Economia

Novo Banco com prejuízos de 1329 milhões de euros em 2020

Novo Banco vai pedir 598,3 milhões ao Fundo de Resolução, mas entidade vai analisar contas antes de passar ‘cheque’. António Ramalho acena com lucros a partir do primeiro trimestre. 

O Novo Banco fechou 2020 com prejuízos de 1.329 milhões de euros, valor acima das perdas de 1.059 milhões registadas em 2019. A instituição financeira liderada por António Ramalho diz que este resultado apresenta «um impacto negativo de 300,2 milhões de euros resultado de avaliações independentes aos fundos de reestruturação».

A somar a este fator há que contar ainda com a constituição de 1.191,5 milhões de euros de imparidades e provisões, «em resultado da descontinuação do negócio em Espanha e do agravamento do nível de incumprimento de alguns clientes (crédito a clientes, garantias e instituições de crédito)».

Deste total, segundo a instituição financeira, 268,8 milhões dizem respeito a imparidades para fazer face à pandemia de covid-19 e 123,9 milhões de euros de reforço da provisão para reestruturação.

A instituição bancária adianta ainda que a redução da taxa média ativa foi compensada pela redução da taxa média passiva, o que contribuiu para o acréscimo na margem financeira face ao exercício de 2019 (de 1,32% para 1,41%). Já o produto bancário praticamente duplicou dos 300 milhões para os 617 milhões, uma subida que se deve sobretudo a um desagravamento da rubrica ‘Outros Resultados de Exploração’ que passaram de -326,8 milhões para -136,6 milhões, com António Ramalho a explicar esta evolução com a redução do legado do BES.

No entanto, a carteira de crédito baixou para 25,2 mil milhões de euros, enquanto os depósitos de clientes subiram para 26,1 mil milhões de euros.

A instituição financeira conta com 6,9 mil milhões de euros de crédito em moratória, representando cerca de 27% da carteira de créditos a clientes. E para António Ramalho não há dúvidas em relação a esta matéria: «As moratórias são assunto para resolver já e não para resolver em setembro. Costumo dizer: não deixemos em setembro o que podemos fazer em março. Não deixemos para 2022 o que podemos fazer em 2021», acrescentando que «adiar problemas não resolve nada em banca».

O banco terminou o ano com 4.582 trabalhadores, menos 287 face aos 4.869 colaboradores que existiam em 2019. No entanto, esta redução tem em conta «o efeito da transferência de Espanha para operações descontinuadas». Em relação ao número de agências, a instituição presidida por António Ramalho fechou 2019 com 359 balcões (358 em Portugal), menos 28 do que os 387 com que tinha terminado no ano anterior.

«Os custos com pessoal totalizaram 245,6 milhões de euros (-0,3% em termos homólogos). A redução desde 2016 (-19,1%) resulta da recalibração continua do modelo de negócio em prol do incremento da eficiência», acrescentando que «esta redução reflete os impactos da política de racionalização e otimização em curso, que permitiu reduzir em 33,8% o valor destes gastos nos últimos cinco anos». 

Fundo de Resolução chamado 

O Novo Banco vai pedir 598,3 milhões de euros ao Fundo de Resolução, ou seja, acima do que o Governo antecipava no Orçamento do Estado e que se fixava nos 476 milhões de euros.  Uma proposta que acabou por chumbar no Parlamento.
Feitas as contas, o valor total das compensações solicitadas entre 2017 e 2019 e a solicitar relativamente a 2020 totalizam 3,57 mil milhões de euros, sendo que o teto de transferências do acordo é de 3,89 mil milhões de euros.

A instituição financeira justifica a necessidade desta verba com as «perdas dos ativos protegidos pelo mecanismo de capital contingente (CCA) e pelas exigências regulatórias de capital». 

Um pedido que chegou à entidade  liderada por Máximo dos Santos, mas garante que só irá transferir essa verba depois de analisar as contas do banco. «Nos termos do contrato, serão agora realizados os procedimentos de verificação do valor calculado pelo Novo Banco, como aliás tem sucedido nos últimos anos. Acresce que, relativamente a determinadas matérias, se encontra ainda em análise se os respetivos impactos nas contas do Novo Banco estão abrangidos, nos termos do contrato, pelo mecanismo de capitalização contingente».

E o Fundo de Resolução garante que «as matérias em análise representam um montante que excede os 160 milhões de euros. Como também resulta dos termos do contrato, prevê-se que o pagamento que venha a ser devido pelo Fundo de Resolução seja realizado durante o mês de maio, cumpridos que estejam todos os requisitos e procedimentos aplicáveis».

Ainda esta sexta-feira, o Governador do Banco de Portugal garantiu que o o que é conhecido é o pedido de acionamento do acordo de capital contingente e, como tal, afirmou que  haverá «um processo de validação desse pedido que decorrerá nas próximas semanas». 

No entender de Mário Centeno, «aquilo que é mais importante para o governador do Banco de Portugal é que os acordos sejam cumpridos».

Questionado se esta seria a última injeção do Fundo de Resolução no Novo Banco, António Ramalho não esclareceu, dizendo que o final do seu mandato à frente da administração é em 2024 e o acordo para as injeções pode ir até 2026.

«É um acordo até 2025, passível de ser prorrogado até 2026. Como pode imaginar, seria absurdo da minha parte, enquanto este contrato existir, enquanto este seguro do banco existir, dado que ainda não foi utilizado integralmente, eu falar sobre ele».

Regresso aos lucros

Apesar de prejuízos atrás de prejuízos, António Ramalhou acenou com a apresentação de lucros já a partir do primeiro trimestre deste ano. «Tudo tinha de ter um fim», disse, durante a apresentação de resultados referentes a 2020. «Depois do fim do período de reestruturação, iniciar-se-á um período de resultados positivos desde o primeiro trimestre».

E foi mais longe: «Não levem isso como ato de coragem meu, mas a um ato de realismo», antecipando que este ano será «desafiante», mas ainda assim, haverá lugar para o crescimento e para a rentabilidade da instituição financeira.