Personagem

Landru, O Barba Azul. O elegante cavalheiro que gostava do cheiro a sangue

Figura da alta sociedade francesa do início do século passado, Henri Désiré Landru dedicava as suas horas de ócio a assassinar velhacamente as madames que seduzia. Foi condenado por 11 homicídios, a despeito de ter defendido galhardamente a sua inocência. Calcula-se que terá feito um número bem maior de vítimas.

No dia 25 de fevereiro de 1922, a lâmina da guilhotina de Versalhes separou com um gesto rápido e simples a cabeça de monsieur Henri Désiré Landru do resto do seu corpo. Aos 53 anos, o cavalheiro que se imiscuíra na alta sociedade de Paris e merecia a consideração de grandes figuras da cidade, fora exposto como um assassino cruel e sem escrúpulos que tinha o vício de estrangular mulheres. Nascido na capital francesa, resolveu alistar-se no exército após concluídos os estudos. Terminada a sua obrigação pátria, tratou de se lançar numa relação íntima com uma prima.

Embora nunca se tenham casado, foram pais de uma menina, tratando o figurão de se lançar, logo em seguida, para os braços de outra prima da qual veio a ter quatro filhos. Vistoso, gostava de se passear pelos boulevards bem engomado, exibindo uma distinção que se ficava pela qualidade da farpela. Landru era um criminoso por natureza. E pouco importa a simpatia que despertava entre as senhoras das suas relações. Normalmente deixavam-se ir na lábia do traste e rapidamente percebiam que isso lhes custava muito, muito dinheiro. De tal ordem que Henri Désiré atravessou a passagem do século atrás das grades, quando em 1900 foi acusado e considerado culpado de várias fraudes financeiras envolvendo o dinheiro que obtida das suas relações amorosas, sobretudo com mulheres bem mais velhas e ricas do que ele.

Em 1914, no início da II Grande Guerra, vamos encontrá-lo bastante depauperado. A cadeia deitara-o abaixo e fizera mossa na sua tão resistente autoestima. Além disso, estava debaixo do olho das autoridades e tinha um medo tremendo de ser mandado para a frente de combate. Refugiou-se num quase anonimato de vendedor de mobílias em segunda mão. Mas o seu feitio crapuloso não tardaria a trazê-lo à superfície mais cedo do que se esperava.
Farto da solidão em que caíra depois do encarceramento, Landru começou e enviar notas para as páginas de encontros dos jornais parisienses: «Viúvo, 43 anos, com dois filhos e rendimento razoável, frequentador da boa sociedade, procura viúva para assunto sério e possibilidade de futuro matrimónio», e outras balelas do género. O caçador cheirava o sangue das suas vítimas. E o cheiro a sangue dava-lhe um prazer mórbido.
O clube dos corações solitários

A primeira madama a deixar-se embalar pela conversa de Henri Désiré foi Jeanne Cuchet, uma moça de figura fina e que enviuvara em 1909. Conheceu Landru no esplendor dos seus 39 anos e encontraram-se numa vila que o meliante tinha arranjado em Chantilly, a cerca de 50 km de Paris. Adotara o nome de Raymond Diard e abriu-lhe às escâncaras a esperança de fazer dela sua esposa e perfilhar o seu filho de 14 anos. No início de agosto de 1914, a França declarou guerra à Alemanha, e Landru pura e simplesmente desapareceu. Em desespero, Jeanne pediu ao ex-cunhado que a acompanhasse a Chantilly na ânsia de encontrar o amante, mas deparou chocantemente com um sem fim de papéis deixados para trás, desde identificações falsas a uma ordem lavrada pela justiça francesa condenando Henri Désiré Landru à deportação para a Nova Caledónia, assente numa série de crimes de extorsão e roubo. Pelo caminho, Raimond Diard dera lugar a monsieur Cuchet e convencera Jeanne a escapulir-se com ele para uma pequena casa em Vernouillet, uma aldeola na margem do Sena. Madame Cuchet deixara-se enredar por completo na complexa teia da dominação psicológica em que Henri era mestre...

Um dos vários processos levantados contra Landru apontam para que ele tenha assassinado cinco mulheres entre 1915 e 1919. No ano de 1915, Jeanne escrevera a uma amiga, convidando-a a passar alguns dias em Vernouillet. André, o filho, fora recrutado e queria fazer-lhe uma despedida calorosa. O mesmo André que também enviou, na altura, uma carta ao tio, orgulhando-se de ser chamado a combater pela França. A partir daí, um silêncio total: nunca mais se soube o que quer que seja sobre Jeanne e o filho. No entretanto, já Landru se correspondia com outra senhora esperançosa, nascida na Argentina, viúva, desempregada e com um filho de 13 anos: Thérèse Laborde-Line. O animal não perdia tempo. E a Grande Guerra produzia viúvas a um ritmo industrial.

