Cultura

António Mega Ferreira: "Hoje era impossivel fazer a Expo. Até por causa do tema"

Sente-se incompleto por não ter aprendido a tocar piano. Chegou a ter aulas quando era miúdo, mas uma sucessão de doenças atirou-o para a cama durante dois meses e interrompeu a aprendizagem. Apesar desse ‘remorso’, considera-se uma pessoa ‘solar’ e diz que tem um enorme prazer em partilhar com os outros os seus entusiasmos.


Com o ‘bónus’ de tempo proporcionado pelo confinamento, houve quem aproveitasse para aprender latim, para melhorar a sua técnica de desenho ou para ler clássicos de grande fôlego. António Mega Ferreira, 72 anos, tem-se dedicado à escrita. Terminou recentemente dois livros – que já entregou aos editores, embora não saiba quando vão sair – e está a trabalhar num terceiro.

Mas também fez uma descoberta. Ou melhor, uma redescoberta. «Li o Faulkner quando tinha 20 anos, e portanto aquilo não me bateu. Pensei agora que tinha de o reler», revela. «A grande conquista dos dois confinamentos para mim foi perceber claramente, agora sim, porque é que o Faulkner é um grande escritor. A Luz em Agosto é um livro inacreditável».

De forma casual, começamos por falar sobre comida. «Recorro muito aos serviços de uma empresa de trazer comida a casa, sobretudo ao jantar. Ontem apetecia-me uma coisa leve. Mandei vir um carpaccio de novilho com lascas de parmesão».

Da comida, rapidamente a conversa derivou para outras paixões: a música, as viagens e, claro, os livros. Mas também passou por temas menos agradáveis...

Disse-me que recorre tantas vezes a essa empresa que lhe traz comida a casa que já conhece os estafetas e os estafetas conhecem-no a si. Não cozinha?

Já cozinhei muito. Hoje em dia, estar a cozinhar só para mim… Tenho uma empregada que todos os dias me faz o almoço e me tira o que vou cozinhar ao jantar. Mas muitas vezes quando chega a hora do jantar olho para aquilo e não me apetece. Mas cozinho normalmente. Ao fim de semana cozinho sempre. Exceto que descobri recentemente que ao domingo há um cozido à portuguesa extraordinário. Então mando vir o cozido, que é uma dose industrial. Dá-me para duas refeições – e com o prato cheio, não é a picar.

Isso faz-me lembrar um filme do César Monteiro em que ele está sentado à mesa e trazem-lhe um cozido à portuguesa. Ele demora imenso tempo a servir-se, até ficar com o prato a abarrotar. Depois come uma pontinha de carne, arruma os talheres e afasta o prato…

[risos] Há outra cena fantástica dele em que está deitado na cama a ouvir um relato do Benfica e a comer frango. A certa altura há um golo do Benfica, e ele grita: ‘Gooolo!!!’. Naquilo, manda o frango pelo ar e o frango fica colado no teto! [risos] Era um tipo completamente marado. Uma vez eu ia com o Eduardo Prado Coelho em Saint-Germain, em Paris, estávamos do lado do Café de Flore, e a certa altura ele estaca e diz muito aflito: ‘Vamos atravessar, vamos para o lado de lá’. E eu: ‘Mas o que é que se passa?’. ‘Está ali o João César Monteiro. Se ele me vê, crava-me um almoço e depois ainda escreve uma crónica a dizer que me cravou um almoço!’. Imagine que ele uma vez tinha cravado um almoço ao Eduardo, e depois escreveu uma crónica a gabar-se: ‘Lá papei um almoço à conta do dr. Prado Coelho’. E houve outra história engraçada que o envolveu. Havia uma loja de discos na avenida de Roma que tinha a melhor secção de música clássica de Lisboa.

Aquela que era numa cave?

