Mente (In)quieta

Dia Mundial da Saúde: vacinação no vermelho, paliativos a definhar e a Educação em cuidados intensivos

No meio de uma pandemia que matava aceleradamente foi considerado prioritário legislar sobre a eutanásia. Correu-se a balizar a morte, a regulá-la e a normalizá-la, quando não se cuida de garantir a qualidade e o acompanhamento devido a quem quer escolher viver.


por Sofia Aureliano

1. Virada ao contrário. A segunda fase da vacinação já arrancou. Seria motivo de celebração, se tivéssemos a certeza de que a primeira fase está completa. Mas não está. Do que tenho a certeza é que começámos a levantar paredes quando os caboucos ainda não estão no sítio. São vários os casos de pessoas com mais de 50 anos, que conheço, que fazem parte dos grupos prioritários da 1ª fase pelo facto de terem uma das quatro patologias consideradas mais perigosas, que ainda não foram vacinadas. E têm, curiosamente, uma coisa em comum: todas já tinham sido contactados e estavam agendadas para vacinação nos três dias em que a vacina da AstraZeneca esteve suspensa em Portugal, entre 16 e 18 de março. Seria de esperar que, assim que se retomasse a vacinação, fossem os primeiros a ser chamados, recuperando a ordem já definida. Mas não. Ao que parece ter sido um padrão, quem “manda chamar” saltou os prioritários já agendados, eventualmente assumindo-os como já vacinados, e seguiu em frente, a somar taxas de execução. Ou isso, ou viraram a lista ao contrário e começaram a chamar pelo fim. Certo é que nos mesmos agrupamentos de centros de saúde a que pertencem estes casos, por exemplo, no de Agualva (Sintra), já estão a chamar para a segunda fase de vacinação.

O Senhor Vice-almirante disse que todas as pessoas da primeira fase estariam vacinadas até dia ao dia 11 de abril. Faltam quatro dias. Faço fé nas palavras do senhor coordenador. Mas... tiquetaque, tiquetaque…

Não há cimento ou tijolo que aguente uma casa sem alicerces.

2. Anúncios, sim, mas só quando dá jeito. Portugal é dos poucos países da OCDE que não tomou medidas para reduzir o impacto nas aprendizagens dos alunos. Este é um dos títulos que custaria ouvir, especialmente a Brandão Rodrigues, se ele tivesse dois palmos de brio. Não há, portanto, razão de preocupação, porque não fará qualquer mossa.

Ao contrário do que tem sido prática, os factos não podem servir só para quando aparentam ser proveitosos.

Não podemos reconhecer o aumento das dificuldades letivas dos alunos, criadas durante o confinamento e o período em que as escolas estiveram fechadas, porque precisamos de acalmar os ânimos de quem contesta a vacinação da comunidade educativa, e demonstrar que vacinar é a atitude certa para manter as escolas abertas e travar o agravamento das dificuldades. E, depois, quando perguntamos ao senhor ministro o que ele fez para reduzir o impacto da pandemia nas aprendizagens, a resposta é: Nada! Quanto muito, ajudou a agravar, ziguezagueando entre promessas quebradas e proteladas, sem pejo, de ano letivo para ano letivo.

Por agora, agradeça aos Santinhos pela outra tutela que lhe tornou possível fazer anúncios megalómanos de “grandes exercícios de vacinação” no próximo fim-de-semana, e fugir, o senhor ministro, mais uma vez, com o rabo à seringa.

Talvez fosse mais eficiente focar-se em manchetes do que é do seu domínio e ocupar o fim-de-semana a fazer um grande exercício de introspeção.

Aproveite para estudar o relatório da OCDE que descreve as medidas de mitigação ao impacto do confinamento na escola para os alunos dos quinto e sexto ano de escolaridade que 86% dos países tomaram. Ou as situações que, até ao nono ano e secundário, mais de 70% dos países acautelaram. Ignore o facto de todos eles terem distribuído os computadores a tempo e dado aos alunos e professores as devidas condições para a prática do ensino online, e veja se copia qualquer coisinha.

Garanto-lhe que, neste caso, ninguém lhe leva a mal que seja um “cábulas”.

3. No Dia Mundial da Saúde, queremos falar de vida, de cuidar, de saúde. Mas a realidade evidencia-nos o vazio e a ausência, a falta de escolha e o sofrimento.

No meio de uma pandemia que matava aceleradamente, sem dó nem piedade, foi considerado prioritário legislar sobre a eutanásia ou morte medicamente assistida. Correu-se a balizar a morte, a regulá-la e a normalizá-la, quando não se cuida de garantir a qualidade e o acompanhamento devido a quem quer escolher viver.

Quando me perguntam o que penso sobre a eutanásia, respondo que não estou no tempo para responder. Porque me falam do direito de escolher entre a vida e a morte, da liberdade individual de cada um decidir como termina a sua vida. Emerge sempre o dilema: “de quem é a minha vida?” e a discussão existencial entre se eu sou vida ou apenas tenho propriedade sobre ela. Podíamos deambular por aqui e teríamos matéria para mais umas semanas. Mas, hoje, faço o desvio para a inquietação-mor de momento.

Preocupa-me questionar sobre qual é a liberdade que existe numa balança enviesada em que, num prato, está o sofrimento prolongado e atroz, no outro, o alívio da morte imediata?

Portugal está há quatro meses sem nomear a Comissão Nacional dos Cuidados Paliativos. O anterior coletivo cessou funções em dezembro, curiosamente quando se afinava o texto sobre a eutanásia, que veio a ser votado no início de janeiro. A lei que regula a morte assistida avançou. A comissão para cuidar do bem-estar no fim de vida não se mexeu.

É uma comissão. São nomes num papel. Não são mais unidades, mais investimento, mais equipas comunitárias, mais camas ou profissionais especializados, nem respostas efetivas. Mas nem para essa formalidade parece haver tempo.

Enquanto não existir uma verdadeira escolha entre viver sem sofrimento ou morrer já, evitando a dor, a liberdade de decidir será sempre condicional.

Lamentavelmente, não se corre pela vida como se acelera pela morte.

Não faz sentido. Mas, efetivamente, sai mais barato.