Opinião

Tempos muito difíceis

Claro que todos esses ‘MRPP-modernos’ se baseiam em reivindicações não resolvidas das Revoluções Liberais dos séculos XVIII e XIX. Mas hoje, como ontem, dão um grande jeito para enxovalhar, isolar e, mais tarde, reprimir aqueles que, verdadeiramente, lutam pela Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade.

Estamos a entrar, em Portugal, na Europa e no mundo, em tempos muito difíceis.

Cá por casa, aqueles que gostam de se chamar Direita e Liberais, entraram, já sem vergonha, na liquidação da República do 25 de Abril, na liquidação do que designam como Estado Socialista, isto é, a mera existência de um conjunto de elementos, cada vez mais débeis, do que, há umas décadas, caracterizava a social-democracia. De facto, os senhores (aqueles Donos Disto Tudo, que sempre pensaram que Portugal é deles) não estão mais dispostos a aturar um sistema que concedeu à às grandes massas do povo português o direito de votar.

Que é isto? – dizem ainda em voz baixa – agora a criadagem é que, pelo voto, decide quem deve governar? E temos de gastar essa massa toda a pagar-lhes saúde, educação, pensões, etc., à custa do dinheiro roubado (os impostos) do nosso trabalho de empresários? E a aturá-los com os seus malfadados ‘direitos do trabalho’? Era o que mais faltava! Temos de acabar com este socialismo e com a República que lhe deu origem!

Este é o programa político, económico e social da Reação proto-fascista que já aí está.

Passada a fase de destruição das grandes narrativas mundiais, desde o cristianismo ao marxismo, e a sua substituição pelas ‘regras’ do Consenso de Washington, as ‘modernidades líquidas’ e as pós-modernidades, lançam-se hoje contra uma coisa que não existe a que designam como Teoria Crítica, como passo justificador do que virá a seguir (se os deixarmos, claro). Essa tal ‘Teoria Crítica’, propagandeada entre nós pela generalidade dos órgãos de comunicação social e, como expoente teórico, pelo Observador, não é mais do que um enorme ruído gerado por provocadores tipo ‘MRPP-moderno’, ignorantes ou ‘catedráticos’, que vivem ‘independentes’ ou acobertados em vários ‘partidos respeitáveis’ relativos ao racismo, ao feminismo, às ‘identidades de género’, às ‘execuções assistidas’, à reinterpretação da história, às alterações de vocabulário tipo ‘conselho económico e social’, que vão desde o Ba ao Francisco Assis, cujos excessos (devidamente propagandeados) levam à falta de paciência de qualquer vulgar cidadão que passe o dia a ‘vergar a mola’.

Claro que todos esses ‘MRPP-modernos’ se baseiam em reivindicações não resolvidas das Revoluções Liberais dos séculos XVIII e XIX. Mas hoje, como ontem, dão um grande jeito para enxovalhar, isolar e, mais tarde, reprimir aqueles que, verdadeiramente, lutam pela Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Os órgãos de comunicação social, incluindo os públicos, dão cobertura a tudo o que sirva para lançar a discórdia entre os portugueses e denegrir a atual República.

Porém, há ainda uma agenda internacional, nesta ofensiva, e ela vai-se tornando mais clara com as recentes e inadmissíveis palavras de Biden relativamente a Putin (tratando-o por «assassino» e à Rússia (que vai ter de «pagar caro»). Durante muitos anos, de facto desde a sua origem, que a Europa Ocidental, a CEE e a União Europeia foram instrumentos da política externa norte-americana contra a União Soviética e, depois, para o desmembramento territorial e social da Rússia. Só no tempo de Angela Merkel à frente da Alemanha e, especialmente, depois da saída de Barroso e da sua equipa, é que, as instituições da UE passaram a tomar em conta, mesmo que timidamente, os interesses da Europa. Mesmo assim a Europa teve de gramar com a guerra na Jugoslávia, a sabotagem financeira de 2008 e a ‘ocupação’ americana da Ucrânia. Com a prevista saída de Merkel, esse processo vai, de novo, acelerar-se.

Esta Direita nacional não quer só acabar com a República do 25 de Abril. Ela quer, associada a muitos outros (incluindo o atual MNE), arrastar Portugal (e a Europa) para uma guerra em grande escala contra a Rússia. A isto se reduz o seu ‘patriotismo’, do mesmo modo como, antes do 25 de Abril, os defensores do regime se desembaraçaram da conversa ‘integracionista’ e se associaram, no âmbito da Operação Alcora, à Rodésia e à África do Sul para a defesa da supremacia racial branca no cone sul de África!