Contra a corrente

A luz ao fundo do túnel

Vivemos os últimos anos da soberba ‘ocidental’, da sua presunção de que o mundo será moldado à sua imagem e semelhança. O ‘excecionalismo americano’ era o expoente máximo dessa superioridade: o ‘modo de viver’ norte-americano era o paradigma da civilização, em contrate com os restantes ‘atrasados, bárbaros ou selvagens’. Sem dúvida que a ‘civilização norte-americana’ realizou com brilhantismo a tarefa que a Biologia, à escala da espécie, lhe havia cometido: desenvolver a produção social de todos os produtos necessários à humanidade, pelo menor esforço, pelo ‘menor custo’, segundo o exemplo ‘capitalista’ dessa mesma biologia que, à escala celular/bacteriana ou à escala do organismo mais complexo, não ‘gasta’ a mínima unidade de energia para realizar a sua finalidade. Historicamente, o capitalismo, como modo de organização social, surgiu com esse desígnio e, também, o de reunificar numa só sociedade humana global, aquilo que havia sido separado, segmentado, durante a longa fase de deriva dispersiva dos diversos grupos humanos pelo planeta. Marx, à sua maneira, explica-nos isso no Manifesto Comunista de 1848.

Porém, tudo o que é bom também tem os seus aspetos negativos, devendo, por isso, readaptar-se ou transmutar-se num novo ‘modelo organizacional’, por processos mais graduais ou bruscos, desde o lento aumento do bico do passarinho até à rápida transformação de uma lagarta em borboleta (uma reforma ou uma revolução).

O capitalismo de hoje, esgotado, já se transformou, através dos sistemas financeiro e político internacional, regredindo dos iniciais ideais liberais para um neo-feudalismo caracterizado por um sistema mundial de domínios e dependências em cascata, como antigamente havia desde o imperador aos reis, duques, condes e outra fidalguia até ao servo do fundo da escala que só tinha para ‘dominar e oprimir’ a sua mulher e os seus filhos. O atual neo-feudalismo, até chegar ao ‘servo’ passa ainda por toda uma cadeia de ‘superioridades’, desde os brancos (e dentro destes, os ‘mais ou menos’) aos negros e asiáticos, hispânicos, latinos, indígenas, etc., numa escala quase infinita de exclusões/superioridades que hoje inundam os noticiários televisivos. É a decadência, o fracionamento do edifício caduco. Daqui a mais ou menos tempo vamos assistir não à reunificação do ‘mundo ocidental’ numa grande aliança liderada pelos EUA mas sim ao contínuo fracionamento desse ‘bloco’. Dentro da Europa, pelo desgaste e fracionamento da UE e, também, dentro dos EUA, pelo fracionamento da União em múltiplos Estados independentes, num processo semelhante ao termo da ‘indestrutível’ União Soviética. Há de reconhecer-se que Trump não foi uma aberração mas sim o começo da realização desta necessidade histórico-biológica.

A causa dessa nova grande transformação, para usar a expressão antiga de Karl Polanyi, é que o capitalismo teve de esmagar e ver-se livre dos trabalhadores, reduzindo-os a quase nada em favor da famigerada tecnologia. Durante uns tempos, os trabalhadores reagiram e lutaram até que hoje, nos países centrais do ‘ocidente’ não contam para quase nada (só como unidades individuais de consumo). Mas não é um problema de trabalhadores: hoje é um problema de pessoas, aos milhões, aos milhares de milhões, que querem de novo, como humanidade, tomar nas suas mãos o seu destino. As pessoas são o centro, a origem e a finalidade de qualquer sistema social. Quem o entender deste modo ganhará a batalha da inovação. A tecnologia não passa de uma chave de parafusos, mesmo que se chame ‘inteligência artificial’.

O capitalismo está contra as pessoas e vai decompor-se, claudicar, dar lugar a outra coisa. Daqui a 4-8 anos, o mundo já será diferente. A potência dos que, por todo o mundo, se opõem aos atuais ‘sancionadores’ e fazedores de ‘bullying’, vai democratizar de novo o mundo e eliminar a possibilidade de extinção da espécie pela guerra e a imprudência. A civilização que virá será a civilização ética.