Exatamente. Um dia, estava eu lá em baixo e vejo aparecer a narigueta do João César. ‘Doutor, como é que vai?’, disse a empregada, a Isabel. ‘Então, já chegou?’, pergunta ele. ‘Já, tenho aqui’. E ele agarra naquilo – ‘Ahhhh’. Pagou, saiu e eu fui direito ao balcão. ‘Isabel, o que é que ele levou?’. ‘Uma oratória de um compositor boémio, o Myslivecek’. ‘Já sei. Mas como é que se chama a oratória?’. ‘Abramo ed Isacco, conhece?’. ‘Não conheço, mas se o João César gosta, de certeza que é bom’. ‘Tenho aqui outra’. ‘Então levo já!’. E levei. Eu sabia que se o João César Monteiro tinha escolhido é porque era bom. E de facto é uma oratória extraordinária.

Uma das coisas que lhe ia pedir era precisamente que me falasse sobre a sua relação com a música. Sabe tocar algum instrumento?

Não. A minha relação com a música é uma relação torturada. Não toco nenhum instrumento, não sei ler notação musical e portanto sinto-me handicapé. Porque adoro música, sei alguma coisa de história da música, como você pode ver tenho música por todos os lados [a coleção de CDs, distribuída por diferentes partes da casa, é prodigiosa], mas sinto-me sempre um handicapé. Sinto que uma falha da minha instrução é nunca ter aprendido música.

Nem chegou a tentar?

Em casa havia um piano vertical, e a minha irmã torturava-se com os estudos do Bach. Depois fez o Conservatório e tudo. E a certa altura, quando eu tinha cinco, seis anos, também me puseram a ter lições de piano. Aprendi durante uns meses. Entretanto adoeci com as doenças que as crianças tinham dantes, todas de seguida – papeira, tosse convulsa, bronco-pneumonia. E como é que se curava? Dois meses na cama sem se mexer.

Que suplício!

Perdi o andar. Quando me levantei da cama, tive que reaprender a andar. E obviamente a minha mãe disse: ‘Ele está muito fraquinho para ir agora fazer esforços a aprender piano’. E portanto nada ficou, como é evidente. Sempre tive essa espécie de remorso por a minha relação com a música ser uma relação incompleta. Mas não tenho culpa nenhuma.

E como começou então a gostar de música?

Comecei a ir muito pequenino, com sete, oito anos, com a minha mãe e a minha irmã à ópera.

Ao São Carlos?

Não, às récitas do Coliseu. E depois comecei a ir com amigos. Lembro-me perfeitamente da temporada de 62-63, aos meus 13 anos, em que comprei bilhetes para o São Carlos com o meu dinheiro.

Da mesada?

Da mesada e de quando às vezes me davam, fui juntando. Nessa temporada, com o meu dinheiro, vi três óperas: O Rapto do Serralho, de Mozart; o Tannhäuser, de Wagner, e o Sonho de uma noite de Verão, do Benjamin Britten. A temporada do São Carlos era top, tinha uma má orquestra mas maestros muito bons – italianos, normalmente – e elencos fabulosos. Vi cantar a Rita Gorr, a Mirella Freni, praticamente segui o arco da carreira da Fiorenza Cossotto, que cantou aqui durante 20 anos, o Alfredo Kraus... A grande estreia do Alfredo Kraus, essa não vi, foi em 58 com a Callas na Traviatta. Quando se ouve a gravação original da Emissora Nacional, é impressionante. A Callas é extraordinária… mas quem é aquele fabuloso tenor? É o Alfredo Kraus, novíssimo. Normalmente a estreia das óperas era à sexta-feira e faziam a matiné de domingo, e depois, na terça-feira, era no Coliseu dos Recreios – o antigo, que levava seis mil pessoas. Sempre lotação esgotada. Havia operários que iam lá para cima para a geral, onde o bilhete era mais barato, levavam um banquinho e estavam horas ali. Ganhei muito cedo esse gosto pela ópera. Ainda adoro ópera e tenho montes de óperas. Mas oiço mais música instrumental. Hoje passei ali, olhei e vi um disco que não ouvia há muito tempo. O La Mer, do Debussy, com o Sergiu Celibidache a dirigir. Trepei pela parede. Aquele gajo era absolutamente genial. E também ouvi há pouco tempo o Prélude à l’après-midi d’un faune, que é feito a partir de um poema do Verlaine. Isto sugeriu-me uma coisa interessante: se o Camilo Pessanha era verlainiano, tinha que ter ouvido musical. E que música ouviria? Eu acho que era Claude Debussy. E que peça de Debussy ele poderia ter ouvido? Em 1915, ano em que ele veio a Lisboa, há um concerto no São Carlos em que o maestro Pedro Blanc dirige o Prélude à l’après midi d’un faune. Como estou a escrever uma ficção sobre o Pessanha, ele vai ao concerto.

