Sociedade

Mitomania. Falar verdade a mentir

No dia 1 de abril, mentir é o verbo dominante, mas há quem o faça em qualquer data. A tendência incontrolável para mentir define, assim, os mitómanos, pessoas que mentem a si e aos outros de forma compulsiva. O professor catedrático Carlos Fernandes da Silva explica que, neste transtorno, a genética tem o seu peso.

Tudo começou em 1564, em França, quando o Ano Novo era celebrado a 25 de março, data em que também se iniciava a primavera e, assim, até ao dia 1 de abril, os cidadãos trocavam presentes e viviam em clima de animação. Nesse mesmo ano, o Rei Carlos IX decidiu que o início do ano seria comemorado a 1 de janeiro, mudança que gerou controvérsia no país.

Enquanto algumas pessoas se mantiveram firmes à tradição e foram alvo de sátira pela restante sociedade, outras concordaram com esta modificação, mas aproveitaram para criar brincadeiras que envolviam mentiras e, deste modo, geraram confusão na mente daqueles que questionavam a veracidade do veredicto do monarca.

A verdade é que, volvidos cinco séculos, apesar do Dia das Mentiras ser habitualmente marcado por travessuras inocentes, há quem minta sistematicamente e padeça de mitomania . Este «é um termo amiúde usado para designar uma tendência incoercível para mentir, considerando que mentir não é o contrário de verdade», começa por explicar Carlos Fernandes da Silva, professor catedrático de Psicologia e diretor do Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro.

«É verdade no fundo; acredite: agora os detalhes... os pormenores... eu não sei como isto é... não é com má intenção... mas a maior parte das vezes, as coisas contadas tais quais como elas são... ficam duma sensaboria tal...», já desabafava Duarte Guedes, personagem da peça Falar Verdade a Mentir, de Almeida Garrett, escrita em 1845, tentando manter o noivado de pé.

«O contrário de verdade é falsidade – são valores lógicos (verdadeiro e falso)», avança o também perito forense e membro da Comissão de Proteção e Jovens em Risco de Mira, acrescentando que «’mentir’ é um ato com intenção de enganar – outros e a si próprio, podendo usar declarações falsas e/ou verdadeiras  - ‘com a verdade me enganas’», sendo que «é comum os criminosos misturarem nos depoimentos verdades com mentiras, garantindo a eficácia da mentira (declarações próximas da verdade) e os necessários alibis».

Neste caso, falamos dos mitómanos, cujos «sinais – diferentes de sintoma, dado que os sinais são diretamente observáveis – visualizáveis, audíveis, viodeograváveis, etc – são basicamente a tendência incoercível para mentir verbalmente e/ou por comportamentos miméticos como simular uma doença», alerta o docente.

Será que existem fatores genéticos, sociais, psicológicos ou até educacionais que podem contribuir para o desenvolvimento da mitomania? O licenciado em Psicologia e doutorado em Psicologia Clínica pela Universidade de Coimbra, bem como pós-graduado em Neurociências pela Universidade de Oxford, explicita que «é difícil negar o contributo dos genes, mas a educação, a cultura e as experiências pessoais e suas consequências – mecanismos operantes – desempenham um papel crucial».

«Se, por exemplo, o sujeito experimentar mentir e com esse ato começar a livrar-se de consequências desagradáveis e até poder ter ganhos, passará a mentir cada vez mais – reforço operante» e «esta aprendizagem, sobretudo se envolver reforço negativo  – ter como consequência livrar-se ou evitar consequências desagradáveis –, determinará uma tendência de natureza incoercível», clarifica o autor das obras Teorias da Aprendizagem (2007) e Intervenção Psicológica em Perturbações de Personalidade (2017).

Ainda que esta patologia seja comparada com a esquizofrenia ou até as psicoses, o professor universitário esclarece que «não são comparáveis», na medida em que «os doentes psicóticos não mentem propriamente», isto é, «terão delírios - crenças erróneas não rebatíveis pelo confronto com os factos e pela argumentação lógica – e alucinações – perceberem algo que não estará presente».

Naquilo que diz respeito à prática clínica, Fernandes da Silva clarifica que as amostras às quais tem acesso «não são representativas», reconhecendo que contar mentiras é um ato mais frequente em crianças com idades compreendidas entre os quatro e os seis anos, até porque «os estudos sugerem fortemente que nestas idades é quando os humanos mais mentem», mas este comportamento verifica-se igualmente de forma mais notória «em pessoas com processos judiciais em curso».

Acerca de uma eventual distinção entre os mitómanos dos géneros feminino e masculino, Fernandes da Silva aponta que «as diferenças entre sexos são sobretudo de metodologia do mentir», evocando o professor José Pio de Abreu, «que num dos livros que publicou, escreveu que ‘as mulheres nunca mentem, mudam amiúde de opinião’», tendo recorrido, assim, «à ironia para mostrar que a metodologia varia».

Para identificar um mitómano, «só interagindo e procurando provas», porque «basearem-se no olhar, nas expressões, gestos e posturas é uma impostura intelectual, sem fundamento científico», sendo que «à falta de provas, colocar questões em diferentes contextos, do fim para o princípio de uma história mitómana, e não assumir um ar inquisitório» pode ser uma boa postura a adotar.