Internacional

Cabo Delgado. Tropas controlam Palma, mas a tragédia continua

Se antes do ataque as autoridades já não conseguia providenciar comida à população de Palma, há dúvidas que o consiga após fugirem.

 

Após mais de dez dias de combates ferozes contra jiadistas, as forças armadas moçambicanas finalmente proclamaram estar em pleno controlo de Palma. As autoridades já falam em reativar o aeródromo desta vila - tão crucial para a exploração de gás liquefeito, que Maputo quer rapidamente retomar - e até de criar uma ponte aérea, para permitir alimentar a população que regresse às suas casas. Contudo, para os mais de 3591 deslocados que conseguiram chegar a Pemba, segundo o Instituto Nacional de Gestão de Desastres (INGD), fugindo do terror e massacre na sua vila para encontrar uma cidade inundada de refugiados, não têm solução à vista, por mais que se faça promessas.

Esta maré humana desesperada que chegou à capital provincial - ainda assim, uma gota de água face às estimativas de mais de 700 mil deslocados pelo conflito - precisa de “ajuda humanitária urgente”, em particular as 669 crianças que escaparam, tendo três mulheres dado à luz durante a fuga, segundo um relatório do INGD, visto pela Lusa.

Os refugiados com mais sorte - talvez a expressão adequada seja menos azar - conseguiram ficar em casa de familiares, amigos, ou tiveram a sorte de que alguma família lhe abrisse as portas. Outros tiveram de ficar em centros transitórios, onde, segundo todos os relatos, não é nada fácil manter as regras de segurança face à covid-19.  

No total, cerca de 9900 pessoas terão fugido de Palma, segundo dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). Muitos continuam desaparecidos no mato, ou chegaram a Mueda, Montepuez ou Nangade, mais a sul da província. Outros foram parar à vizinha Tanzânia, ou ainda mais longe, à distante província da Zambézia. 

Aí - numa região que teve um ano de más colheitas, com o sol a queimar tudo e sem água suficiente, enquanto na vizinha Beira, o problema foi o oposto, no rescaldo do ciclone Eloíse - a fome e miséria são absolutas. 

“Isto é semente da melancia. Torro as sementes e misturo com as folhas. Aqui há muita fome não temos comida. A comida que tinha, recebi há muito tempo, em janeiro deste ano”, explicou Catarina Moisés, à DW. Fugiu do ataque de Palma com os seus filhos, até chegar a Nicoadala, na Zambézia, a mais de 1100 km de distância pela estrada, o equivalente a mais de três vezes a distância de Lisboa ao Porto.

São histórias que se repetem uma e outra vez. É que, mesmo antes do ataque a Palma, já escasseavam alimentos na vila, levando inclusive a protestos da população, avançou o Nascer do SOL - para quem teve de fugir, a situação obviamente que se tornou ainda mais dramática. 

Ainda assim, ao tomar Palma, mais uma vez as autoridades moçambicanas fizeram questão de se centrar na vitória, não no pesado custo para as populações. “Acho que um número significativo de terroristas foi abatido”, salientou Chongo Vidigal, chefe das operações militares para recuperar o controlo da vila, ao canal estatal TVM.

Vidigal até garantiu que as instalações da petrolífera francesa Total, na península de Afungi, a uns 25 km de Palma, “são seguras, estão protegidas”. No entanto, isso não impediu a petrolífera de retirar o resto do pessoal que mantinha nas suas instalações, esta sexta-feira, por meios aéreos ou marítimos, abandonando, por agora, o maior investimento privado em curso em África, na ordem dos 20 mil milhões de euros.