Que ficção é essa?

Tenho 50 páginas escritas, não sei ainda o que vai dar. Em 1915 o Camilo Pessanha vem a Lisboa pela última vez. A 30 de março de 1916 parte para Macau, donde nunca mais volta, e morre dez anos depois, em 1926. O que é que ele veio fazer a Lisboa? Veio tentar convencer as autoridades portuguesas não só a acolher a coleção de arte chinesa que ele tinha oferecido ao Estado Português, como a exporem a coleção no Museu de Arte Antiga. O que se passa com essa coleção é uma coisa absolutamente inacreditável. Ele acaba por se ir embora e os caixotes ainda não apareceram em Lisboa, embora tenham sido embarcados seis meses antes em Macau, e até à morte dele a questão da coleção não se resolve. Em 1926 a coleção é finalmente entregue ao Museu Machado de Castro. E o conservador do Museu Machado de Castro vem a Lisboa – uma figura muito nossa conhecida, o dr. João Gaspar Simões. Quatro décadas depois, na sua biografia do Camilo Pessanha, o João Gaspar Simões diz que a coleção era fancaria. Hoje estão expostas permanentemente no Museu do Oriente 82 peças.

São umas caixas e cachimbos, não é?

Não, as caixas são da coleção do Manuel Teixeira Gomes. A coleção do Camilo Pessanha são cabaias pintadas, biombos, pedras… Ele doou cem peças, essa primeira coleção, e quando morreu deixou uma segunda coleção, mais 85 peças. Durante cinco décadas esteve tudo gloriosamente metido em caixotes. Cinco décadas! E é no final do século XX, quando se está a tratar da coleção do Museu do Oriente, que alguém diz: ‘Vamos ver a coleção’. A coleção era, a todos os títulos, única. Ando às voltas com isto, estou a escrever uma reconstituição ficcional do que foram esses cinco meses dele em Lisboa. Mete a história da coleção, mete o reencontro dele com a Ana de Castro Osório, que tinha sido a paixão de adolescência dele, e mete uma coisa muito bonita, que é a relação dele com o sobrinho da Ana Castro Osório, o António Osório de Castro, que era um miúdo com 14 anos espertíssimo. Na véspera de voltar para Macau, o Camilo Pessanha pega no rapazinho, leva-o ao fotógrafo da Rua Áurea e tiram uma fotografia lindíssima os dois. O Pessanha é uma figura que me fascina há séculos. É um glorioso falhanço. É glorioso, mas é um falhanço. [Faz uma pausa] Como é que chegámos aqui?

Estava-me a falar do Debussy, do prelúdio à sesta de um fauno.

Portanto, no meu livro, obviamente haverá uma conversa em casa da Ana de Castro Osório onde o Camilo Pessanha está entusiasmado porque na véspera foi com o amigo dele Carlos Amaro ao São Carlos. É nisto que eu ando entretido em pleno confinamento 2.0.

Ia-lhe perguntar se se aborrecia, mas já percebi que não.

De todo. Aliás, agora estou nisto porque há um mês que acabei um livro, já o entreguei à editora, a Bárbara Bulhosa, da Tinta da China.

Sobre que é?

É um livro que me deu muito gozo escrever. Chama-se Desamigados ou como cancelar amizades sem carregar no botão. É a história de 11 amizades célebres que se transformaram em inimizades ferozes. Começa com César e Brutus – essa é a pior, acaba com um a matar o outro – e vai por aí fora: o Dante e o Guido Cavalcanti, o Wagner e o Nietzsche, Freud e Jung, e acaba com o Garcia Márquez e o Vargas Llosa. Você pressente que nalgumas dessas ruturas há coisas profundíssimas, coisas especulares, projeções de um no outro, coisas mal resolvidas. E o máximo da grandeza é o Brutus que dá uma punhalada no padrinho.