A lista oficial das suas vítimas ao tempo dispunha-se num rol macabro: Madame Cuchet (desaparecida em janeiro de 1915): André, filho de Madame Cuchet (desaparecido em janeiro de 1915); Madame Laborde-Line (desaparecida a 26 de junho de 1915); Madame Guillin (desaparecida a 2 de agosto de 1915); Madame Heon (desaparecida a 8 de dezembro de 1915); Madame Collomb (desaparecida a 25 de dezembro de 1915); Andree Babelay (desaparecida a 12 de abril de 1916); Madame Buisson (desaparecida a 19 de agosto de 1916); Madame Jaume (desaparecida a 25 de novembro de 1917); Madame Pascal (desaparecida a 5 de abril de 1918); Madame Marchadier (desaparecida a 15 de janeiro de 1919). Landru tornara-se insaciável.

Católico mas pouco

Henri Désiré Landru nasceu em Paris, filho de um forneiro e de uma lavadeira que se consideravam ardentemente católicos. Por isso enfiaram o filho no colégio para padres da ilha de St-Louis onde se tornou acólito e, pouco depois, vice-deão, uma daquelas atividades milenares que consiste em ajudar a acender e apagar velas e cuidar dos paramentos dos padres. Ninguém seria capaz de adivinhar que o rapazito ensimesmado viria a tornar-se num dos assassinos mais célebres da História. Em 1887 apaixonou-se por uma moçoila chamada Marie-Catherine e, apesar de todos os ensinamentos católicos-apostólicos-romanos a que fora sujeito, não tardou a dar ao mundo filhos ilegítimos em barda, começando por Marie, passando por Maurice e terminando em Suzanne e Charles. A vida para cá dos muros do colégio e o crescimento desmesurado da família, levaram-no a saltitar de um trabalho para outro: jornalista, assistente de advogado, canalizador e, finalmente, vendedor de mobília em segunda mão. Obcecado com a ideia de vir a ser um grande inventor, construiu uma motocicleta que batizou The Landru e conseguiu, aqui e ali, junto de conhecimentos abastados, uma verba bastante interessante para abrir uma fábrica e começar a produzir o veículo.

Com dinheiro gordo no bolso, sumiu-se com a facilidade com que a nuvem passageira se deixa ir com uma rabanada de vento.

Em 1904 foi apanhado com a boca na botija a roubar um banco e pouco lhe valeu ter dado de imediato às de vila-Diogo. Um passante mais malandro pregou-lhe uma rasteira, Landru arrastou-se uns metros pelo passeio até que o braço longo da lei lhe amarrou as mãos atrás das costas e o atirou para os calabouços da Santé. Depois de uma tentativa de suicídio, o psiquiatra prisional declarou-o à beira da loucura. 

A loucura ainda não o tinha conduzido, no entanto, pelo caminhos esconsos do homicídio. Mal se viu livre, tratou de pilhar os 12 mil francos que o pai – que se enforcara numa árvore do Bosque de Bolonha por não suportar a vergonha que o filho tinha atirado sobre as suas costas –, deixara a Marie-Catherine e aos quatro netos. O dinheiro serviu-lhe para montar mais uma série de fraudes, tirando benefício da boa-fé com que muitos fulanos ricos da sociedade parisiense se deixavam enfeitiçar pelos seus maneirismos. Nunca deixou de ser um sedutor, nem mesmo quando, em novembro de 1921, foi levado a julgamento por homicídio a 11 tribunais diferentes. A divulgação dos seus crimes sobre as mulheres que acreditaram nas suas trapalhices, fez com que os jornais lhe dessem a alcunha de Barba Azul, tal como o personagem de  Charles Perrault que fazia desaparecer as suas esposas.

Não houve um único dos 11 juízes que se tenha deixado enrolar na esparrela da conversa doce de Henri Désiré Landru. Foi condenado à morte nos 11 processos através de guilhotinamento. Durante os julgamentos, entregou ao seu advogado, Auguste Navières du Treuil, um desenho feito à mão do forno que possuía na sua cozinha de sua casa em Gambais onde queimou os restos desmembrados das desgraçadas que tinham caído em seu poder. Atrás do desenho deixou escrito: «Ce n’est pas le mur derrière lequel il se passe quelque chose, mais bien la cuisinière dans laquelle on a brûlé quelque chose». Desde sempre que essa frase, tornada pública em 1967, ficou como marca da confissão de Landru dos 11 assassinatos.