Número de órgãos transplantados foi o mais baixo desde 2012

A doação de órgãos de dador falecido caiu 27% em 2020 face ao ano anterior. Número de transplantes registou queda de 21%.

Em 2020, foram transplantados 693 órgãos, o número mais baixo desde 2012, ano em que se verificaram 680 transplantes. Esta é uma das conclusões do Instituto Português do Sangue e da Transplantação, IP (IPST), através da Coordenação Nacional da Transplantação, relativamente à colheita e transplantação de órgãos, tecidos e células do ano passado.

“No ano em que Portugal e o mundo enfrentaram a pandemia por COVID-19, que levou à reorganização da atividade hospitalar e à suspensão da atividade de doação e transplantação, assistimos a uma diminuição global da atividade mundial e europeia, verificada também em Portugal”, começa por elucidar o IPST, em comunicado. Ainda assim, “no nosso país os números foram melhores do que em muitos países da Europa, visto que esta diminuição foi inferior à esperada”.

Quem confirma este panorama é a nefrologista no Centro Hospitalar Universitário de São João e diretora da Sociedade Portuguesa de Transplantação (SPT), Susana Sampaio. Ao i, a médica destaca que “a pandemia teve o seu impacto e os números comprovam-no”.

“Não fazíamos a mínima ideia daquilo que aconteceria. Numa primeira fase, tivemos a atividade suspensa e, ao longo do ano, tentámos minorar o impacto. Apesar de tudo, quando comparamos Portugal com outros países, não se deu uma redução tão acentuada”, declara a profissional de saúde, relatando que nos EUA e no Reino Unido ocorreu uma quebra na ordem dos 60%.

 

Cedo para avaliar uma eventual melhoria

“As unidades hospitalares retomaram a sua atividade face à evolução da situação epidémica local e os planos de contingência foram sucessivamente adaptados e atualizados à medida da informação sobre a situação e do conhecimento adquirido”, salienta o IPST, adiantando que “assistimos à constante dedicação dos profissionais de saúde na recuperação e sustentabilidade da atividade, o que contribuiu para que Portugal, apesar de todos os constrangimentos inerentes, chegasse ao final do ano de 2020 ocupando o 4.º lugar mundial na taxa de dadores falecidos por milhão de habitantes”.

Na ótica de Susana Sampaio, tal ocorreu porque “as várias vagas covid proporcionaram que nos períodos com menor número de infetados conseguíssemos recuperar a transplantação”, sendo que acredita que “está a ser possível fazer mais transplantes do que em 2020, nestes primeiros meses do ano, pois os hospitais criaram circuitos separados para esta atividade, mas é muito cedo para avaliar”.

 

Queda de 27% na doação de órgãos

O comunicado informa que “no que se refere à atividade de doação de órgãos de dador falecido, observou-se uma diminuição de 27%, face a 2019, com menos 94 dadores”.

Na atividade de transplantação, destaca-se o aumento da taxa de utilização de órgãos, de 84% para 87%, “a par de uma diminuição global da atividade, face ao ano anterior, em cerca de 21%”, com menos 185 órgãos transplantados do que em 2019.

“Tivemos o transplante cardiocirculatório parado por ser um tipo de dador que não pode esperar muito”, avança Susana Sampaio. Em 2019, 30% da atividade de transplantação “era muito baseada nos dadores que tinham paragens cardiorrespiratórias”. A título de exemplo, em 2018, de 417 dadores, 317 tiveram morte cerebral e 28 uma paragem cardiocirculatória.

Ora, os doentes que morrem com uma infeção do novo coronavírus não podem ser dadores e quem padece destas patologias é de risco.

“A atividade com tecidos e células reflete também o impacto da pandemia, com diminuição no número de transplantes de córneas, de tecido musculoesquelético e progenitores hematopoiéticos, na ordem dos 27%, 11% e 7% respetivamente”, informou o IPST. Nota, porém, que ”mesmo num ano de desafios, foi possível a realização do primeiro transplante renal cruzado internacional entre Portugal e Espanha”.