‘Também tu, meu filho’…

A fala que o Shakespeare lhe põe na boca – que ele não disse – é genial, como quase tudo em Shakespeare. Porque quer dizer que no momento em que avista o Brutus ele morre de morte moral. O Shakespeare diz: «‘Et tu, Brute?’. Then fall Caesar!». Ele não morreu das punhaladas, morreu ao ver que era traído pelo favorito.

Na sua vida também tem casos de amizade que acabaram mal?

Não tenho nenhum caso de amizade que se tenha tornado numa inimizade violenta, tenho é casos de desamigamentos. Dois ou três casos na minha vida, em que as coisas terminam abruptamente. Diria que tenho dois casos. Que são dolorosos, porque há sempre uma parte que não percebe por que é que a outra acabou. Ou que só percebe parte das razões. Acho que toda a gente tem na vida uns casos destes. Assim mesmo duros, tive dois.

Chatos?

Um há 20 e tal anos e outro mais recente.

Há coisa de um ano disse-me que, felizmente, nunca teve distrações «dessa nobre missão de acumular livros». Continua a comprar loucamente?

É verdade. Todos os dias o correio bate à parte, eu digo: ‘Será um livro?’. Continuo, continuo.

Que livros são esses? Descobertas que faz, temas que lhe despertam a curiosidade?

Tudo. Por causa desta história do Pessanha, noutro dia descobri que o Paulo da Costa Domingos, da Frenesi, tinha à venda a tese de licenciatura da Esther de Lemos de 1955 sobre o Camilo Pessanha e a Clepsidra. Mandei-lhe um mail. Respondeu-me que por 700 euros era minha! Fiquei perplexo. Disse: ‘Não quero discutir o valor que lhe atribui mas não haverá alguma confusão?’. Respondeu-me imediatamente a pedir desculpa. ‘Pensei que era a primeira edição da Clepsidra que procurava’. Respondi-lhe: ‘Essa vendeu-me você há 20 anos, não preciso de mais nenhuma’. Em absoluto este livro não me era necessário. Mas quando estou interessado num determinado tema leio tudo o que me cai debaixo dos olhos, é uma chatice. Mas alterno com outras coisas. Aqui há tempos uma querida amiga, de muitos anos, disse-me: ‘Conheces um livro chamado À Sombra do Vesúvio, de uma inglesa, a Daisy Dunn?’. ‘Não’. ‘Tens de ler esse livro, vais adorar’. É uma biografia dupla do Plínio, o Velho, e do Plínio, o Jovem, que era sobrinho do velho. O velho morreu na erupção do Vesúvio…

Enquanto toda a gente fugia, ele dirigia-se para lá!

Foi em direção ao vulcão para ver claramente visto e levou com as poeiras em cima e morreu. E o sobrinho conta a história do tio. Mandei logo vir o livro – é magnífico.

Quer dizer, está sempre com as antenas no ar…

Em modo livros. Agora estou a ler outro que mandei vir. Li-o em 97 quando saiu na Quetzal. Só vou dizer o título no final…

Para manter o suspense.

Foi o último livro que ofereci ao meu maior amigo, o José Sarmento de Matos. Num dos últimos internamentos dele no hospital levei-lhe dois livros. ‘Não podes estar aí nessa pasmaceira. Faz favor, tens que ler’. ‘Não me apetece’ – coitado, já não estava nada bem, mas eu insisti. ‘Vais ver. Estes dois livros são ‘un-put-downable’, não os deixas cair das mãos’. Quais eram os livros? Um livro de um italiano, Tiziano Terzani, Disse-me um adivinho. Fantástico. E o outro era O Amante do Vulcão, da Susan Sontag. Ele adorou os dois. Mas morreu pouco depois e já não me devolveu os livros. Agora saiu uma nova edição de O Amante do Vulcão, muito bonita. Estou a acabar de o ler e de facto é um livro fantástico.

