Tautologias

O nome da rosa

Quantos no Partido Socialista (para não falar no país pouco instruído) conhecem hoje o que levou Mário Soares a chamar ‘Socialista’ ao partido que fundou?

«Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento». 
George Orwell

1. O homem culto e o militante informado conhecem a história do ‘socialismo democrático’, as circunstâncias que determinaram na Europa o aparecimento da ‘coisa’ e do ‘nome’, a ideologia, o ideário político totalitário a que se opôs, o contributo de esquerda que deu na afirmação da democracia liberal, no progresso e prosperidade inimagináveis das sociedades livres. 

2. Todavia, quando se ignora ou esquece a História, num tempo que cultiva a amnésia e a mentira histórica, o ‘nome’ pode confundir e trair a intenção da ‘coisa’ que nomeia. Repare-se: se o nome ‘PC’ traduz com rigor a ‘coisa’ (que os seus dirigentes honradamente não traem), já o nome ‘PS’ pode confundir até os líderes, como está a verificar-se.

3. Quantos no Partido Socialista (para não falar no país pouco instruído) conhecem hoje o que levou Mário Soares a chamar ‘Socialista’ ao partido que fundou? Acham que o PS evocado por Pedro Nuno Santos é o PS que Mário Soares imaginou? E nem falo naquele militante que lamenta que o 25 de Abril não tenha sido um rio de sangue. Disse depois que era uma ‘metáfora’... Mas sabe lá o que é uma metáfora!
Estou convencido que Mário Soares em nenhum momento quis instalar em Portugal um regime socialista, coletivista. E por isso aceitou taticamente o que sabia ser um eufemismo: ‘caminho para o socialismo’; e usou a expressão ‘socialismo em liberdade’, que é um contrassenso do qual ele tinha seguramente consciência. Já no mundo anglo-saxónico, ‘socialismo’ é o ‘nome’ justo da ‘coisa’ nomeada: ‘comunismo’.
Cresci com muitos amigos comunistas, convivi com criadores ligados ao PCP. Mário Soares conversou muitas vezes comigo, viajei sozinho com ele e com o senhor Branquinho. Soares era uma alegria solta, não tinha nenhum chip de censura implantado na cabeça. Nunca foi, não podia ser, um socialista (comunista), um coletivista, um censor. 

4. Num partido político o nome tem de ser indicativo, apontar aos aderentes e eleitores um projeto e um programa de ação. Não deve induzir em erro quem o procura. Assim – e tenho consciência de estar a ficcionar –, se um grande líder do PS tivesse a visão e a coragem de mudar o nome ‘Partido Socialista’ para ‘Partido Social Liberal’, por exemplo, libertaria a ‘coisa’ de um cárcere semântico e ofereceria à democracia e ao país, sem equívocos, o partido, a rosa de esquerda liberal de que o presente e o futuro carecem. E estaria a realizar seguramente a intenção do seu inesquecível fundador.

5. Podia ir buscar exemplos mais recentes, Thomas Mann ou Camus, mas nenhum é tão expressivo e tão a-propósito como o de Confúcio (séc. V a.C.).
Quando um discípulo lhe perguntou qual seria a primeira medida que tomaria se lhe confiassem o poder, o mestre respondeu: «Retificar os nomes». 
Confúcio desejou muito governar, constituiu mesmo com os seus discípulos um Governo-sombra. Educador da China, citado e honrado até hoje pelo poder, venerado pelo povo, o que conseguiu foi um ministério irrelevante e breve num ‘ducado’ remoto...