Opinião

De novo, os mais velhos discriminados

Verificamos que há pessoas de 90 e mais anos por vacinar e outras bem mais novas vacinadas. Porquê? Ninguém sabe. É o ‘mistério da aleatoriedade’!

por António Bagão Félix

A forma clássica de subverter uma regra é enxameá-la com excepções. Na fase 1 da vacinação contra a covid-19, as excepções não faltam. Excepções à la carte, por ‘engano’, por casuísmos, por repescagem, por pressão (ou medo) de grupos.

Revela um recente estudo nacional que «a idade é o factor que mais peso tem na mortalidade por covid-19». Os dados actuais mostram que as pessoas com 70 ou mais anos que morreram com covid-19 são 88% do total de óbitos.

Começou, no passado fim-de-semana e em força, a vacinação determinada pela DGS «no âmbito da resiliência do Estado (sic!), dos docentes e não-docentes dos estabelecimentos de ensino e educação (…), de acordo com o plano logístico que será implementado (sic!)». Citando dados oficiais do Ministério da Educação, a idade média dos docentes varia, conforme os níveis de ensino, entre 46 e 49 anos. E, de acordo com os dados oficiais da DGS reportados à véspera do início desta acção (26 de Março), no grupo etário da população entre 40 e 49 anos, os óbitos registados correspondem a 0,1% dos infectados (156 mortes para 136 302 doentes), enquanto nas pessoas com mais de 80 anos, o valor é de 16,3% (11 089 óbitos para 68 009 doentes) e nas pessoas entre 70 e 79 anos, é de 6,6% (3568 óbitos para 54 405 doentes).

Como era de esperar, as televisões, no seu frenesim pavloviano, mostraram-nos mais não sei quantos braços e agulhas, desta vez de professores e outros profissionais escolares (eu já acho que conheço umas boas centenas, tantas vezes são repetidas ad nauseam tais cenas!).

Embora o risco para este vasto grupo seja semelhante ao da população em geral, não questiono a necessidade da sua vacinação à frente de outros grupos, ainda que me custe a perceber qual a intensidade do risco se comparada, por exemplo, com pessoas que exercem a função de caixa nos supermercados ou com o pessoal das farmácias.

Mas, o que de todo não compreendo é subverter a ordem prevista, à frente de muitas pessoas de idade ou com doenças associadas, nomeadamente com mais de 80 anos (e não são poucas), que ainda esperam a sua chamada.

Há menos vacinas disponíveis por um contrato ‘angélico’ que a douta Comissão Europeia firmou com os tudo menos angélicos laboratórios? Sim, é verdade. Então, se há menos vacinas disponíveis, fará algum sentido aumentarem-se os grupos a recebê-las na fase 1? Eis, assim, em poucas palavras, este paradoxo vacinal em marcha.

Até agora dizia-se que havia falta de técnicos para vacinar e algumas insuficiências logísticas. Com o pessoal das escolas, tudo se modificou e fala-se de ‘vacinação em massa’. Muito bem, é de aplaudir este repentino ‘milagre’. Mas pergunto: por que não antes, quando se tratava apenas das pessoas mais velhas?

Enquanto os governantes e as autoridades públicas continuam a descobrir momentos para estarem presentes na ‘festarola’ da vacinação (a primeira vacina aqui, a primeira vacina acolá, a vacina número x, a vacina um milhão, a vacina deste grupo ou daquele, etc.), com a companhia de câmaras de canais docilmente submetidos ao poder socialista e sempre ávidos para filmar ‘picas’ e dar palco político ao ‘acontecimento’, esta perversão feita de atrasos, dificuldades e ultrapassagens é de uma grande afronta para com a população mais velha e necessitada. Um despudor, só possível porque os velhos não são força de pressão, não têm sindicatos temíveis, não são um alvo eleitoral (inacreditável como todos os partidos não reagem, certamente olhando utilitariamente para a força do voto dos professores e outros grupos …) e a sua morte é encarada, no plano geral, apenas como mais uma estatística anestesiante, acolitada pelo discurso da hipocrisia e pela indiferença da desmemória.

Acresce a falta de transparência nos critérios (?) usados para a toma da vacina. Melhor seria, usar um único e objectivo critério: o da idade. O que verificamos é que há pessoas de 90 e mais anos por vacinar e outras bem mais novas vacinadas. Porquê? Ninguém sabe. É o ‘mistério da aleatoriedade’!

Enquanto as televisões (e não só) nos dão doses inimagináveis de noticiários sobre a pandemia e nos oferecem comentários e opiniões do momento e de toda a espécie, todas estas situações diferenciadoras são