E a história é toda verdadeira!

Bate tudo certo. Uma coisa muito engraçada a esse propósito. Tenho um velho amigo, o Nuno Antas de Campos, que é do FC Porto. Temos uma feroz rivalidade, ele é muito provocador. Agora estou um bocado zangado com ele… Quando publiquei o Itália: Práticas de Viagem, o Nuno Antas de Campos disse a outro amigo nosso, o Rui Carp: [num tom cínico]: ‘O Mega publicou um livro sobre Itália… Já comprei. Vou anotar os erros todos’. O Rui Carp depois veio a rir-se: ‘Estive a almoçar com o Nuno Antas de Campos ontem’. ‘E então, já encontrou os erros todos?’. ‘Estava espantado. Diz que não tem nem um erro’. E eu disse: ‘Falhou. Tem um erro. Há uma designação de um Papa em que eu troquei o Inocêncio II com o Inocêncio IV. Esse ele não apanhou’. E tenho um outro pronto para sair que é o que encerra a trilogia italiana. Chama-se Crónicas Italianas, e é uma homenagem ao Stendhal.

Tinha precisamente pensado em falarmos sobre viagens para desconfinarmos um bocado. Se pudesse apanhar um avião agora mesmo e chegar ao destino com todo o conforto, para onde seria?

Para variar ia a Itália. Porque há diversas coisas que gostaria de ver melhor ou ver de novo. Por exemplo, conheço mal a Sicília. Fui duas vezes, estive em Taormina, claro, mas nunca estive em Palermo o tempo suficiente. Gostava muito de ir à Sicília, até porque me interesso pelos escritores sicilianos. As ilhas são dadas a ter uma literatura extraordinária: a Irlanda, Cuba e a Sicília. A Sicília no século XX tem o Pirandello, tem o Lampedusa, tem o Leonardo Sciascia, e mais uma data deles.

O Andrea Camilleri, por exemplo… Mas então iria para Itália.

Iria para Itália. Ou à Sicília ou ver uma coisa cuja existência descobri naquele livro do Plínio. Existe no Lago de Como um palácio construído no século XVI, chamado Villa Pliniana, que hoje é um hotel de superluxo – estive há pouco tempo a reservar um quarto só para ver o preço: era 15 mil euros por noite. O Plínio descreve um fenómeno natural que existe nas margens do Lago de Como: uma cascata que tem humores. De vez em quando debita toda a água e depois começa a diminuir e pára. E o que é a Villa Pliniana? É um palácio que um daqueles príncipes italianos megalómanos resolveu construir envolvendo a cascata. Portanto hoje em dia você está dentro do salão do hotel e de repente vem a cascata. E depois desaparece a cascata. Estive mais de uma vez nessa região, mas gostava de lá voltar e de ver a Villa Pliniana. Itália é uma escolha um bocado óbvia. Mas de vez em quando já tenho tido uma espécie de uns…

Desejos?

De uns desejos. Umas ânsias. Já estive em diversos sítios do Japão. Mas nunca fui a Quioto.

É o Japão antigo, não é?

É o Japão antigo. Sempre quis ir a Quioto. E fui adiando… Agora já é impossível. Mas todo o Japão é extraordinário. Tóquio é o maior museu de arquitetura contemporânea a céu aberto. Saindo de Tóquio também tem coisas muito bonitas, como Okinawa, que é um sítio lindíssimo. Aquilo é uma coisa especial. Depois têm aquele design extraordinário de interiores. A forma como pegaram na tradição e a adaptaram à modernidade é uma coisa possivelmente única. Já leu o Elogio da Sombra, do Tanizaki? Está lá tudo.

Qual foi o sítio mais extraordinário onde esteve?

Tem dias. Acho que o que mais me marcou – fui para lá um e voltei outro – foi uma viagem que fiz em 1988 à China.

Transformou-o?

Foi uma coisa diferente. Pequim era extraordinário. Até a comida era extraordinária.

