Brasil presente

Pandemia sem controle

O clima no Brasil está chegando ao pânico, com em média duas mil e quinhentas mortes por dia, sendo que, em São Paulo mais de mil. Mais de quinze milhões de vacinas aplicadas, o que é pouco para um país com 220 milhões de habitantes. O programa do Governo é bom, a capacidade de vacinação razoável, mas a população entre os vinte e os cinquenta anos, estimada em quase noventa milhões, só será vacina depois de agosto. É preciso acelerar a imunização pela via da vacinação em massa, e isto só será possível se houver liberdade de importação pela rede privada, sem restrições. As empresas querem vacinar seus colaboradores, para apressar a volta a normalidade, famílias de classe média seus filhos e netos, e até condomínios nas grandes cidades querem vacinar seus empregados, por medida de segurança. E sem ónus para o Governo, que receberia a metade do importado a titulo de imposto. A mentalidade dos burocratas, no Brasil como em muitos lugares, é preconceituosa em relação ao setor privado. Mas se a influenza é vendida e aplicada em farmácias, o que impede a da covid, muito mais letal ? 
 
Bolsonaro caindo

A postura negacionista do Presidente, apesar da gravidade da situação, condenando o lockdown determinado pelos governos regionais, afeta sua popularidade. Ainda alta, mas perdendo substância, em especial nas classes médias, as mais assustadas com o evoluir da pandemia no Brasil. As relações com o Parlamento que estavam indo bem, sofrem com a questão da pandemia ser tratada da maneira com que o Presidente insiste obstinadamente em praticar. Claro que esta situação em poucas semanas vai se refletir fortemente na economia, já comprometida pelos gastos do Governo em atender aos mais carentes, que no total, desde o início da pandemia, só em auxílio direto em dinheiro anda na casa dos sessenta mil milhões de euros. Valor acrescentado a dívida pública. 

Restrições com contestação

Embora a população tenha caído na real e começado a colaborar com o isolamento, como no Rio, que no final de semana, teve as praias desertas, em cumprimento das normas da Câmara, ainda existem focos que contestam o isolamento. O governador de São Paulo, João Doria, proibiu os jogos de futebol, mesmo sem plateia. Os clubes se revoltaram e foram buscar outros estados para cumprir o calendário do campeonato nacional. Sem sucesso nas principais capitais. 

Tensão no abastecimento

Depois da crise do oxigénio em Manaus, chegou a vez do resto do Brasil, que está trabalhando com estoque de menos de uma semana não só de oxigénio mas também dos medicamentos essenciais para os doentes entubados, com respiração mecânica. Muitos anestésicos inclusive. Os estoques estão baixos, com esta nova onda. Os mais idosos, oitenta por cento já vacinados, já não ocupam os hospitais, mas os mais jovens, que agora formam a maioria, demoram mais tempo nas unidades especiais, o que que agrava a falta de leitos capacitados para o atendimento intensivo. 

O paraíso agrário 

Menos afetado pela pandemia, o interior do país vai bater novos recordes na produção do agronegócio. E a desvalorização do Real faz aumentar ainda mais a exportação. Estima-se que a safra de grãos será em torno de 240 milhões de toneladas, sendo 135 de soja. Açúcar, café e frutas também em alta. O Brasil mantém a posição de líder mundial na proteína animal. Este tem sido um suporte para a economia e para saldos na balança comercial crescentes. A indústria sofre mais, tendo depois da saída da Ford, que tinha três unidades fabris, a VW deu férias coletivas de vinte dias e outras montadoras começam a sentir falta de peças, especialmente no setor de pesados. 

Emergência 

Começou nesta quarta-feira, 31, uma tentativa de mobilizar a sociedade para prioridade na luta contra o vírus. Mas a credibilidade perdida não melhora o animo dos brasileiros. 

Rio de Janeiro, março de 2021