Pátio das Cantigas

A gramática ‘inclusiva’…

Há poucos meses, o ministro da Defesa quis dar um ‘ar da sua graça’ e fez ‘vista grossa’ a uma diretiva, distribuída pelas estruturas militares, sobre ‘a utilização de linguagem não discriminatória’, elaborada no âmbito de um Plano para a Igualdade.

Apesar da crise pandémica e da crise económica e social que lhe está subjacente, a disponibilidade das esquerdas para macaquear certas agendas político-ideológicas não para de crescer. 

Sensível ao ‘l’air du temps’ o ministério da Educação, por exemplo, há muito que promove nas escolas públicas a disciplina de Cidadania, para doutrinar os alunos sobre questões de género ou teses igualitárias e de ‘interculturalidade’ – penalizando quem não se conforma com a sua frequência obrigatória -, enquanto noutras pastas governamentais, desejosas de não perder o comboio da novilíngua, são lançadas orientações para formatar o pensamento e as práticas que se querem ‘inclusivas’.

Há poucos meses, o ministro da Defesa quis dar um ‘ar da sua graça’ e fez ‘vista grossa’ a uma diretiva, distribuída pelas estruturas militares, sobre ‘a utilização de linguagem não discriminatória’, elaborada no âmbito de um Plano para a Igualdade.

O objetivo, do documento, e vale a pena citá-lo, era o de «salientar a importância para a utilização de linguagem sensível ao género (…), e contribuir para a eliminação dos estereótipos existentes».

O novo ‘catecismo’ recomendava até, com minúcia, que se abolissem expressões comuns no jargão da tropa, como ‘deixa-te de mariquices’ ou ‘pareces uma menina, porta-te como um homem’. 

Para embaraço de João Gomes Cravinho, a diretiva provocou um tal ‘sururu’ e mal-estar entre os militares que o ministro se viu forçado a anular, por despacho, a sua circulação.

Recolheu ‘a quartéis’, mas ficou a pegada. E como se tem visto noutros casos, as esquerdas nunca desarmam, nem abdicam de impor aquilo que são as suas bandeiras. 

Depois da tropa, foi a vez do CES (um órgão supostamente vocacionado para a consulta e concertação no domínio das políticas económica e social), descobrir os encantos de um manual de linguagem ‘inclusiva’, para servir de farol à sua profícua atividade. 

O texto, coordenado por uma socióloga especializada em questões de ‘igualdade de género’, vice-presidente do CES, é um mimo e, segundo os jornais, foram necessárias 16 laboriosas páginas para descrever os procedimentos exigidos pela linguagem ‘neutra e inclusiva’.

Alguns exemplos: os desempregados passam a ter o estatuto de ‘população desempregada’; os pensionistas de ‘a população pensionista’; os migrantes mudam para ‘a população migrante’ ou os contribuintes para ‘a população contribuinte’, contornando a primazia ao género masculino. Mesmo os gestores não escapam ao crivo e terão de ser referenciados como ‘a população em cargos de gestão’.

Num país normal, o simples enunciado destas regras bastaria para ridicularizar o manual, cujo piedoso destino deveria acabar na ‘cesta secção’. Mas, de acordo com a ‘nova normalidade’, o que é cómico é ser um projeto concebido para uniformizar a linguagem dos documentos oficiais produzidos no CES, extensivo às reuniões e e-mails enviados pelos membros do Conselho.

Com descaridade, o documento ainda chegou à mesa do plenário do Conselho, embora tenha sido retirado depois de alguns membros, mais sensíveis à caricatura, o terem criticado. 

Para espanto de quem julgava Francisco Assis um homem prevenido, este apressou-se a sair em defesa do manual, com o luminoso argumento de que «não estamos em estado de paralisia, nem impedidos de pensar», garantindo estar «convencido que a proposta iria passar (…)».

Vão longe os tempos em que Assis se bateu contra a ‘geringonça’, considerando-a «um expediente político para superar uma derrota eleitoral», apostado em ser alternativa a António Costa na liderança do PS. A presidência do CES está a fazer-lhe mal. 

Se vingar no Conselho um módico de bom senso, o manual acabará rejeitado e esquecido, tal como aconteceu nas Forças Armadas. Mas o disparate espreita.

Recorde-se que, em França, este desvario chegou mais cedo, forçando o Governo de Emanuel Macron, em novembro de 2017, a proibir o uso de ‘gramática igualitária’ em documentos oficiais, após semanas de intensos debates, por «motivos de inteligibilidade e clareza das normas».

Em circular então distribuída pelos ministérios, o primeiro-ministro Édouard Philippe, concordava, assim, com as recomendações da própria Academia Francesa, que reconheceu ser o método «um perigo mortal» para a língua. 
Com essa decisão, Macron pôs fim à bizarria de um ‘guia de comunicação igualitária’, aprovado em 2015, pelo Governo socialista de François Hollande, que defendia o uso das formas ‘inclusivas’ nos textos oficiais. 

Vê-se onde o PS foi buscar a inspiração tardia, enquanto a nossa Academia, ao contrário da sua congénere francesa, parece conviver bem com estes dislates. 

A língua portuguesa, que tem sofrido tratos de polé, não merece ser vítima de outra tolice, protagonizada por fundamentalistas iluminados.