Dizem que é a melhor do mundo.

E é de longe melhor do que a do Sul, porque é tudo cozinhado ao vapor. A do Sul deitam-lhe o molho em cima para disfarçar. Há quem goste muito de Xangai. Eu gosto menos porque a vi com vinte e tal anos de intervalo. Vi Xangai mesmo Xangai e depois vi uma coisa que já não era Xangai. Nem o rio era o mesmo. A outra banda já estava cheia de arranha-céus. A imagem que tenho de Pequim é de há 40 anos.

E já houve sítios onde não gostasse de ir?

Sabe, eu sou mais dado a ‘gostar de’ do que a detestar. Mas houve alguns sítios que detestei. Não gostei nada da Noruega. Não me interessou nada. Detestei a Bulgária. É uma coisa impensável. Odiei a Bielorrússia. A Bielorrússia é uma coisa inqualificável. É mentira, não é um país.

Foi a Minsk?

Minsk é uma cidadezinha, mas o aeroporto é a 80 quilómetros! Porquê? No meio de nowhere! Estive lá para aí há 25 anos, ainda estava a sair daquela coisa soviética. Mas já era o Lukashenko, que continua lá. Vinte e cinco anos depois não deve ter mudado muito. Há um outro país que eu detesto bastante, que é a Coreia.

Do Sul?

Sim, à do Norte nunca fui. Em 1993 tive de ir à Coreia do Sul para aí umas 12 vezes. Era um país totalmente rural que de repente começou a crescer, a crescer, a crescer, e portanto em certa altura 44% da população da Coreia, que não é pequena, vivia em Seoul. É uma cidade com 14 milhões de habitantes que é uma ruralidade total.

Mas hoje deve ser muito tecnológica.

Sim, mas as pessoas são rústicas. Você apercebe-se disso. Saía dos limites de Seoul e era a Idade Média. Não é por acaso que a certa altura caíam os aviões coreanos, caiam as pontes em Seoul – não era em Entre-os-Rios, era no meio da cidade –, caíam os prédios…

E há não muito tempo houve também um naufrágio de um ferry em que morreram centenas de pessoas.

Aquilo era fake. Você percebia que o país era disfuncional. Eu era vice-comissário da representação portuguesa na Expo ’93, em Seoul. Você quer acreditar que aqueles tipos estavam a fazer uma exposição internacional e nenhum dos responsáveis falava outra língua que não o coreano? As reuniões eram com intérprete. Um intérprete – eles eram para aí trinta e não havia um único que falasse um bocadinho de inglês.

Por estarmos a falar em coisas menos agradáveis… O João Pedro George dedicou-lhe recentemente uns artigos na Sábado.

Palavra de honra que não li.

Mas falaram-lhe nisso?

Falaram, com certeza.

Conhece-o?

Não o conheço pessoalmente. Nem sei se alguma vez me cruzei com ele. Se passar por ele não sei quem ele é. Sabia do que ele já tinha escrito sobre a Margarida Rebelo Pinto, sobre a Inês Pedrosa, sobre a Filipa Leal. Portanto imagino o que escreveu sobre mim. Se calhar nem imagino… É-me indiferente. Eu sei que se for ler…

Vai ficar irritado?

Exatamente. Como já sei o que é, estou-me nas tintas. E por favor não me mandem os artigos. Não quero lê-los.

Uma das coisas que diz é que você viveu a vida toda «à sombra das delícias e dos benefícios do Estado português».

Quase metade da minha vida profissional foi feita no setor privado. Aí não vivi à sombra do Estado. Tenho uma vida, tenho uma obra, tenho o meu trabalho. Quem quiser valorizar valoriza, quem não quiser não valorize.

O artigo sugeria também que você tinha sido cúmplice do regime anterior porque trabalhou na Secretaria de Estado da Informação e Turismo [SEIT].

Fui funcionário público. É verdade. Mas nunca o escondi. Está nos meus currículos todos. Comecei a trabalhar em 1970 no Palácio Foz, na SEIT.

