Cultura

Alvalade: Murais dão nova vida ao bairro

São cada vez mais os homenageados em Alvalade. Carlos do Carmo foi o último a ser distinguido, mas
ao fadista juntam-se outros nomes, como Gonçalo Ribeiro Telles e João Ribas. A Junta de Freguesia diz que estão previstas, pelo menos, mais duas intervenções para dar uma nova vida ao bairro.

Bruno Gonçalves
Bruno Gonçalves
Bruno Gonçalves
Bruno Gonçalves

Foi a vez de Carlos do Carmo ser homenageado  no bairro de Alvalade. O fadista que morreu a 1 de janeiro passou a ter direito a um mural no início deste mês. «Lisboa Menina e Moça» – agora, a canção da cidade de Lisboa – foi o mote do artista Mário Belém para a fachada da Biblioteca Manoel Chaves Caminha. «Mário Belém quis fugir ao óbvio nesta obra, deixando de lado a ‘varina’, substituindo-a por uma menina e moça sentada numa pilha de livros. Este elemento de street art completa assim a fachada deste equipamento cultural que está agora coberto de símbolos da cidade, entre os quais se destacam pormenores como um vinil de Carlos do Carmo, um manjerico, elétricos, um corvo, um Santo António e outras referências a monumentos como a Torre de Belém. «A obra demorou seis dias a ser executada», diz a Junta de Freguesia de Alvalade à Luz.

A este, no bairro, juntam-se outros murais, como o do arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, todos com um denominador comum: viveram ou tiveram alguma ligação ao bairro.

No caso de Ribeiro Telles, cujo mural com 40 metros de comprimento – inaugurado em 2020 sob a assinatura de Styler –, tem uma explicação: «Alvalade tem a marca do arquiteto no projeto dos logradouros do Bairro das Estacas, onde os jardins ganham um papel principal no seu  espaço, nos jardins da Av. D. Rodrigo da Cunha, com espaços que se ligam entre si, dando um contínuo que permite a apropriação ecológica em todos os espaços para as pessoas, e no Parque José Gomes Ferreira – mais conhecido como Mata de Alvalade».

Mas não se fica por aqui. João Ribas (músico português que precedeu bandas como Censurados e Tara Perdida, de João Morais), Nuno Teotónio Pereira (inaugurado em setembro de 2017, altura em que o arquiteto comemoraria 95 anos) e José Cardoso Pires (numa homenagem a um dos nomes maiores da literatura portuguesa contemporârea, residente do bairro de Alvalade desde o início dos anos 50) são alguns dos vários exemplos consagrados na arte urbana de Alvalade.

Porquê esta homenagem? A Junta de Freguesia explica à Luz que «os moradores homenageados nos murais estavam todos eles diretamente associados aos espaços onde cada uma das obras surgiu, o que permite de alguma forma ligar a memória dessas pessoas, e a sua obra, ao espaço urbano, recorrendo a esta forma de arte. Ao marcar-se o território com intervenções de arte urbana há uma ligação emocional que automaticamente se cria, levando-nos à essência do espaço urbano dos nossos dias», explica a Junta, acrescentando que «a arte em ambiente urbano melhora também a perceção do sentimento de segurança, contribuindo para o aumento da utilização do espaço público. A arte urbana constrói o bairro e a cidade e assinala no nosso quotidiano, com a memória dos nossos maiores, ideias que nos fazem pensar ou cria simplesmente apontamentos de beleza no bairro».

 

Rotas de arte

«Criar a rota de arte urbana de Alvalade» é um dos objetivos da Junta de Freguesia, que lembra que «os murais foram surgindo no território» e, face a este cenário, surgiu a necessidade de  comunicar ‘a novidade’ como um todo, criando a rota de arte urbana de Alvalade. «O que sentimos é que as pessoas já procuram as obras na rua e fazem os percursos de forma pedonal para os visitar, algo que neste período de pandemia tem sido mais um pretexto para os passeios higiénicos dos alvaladenses confinados. Em breve, a rota de arte urbana estará também sinalizada no território, com placas identificativas em cada um dos murais, remetendo através de ‘QR Codes’ para a informação de cada uma das obras e para o roteiro geral, permitindo assim uma interação intuitiva entre as pessoas e o bairro».

E acrescenta: «A rota de arte urbana tem vindo a proporcionar ao setor comercial da freguesia novos públicos, que em tempos de pandemia usufruem cada vez mais dos espaços ao ar livre e das atividades que lhes são proporcionados neste meio», admitindo que o impacto e o balanço destas obras é positivo, uma vez que «tem permitido alcançar uma faixa etária cada vez mais implementada num território que se assume em rejuvenescimento constante».

A ideia é não repetir artistas, diversificar a oferta e criar manchas artísticas que permitam suscitar o interesse das pessoas pela obra e pelo espaço em que se inserem. «Neste momento, temos apenas duas obras do mesmo artista», refere a mesma.

Para já, estão previstas pelo menos mais duas intervenções de arte urbana. «Uma delas novamente no âmbito do evento Alvalade Capital da Leitura, que celebra anualmente a arte da escrita e que este ano se realiza entre os dias 31 de maio e 5 de junho. O Bairro de Alvalade é reconhecido como albergue de escritores e artistas de todos os tempos, algo que obviamente deve inspirar e ficar claro para quem visita e passeia por Alvalade. Estamos a trabalhar para que se possa eventualmente implementar uma terceira obra ainda este ano». conclui.