Opiniao

Lobby chinês na saída de MNE brasileiro?

Ernesto Araújo é visto como um partidário da política brasileira de cautela securitária em relação À China, posição de que a Esquerda e o Centro acusam o presidente Bolsonaro que aqui seguiria a política de Donald Trump.

por A.P.N

No dia 28 de Março, Ernesto de Araújo, ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, postou na sua conta do Twitter:

“Em 4/3 recebi a Senadora Kátia Abreu para almoçar no MRE [Ministério das Relações exteriores]. Conversa cortês. Pouco ou nada se falou da vacina. No final, à mesa, disse: ‘Ministro, se o Senhor fizer um gesto em relação ao 5G, será o rei do Senado’. Não fiz gesto algum.”

No dia seguinte, o ministro, considerado “o mais ideológico” e mais conservador Ministro do Gabinete, era demitido ou forçado à demissão. A explicação geral que vinha a lume tinha a ver com as pressões do Congresso sobre o Governo Bolsonaro, ameaçando com bloqueio de diplomas ou com o avanço do Impeachement presidencial.

A tecnologia do 5G tem a ver com uma nova rede para a Internet, tornando os serviços de comunicação muito mais rápidos. Existem várias empresas no mercado habilitadas para prestar estes serviços. Entre elas, as três principais são a finlandesa NOKIA, s sueca Erickson e a chinesa Huawei.

Por razões políticas de segurança, alguns governos, como os Estados Unidos, o Reino Unido, a Austrália, a Nova Zelândia, a França, a Itália e o Japão, proibiram liminarmente a adesão ao 5G nos  seus países, usando empresas chinesas. No Brasil, a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL) vai fazer o leilão entre várias empresas concorrentes.

Kátia Abreu é presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado; foi ministra da Agricultura de Dilma Roussef e representa o Estado de Góias e do importante lobby dos agricultores, tendo mudado várias vezes o seu apoio político: foi contra Lula e Dilma em 2010, e aliou-se com Dilma em 2014. Defendendo as suas posições, em declarações de resposta a Ernesto Araújo, a Senadora diz que insistiu com ele para que na licitação da rede 5G “não houvesse vetos nem restrições políticas” e que houvesse cuidado com os prejuízos que um veto à China na questão do 5G poderia trazer ás exportações agrícolas do Brasil para a China.

Ernesto Araújo é visto como um partidário da política brasileira de cautela securitária em relação À China, posição de que a Esquerda e o Centro acusam o presidente Bolsonaro que aqui seguiria a política de Donald Trump.

Outros senadores solidarizaram-se com Kátia Abreu e pressionaram Bolsonaro e o Executivo com a ameaça de retaliações, caso Araújo continuasse no Ministério.

 A negociação das vacinas chinesas tem estado em questão.

O Brasil tem sido duramente atingido pela Covid-19, e os media locais têm, à semelhança do que fizeram com Trump nos Estados Unidos, apresentado relatos da epidemia culpando o Governo e apresentando o Brasil numa situação que não leva em conta a sua população.

Um factor real da dependência em relação à China é que, de facto, em 2020, também por causa da Pandemia, a China passou de um quarto para um terço (32,3%) de cliente das exportações brasileiras, sobretudo de produtos agrícolas e alimentares, tendo crescido, no ano em que todos os países grandes desceram.

Esta dependência comercial do Brasil põe em causa a tentativa de independência do Governo Bolsonaro na defesa securitária, alinhando com os seus aliados ocidentais, nomeadamente americanos, que, com Biden, mantêm a desconfiança e reserva quanto à China em matéria de segurança nacional.

Fazendo humor em relação a esta dependência, nos círculos do Itamarati hostis a Bolsonaro faz-se a comparação em tom de chacota: “É como se o dono de uma loja cheia de dívidas resolvesse, sem motivo aparente, ofender o seu principal freguês. Iria à falência em pouco tempo.”

A demissão de Araújo talvez evite a falência. Mas a loja, cada vez fica mais nas mãos do freguês. E de um freguês.