Que era um sucessor do SNI [Secretaria de Estado da Informação, que tinha o pelouro da propaganda, da comunicação social e da cultura no Estado Novo], não era?

Era o antigo SNI. Onde eu era ‘técnico de terceira classe em regime eventual’.

O que quer isso dizer exatamente?

Quer dizer que era ‘técnico de terceira classe’, o mais básico que havia, ‘em regime eventual’, ou seja, não tinha vínculo ao Estado. Em qualquer momento podia ser dispensado. Tinha vinte anos… não podia ter desempenhado grandes funções. Ou então era um génio.

O autor referia também que os amigos o avisaram: ‘Tem cuidado. Não te metas com o Mega’. No sentido em que você detinha poder e podia prejudicá-lo. Sente que tem poder no meio cultural?

Nenhum, como imagina. Que poder posso ter se não exerço nenhuma espécie de funções? Mesmo assim podia não exercer funções e ser uma espécie de éminence grise… Ó homem, estou metido em casa a escrever e a ler, não sou éminence grise de ninguém nem nunca fui. Se tenho poder? Estou reformado, tenho o poder de ser reformado. [risos]

Aqui há poucos anos assistimos a uma polémica em torno de um hipotético Museu dos Descobrimentos, que era uma promessa de Fernando Medina mas ficou em águas de bacalhau. Acha que uma Expo 98 dedicada aos Oceanos seria hoje uma coisa pacífica?

Hoje? Era impossível. A vários títulos. Em primeiro lugar porque não existem as condições excecionais que existiam na época. Pelo menos nas próximas gerações não vejo hipótese.

Condições excecionais? Está a falar de dinheiro?

De dinheiro e de mobilização de esforços. De alguma forma, dos anos 90 do século passado para a atualidade, Portugal deixou de se ver como um país de atrasados para se ver como um país ao nível dos outros. Coisa que eu acho magnífica.

Ainda temos alguns complexos…

Sim, normalmente isso acontece quando entramos no domínio da megalomania e do delírio à italiana. Mas a Expo só pôde fazer-se com aquelas características também porque nós estávamos a procurar ser um país como os outros. Não sermos uns coitadinhos. Houve esse lado de desafio, de challenge, que acho que foi importante. Mas não creio que hoje fosse possível. Mesmo em relação ao tema da exposição…

Os oceanos, os 500 anos da viagem de Vasco da Gama à Índia… Se calhar começavam a levantar ondas…

Uma guerra terrível. Hoje em dia há uma introjeção muito grande dessas coisas. As pessoas têm medo mesmo antes de dizerem qualquer coisa.

No seu entender, faz sentido esta discussão que tem havido em torno da nossa História?

Acho que por um lado é verdade que não fizemos o luto da descolonização. Fazer o luto da descolonização era também ir atrás, para fazer o processo do colonialismo. E portanto, como não fizemos o luto pela descolonização – até assimilámos, bem ou mal, mas assimilámos, os chamados retornados, que eram desalojados –, ficámos mais ou menos contentes com esta espécie de água choca em que fomos vivendo. É praticamente inevitável que ciclicamente se discutam, se levantem certas coisas. Não acho isso muito estranho. Embora deva dizer que algumas polémicas me parecem relativamente ridículas. Nem liguei muito à discussão dos brasões. Pensei: ‘Que estupidez, por que é que estamos a perder tempo com isto?’. A Praça do Império era um elemento da Exposição do Mundo Português de 1940. Para tirarmos os brasões então temos de mandar abaixo o Padrão dos Descobrimentos, que foi feito para a exposição de 1940, e o horrível Museu de Arte Popular, que ainda por cima é o mais desgraçado exemplo de um hibridismo salazarento. Também tínhamos de deitar abaixo o Espelho de Água, que também era do Mundo Português…

Era abrir a caixa de Pandora?

Era abrir a caixa de Pandora. Então vai tudo abaixo, porque eram tudo coisas da exposição do Mundo Português de 1940. E a Praça do Império, que é a praça estruturante legada à cidade pela exposição de 40? São coisas absurdas, como dizer que o Padre António Vieira era colonialista.

