. Ao contrário de outras cidades indianas, Bombaim não cresceu em volta de templos ou caminhos, é uma criação colonial dos ingleses para servir os seus interesses comerciais. 

Ao longe
Junto à baía de Bengala, uma brisa morna arrefece a violência do calor. No bairro de Egmore, na Pantheon Road, os transeuntes caminham devagar como se nada houvesse para fazer senão gozar o sol e os escapes das viaturas saturam o ar que respiramos. Chennai é, ainda hoje, uma cidade feita de pequenas cidades que se foram misturando. Pequenas cidades de pescadores e de comerciantes: Triplicane, Mylapore, Madraspatnam. Há mais de dois mil anos, os seus habitantes já tinham laços comerciais com chineses, fenícios, gregos e romanos. Quando os portugueses aqui chegaram, já a zona era tida como importantíssima no controlo das rotas do Índico Oriental. Mas este é o século da indústria, e a velha Madrasta transformou-se numa babilónia de fábricas de cigarros, de camiões, de carruagens de caminho de ferro, de peças para automóveis e maquinaria sofisticada. No Paradise Hotel, um homem procura-nos com uma proposta estravagante: precisa de estrangeiros para entrar num filme. Paga 70 dólares por dia e garante-nos que três dias chegam para aquilo que pretende de nós. Declinamos. Perdemos, provavelmente, a hipótese de nos vermos desenhados a cores intensas nos enormes cartazes que se espalham por todas as ruas de Chennai, de George Town a Elliot Beach.

Se em Bombaim há Bollywood, que produz centenas de filmes por ano, Chennai tornou-se o centro de produção em série dos filmes sul-indianos. Se em Bombaim se aposta sobretudo nas fantasias melodramáticas – conhecidas como masala moovies, ou seja, tal como o tempero são feitos de uma fórmula estabelecida que mistura uma grande variedade de ingredientes: acção, violência, música, dança e romance – os filmes tamiles e telugus apostam em histórias que contenham imagens fortes de justiça e igualdade. Se em Bombaim gente como Salman Khan, Karishma Kapoor, Rani Muhkerjee ou Kajol, as grandes estrelas de Bollywood, se tornaram famosas pelo seu overacting, as suas personagens standart, os seus diálogos enormes e as suas canções lamechas que brotam do ecrã de dez em dez minutos, em Chennai as mensagens sociais e, muitas vezes, anti-sistema de castas divulgadas pelos actores conduzem-nos, como sucedeu a Jaylalalitha Jayaram e a M. Ramachandran, que chegaram a governadores do Estado Tamil, a carreiras políticas de sucesso.

Gokhul Bath é um amigo de outras passagens pela Índia. Leva-nos a um restaurante onde servem os famosos caris de Madrasta. Molhos alaranjados, vermelhos e amarelos cobrem a carne e o arroz que se pousa sobre a folha de bananeira. Comemos com a mão, a mão direita, aquela que está reservada aos serviços superiores. Gokhul fala-nos de Mangalore, a sua cidade natal, e da sua satisfação pela vida e por tudo aquilo que ela lhe tem dado. Teve de se transferir para Chennai para ganhar os sessenta minutos e um fuso horário fundamentais para o seu trabalho. É empregado de um escritório de advogados de Nova Iorque.

Às sete horas da tarde na costa leste do Atlântico, quando os seus colegas saem do trabalho para regressarem a casa, Gokhul entra no gabinete que reparte com outros funcionários. Enquanto em Nova Iorque se dorme, em Chennai abrem-se os mails entretanto enviados dos Estados Unidos e procede-se à tradução e arquivamento de processos e correspondência Quando Gokhul regressa por sua vez a casa, já tudo foi expedido de regresso à América para que o trabalho prossiga vinte e quatro sobre vinte e quatro horas sem interrupções. A ideia é revolucionária. Principalmente porque, como diz Gokhul, «A mão de obra na Índia é muito, mas muito mais barata».

Em Marine Drive a brisa não sopra. Em Bombaim há apenas três estações: «Warm, warmer and warmest». As águas do mar são negras de sujidade. Os homens que dormem no passeio encostado ao muro que caminha para Chowpatti Beach parecem ter saído delas. Ao longe, os comboios passam...