Economia

Prémios do turismo perdem brilho após polémica

Depois da acusação de Elidérico Viegas sobre o facto de os prémios serem comprados, o que levou à sua demissão da AHETA, foram conhecidos novos nomeados para a nova edição.

por Daniela Soares Ferreira e Sónia Peres Pinto

Madeira, TAP, Aeroporto de Lisboa, Passadiços do Paiva, Lisbon Cruise, Fragas de São Simão, Turismo de Portugal, Monte Santo Resort, Centro de Congressos do Algarve, Portugal Deluxe, Dark Sky Alqueva são alguns dos nomeados da nova edição dos World Travel Awards e que foram conhecidos na semana em estalou a polémica em torno dos prémios comprados. Mas a lista não fica por aqui. Portugal integra os nomeados a vários galardões, como Destino de Turismo de Aventura, Líder da Europa ou Principal Destino da Europa. Já o Algarve aparece na categoria Principal Turismo de Praia da Europa. Como Destino de Férias a lista conta com Lisboa e Porto e Lisboa volta a estar na categoria de Destino de Cidade Líder da Europa.

Nomeações essas que perderam o brilho, depois das declarações de Elidérico Viegas. «Em relação a esses prémios só nós é que os conhecemos, o resto do mundo não sabe. São eleições feitas por entidades privadas que se regem por princípios económicos, de rentabilidade económica e, como tal, pagamos e ficamos no lugar que queremos. Estes prémios que andamos a apregoar com frequência são prémios atribuídos por estruturas ou organizações privadas que têm como fim o lucro e que vendem lugares em função dos preços que se pagam», a frase foi dita por Elidérico Viegas em entrevista ao i. A afirmação do agora ex-presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos Do Algarve caiu que nem uma bomba junto dos mais variados responsáveis do setor, que recusam a veracidade da afirmação.

No dia seguinte, Elidérico Viegas anunciou a sua demissão, algo que veio a consumar dois dias depois. O responsável explicou que a sua decisão «fundamenta-se na falta de solidariedade institucional dos restantes membros da direção, face à discordância de declarações» prestadas ao i, «por serem verdade e do conhecimento público».

E a verdade é que são mesmo do conhecimento do público. Quem o garante são vários responsáveis e empresários do setor que, por medo de represálias como as que sofreu Elidérico Viegas, preferiram não dar a cara. Ainda assim, contam toda a verdade na primeira pessoa.

«Quer ganhar a nomeação de melhor destino? Pague 500 libras e vai ver que aparece no site da organização como nomeado. Quer ganhar o prémio? Então tem de negociar com eles o valor. É simples e é assim que funciona. Depois pode ter uma moldura na câmara, no seu hotel, restaurante, praia ou campo de golfe, entre muitas outras categorias», disse um destacado empresário. Exemplos não faltam: «Como é possível um hotel no Algarve ter sido o melhor da Europa durante seis anos?», diz, acrescentando que só «quem não conhece o velho continente é que pode achar isso».

No entender de outro empresário, estas nomeações representam «não só uma vergonha, como também são muito prejudiciais porque criam complacência. Mostra que Portugal é dos países que tem mais prémios em vez de fazer campanhas promocionais como deve fazer». E aponta o dedo aos empresários do setor. «Preferem embandeirar em arco estes prémios, em vez de quererem confrontar o lado oficial que apoia esses prémios».

Quem não ganhou ou ficou perto disso na edição do ano anterior paga 399 libras no caso dos prémios nacionais, ‘selos de qualidade’ que também são atribuídos pelos WTA e 499 libras (583 euros) no caso desta competição europeia. Esta inscrição dá direito a banners para os sites e botões para promover e facilitar a votação, um ‘Digital Nominee Pack’ que a empresa refere no seu website ter um valor de 299 libras.

Já por 400 libras (467 euros) os vencedores podem adquirir o ‘Digital Winner Pack’, que inclui o certificado de vitória que pode ser «impresso, emoldurado e exposto» e por 650 libras (760 euros) o troféu de 2,4 quilos com um globo, a imagem marca dos prémios, para exibir em «recepções de hotéis, escritórios e expositores de troféus».

Quanto aos vencedores, são oferecidos preços especiais na compra de anúncios na revista Best in Travel e até artigos para «celebrar a conquista com figuras centrais da indústria e influencers de todo o globo». Já mil libras custa um artigo especial no site breakingtravelnews.com.

E a entrega? No ano passado, por causa da pandemia, a 27.ª edição foi em formato virtual. Mas, apesar dos custos da participação terem sido menores do que nas edições anteriores presenciais, nem online a participação foi gratuita. Por 750 libras (mais 822 euros), o pacote bronze permitia aos vencedores ter uma apresentação virtual no encontro. Já o pacote de prata, por 1250 libras (perto de 1.500 euros), incluía anda o troféu com inscrição e um anúncio de uma página. Por 1.750 euros (cerca de dois mil euros), o pacote dourado inclui uma entrevista da vitória, além dos restantes itens. Por 3000 libras (mais de 3.500 euros), o pacote de platina, com uma placa perfeita «para colocar no exterior de instalações, lobbies, receções e salas de encontros – na realidade em qualquer sítio em que queira que o público veja que foi votado como o melhor dos melhores«, lê-se no site dos prémios WTA.

Em 2019, a gala europeia teve lugar num hotel da Madeira. O bilhete para um participante mais convidados começava nos mil euros. Uma mesa de dez pessoas, o pacote mais avançado, custava 5 mil euros, incluindo ainda o troféu, a placa e restantes itens. Segundo o site, esgotaram todos.