Ou o Eça racista.

O Eça! Do que você agora me foi lembrar! Essa história é extraordinária. A senhora em causa critica as afirmações reacionárias de uma personagem de um romance do Eça! Provavelmente porque sabe pouco de literatura, confunde a personagem com o autor. Tem semelhanças: Ega e Eça. Mas é só no nome. Obviamente, o João da Ega é uma personagem negativa aos olhos do Eça de Queiroz.

Aliás muitos atacaram o Eça por só fazer caricaturas.

Exatamente. O Ega era uma caricatura de um certo tipo de português. Para caracterizar uma personagem que é boçalmente reacionária, é preciso pô-la a dizer aquelas coisas. Em que é que isto tem a ver com ser preciso fazer uma revisão, comentar, enquadrar, contextualizar? Isso os professores que o façam. Aliás, a literatura tem as costas largas. Dá para tudo. Agora, vir fazer um processo sobre as opiniões racistas e colonialistas do João da Ega?! O João da Ega é uma personagem de um romance de Eça de Queiroz. Não é o Eça de Queiroz. E, para caricaturar a personagem, nada melhor do que meter lá as bombardas todas. Olhe, acho que é uma certa tendência histérica nas nossas sociedades hoje em dia. Essas coisas devem ser vistas como factos de História, não devem ser vistas como argumentos de combate contemporâneo. Estar aqui a levantar a questão dos Descobrimentos como uma questão contemporânea é pura e simplesmente uma imbecilidade.

Iniciámos esta conversa a falar sobre comida e sobre música. Sente que os seus gostos ao longo da vida foram sempre evoluindo ou houve certos entusiasmos a que se manteve fiel? Disse-me que começou a apreciar música por causa das idas à ópera, mas hoje ouve mais música de câmara.

Claro que há certos entusiasmos aos quais me mantive fiel, mas evoluí muitíssimo. Os meus gostos foram evoluindo ao longo da vida: desde os gostos na comida até aos gostos pelos objetos, pela pintura, etc., etc. Gostos a que sou fiel? Sou fiel ao Benfica.

O homem troca de camisa, troca de carro, troca de casa, pode até trocar de mulher, mas não troca de clube. [risos]

De clube acharia muito estranho. Depois evidentemente sou fiel à leitura. Desde muito pequenino comecei a acumular livros. De resto… não sou fiel à religião, não tenho partido – inscrito… Mas acho que há determinadas características do meu temperamento que se mantiveram sempre.

Há quem diga que somos como bonecas russas: podemos pôr camadas por cima, mas nunca perdemos o que éramos.

Provavelmente é isso. Tenho mais camadas hoje sobre um núcleo que é muito fácil definir. Há pessoas solares e há pessoas noturnas. Eu sou uma pessoa solar, sempre fui, desde pequenino. Nas fotografias que tenho com três e quatro anos de idade já se vê isso: eu sou solar, vejo o lado diurno da vida. Também consigo perceber o noturno, mas sou solar, sou positivo.

Não tem um lado mais melancólico?

Acho que todas as pessoas inteligentes têm um traço de melancolia lá no fundo. Em certas alturas da minha vida esse traço melancólico veio mais ao de cima. Acho isso natural. Consigo identificar certos traços de personalidade: a ideia de não desistir nunca, tentar levar as coisas até ao fim. Acho que isso tem a ver com essa minha maneira de ser – o tal core –, que é essencialmente positiva. Por exemplo, adoro partilhar as coisas de que gosto. Seja um livro, seja um restaurante bom. Já me tenho tramado com isso, sou um ‘boca rota’, às vezes ponho-me a falar e quando chego aos restaurantes estão lá os meus amigos todos a dizer-me adeus e já não tenho lugar [risos]. De facto dá-me imenso prazer partilhar, entusiasmar as pessoas em relação a coisas que me entusiasmam. Digamos que isso é o núcleo duro da minha maneira de ser e de viver. E olhe, cheguei a esta idade, acho que já não vou mudar…

Nunca se sabe!

Pois não. Mas eu gostaria de não mudar.