Internacional

Adeus ao tio-avô. 'Excêntrico que sempre esteve lá'

Até ao último momento, o príncipe Filipe foi um homem de outra era e um arauto da monarquia como a conhecemos.

A família real britânica está de luto pela morte do príncipe Filipe, duque de Edimburgo, consorte da Rainha Isabel II, aos 99 anos. Uma perda assim, em qualquer família, é uma evento tremendamente privado. Contudo, a dinastia de Windsor terá de viver esse momento com o mundo a assistir atentamente, enquanto vão chegando condolência de todos os cantos do país e do globo. Nos últimos meses, adivinhava-se que a tragédia poderia chegar a qualquer momento, não só pela vetusta idade do príncipe, mas pelo facto de ter sido internado em fevereiro, tendo sofrido um acidente de carro em 2019, e retirando-se da vida pública em 2017. Mas, com o seu desaparecimento, ninguém tem dúvida que é o fim de uma era.

«Só uma minoria do povo britânico se consegue lembrar da altura em que a Rainha e o duque não estavam juntos», há uns 73 anos, quando o império britânico dava os seus últimos suspiros, notou o Guardian. «Mas a morte do duque obriga a nação a reconhecer que todas as coisas passam».

Aliás, Filipe teve a distinção de ter sido o consorte que mais tempo ficou ao lado de um monarca britânico. Paradoxalmente, foi arauto de uma nova visão da monarquia, ao mesmo tempo que se manteve, até ao fim, irredutivelmente, símbolo de outros tempos.

«De língua afiada e pavio curto, era um homem que fazia piadas de mau gosto e comentários politicamente incorretos, um tio-avô excêntrico que sempre esteve lá, por quem a maior parte das pessoas sentia afeição – mas que frequentemente se envergonhava e aqueles à sua volta», descreveu o correspondente real da BBC. 

«Vinha de uma era em que homens da sua classe e contexto não tinham restrições em como viviam e falavam com outros», concordou o Guardian, acrescentando que Filipe «até ao fim, era capaz de usar linguagem racista e sexista que se tornara publicamente inaceitável há décadas» .

Quem não se recorda quando perguntou a nativos aborígenes se ainda andavam por aí a atirar lanças? Ou quando avisou um britânico que ficaria com olhos em bico se ficasse na China? Ou se questionou sobre como era possível escoceses ficarem sóbrios o suficiente para fazer um exame de condução? Talvez tenha sido uma característica que o Filipe deixou ao príncipe Harry, seu neto, que em tempos se deixou fotografar numa festa disfarçado de nazi, e foi filmado a gozar com um dos seus camarada das forças armadas, chamando-lhe «paki».

Ao mesmo tempo, desde o primeiro momento, Filipe dedicou-se a trazer a monarquia para o século XX, apelando à modernização do país, falando do investimento em tecnologia e em causas ambientais muito antes de ser comum, querendo fazer da TV a grande aposta da monarquia. Aliás, foi o príncipe foi o primeiro membro da casa real a dar uma entrevista perante as câmaras, insistindo para que a família aceitasse aparecer num documentário, em 1969 – ainda assim, segundo o Observer, Filipe não terá ficado fã da série The Crown, da Netflix, que deixou milhões de fãs loucos com a sua história e da Rainha Isabel. 

Talvez esse ímpeto do príncipe para modernizar a casa de Windsor – para «apresentar a monarquia como uma instituição dinâmica e envolvida, que vai responder a alguns dos problemas contemporâneos da sociedade britânica», nas palavras de um dos seus primeiros biógrafos, citado pela BBC – viesse do seu próprio passado. 

Quando Filipe – batizado Philippos Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg – nasceu, em 1921, na ilha grega de Corfu, a I Guerra Mundial varrera muitas das velhas dinastias europeias, enquanto outras se agarravam ao poder, decrépitas.

O próprio Filipe, filho do príncipe André da Grécia e Dinamarca, perdeu qualquer hipótese de um trono bem cedo. O seu pai foi estrondosamente derrotado na guerra greco-turca de 1919-1922, causando um golpe militar e a sua condenação à morte. Salvou-se graças à intervenção diplomática do Rei britânico, Jorge V, enquanto, reza a lenda, o pequeno Filipe era levado numa caixa de laranjas, segundo o Independent.

A sua família juntou-se à maré de realeza e nobreza à deriva na Europa, à procura de uma função, nos tempos em que condes russos conduziam táxis em Paris, após a Revolução de Outubro, quando a tia-avó de Filipe, Ella, foi assassinada, junto com os Romanov, em Ekaterinberg. Em 1967, Filipe, sempre como pouco tato diplomático, diria: «Gostaria muito de ir à Rússia, apesar dos desgraçados terem assassinado metade da minha família». 

De França, Filipe partiu para estudar na Escócia, enquanto o pai torrava o dinheiro da família em Monte Carlo e a mãe era colocada no asilo, por problemas psiquiátricos, antes de se tornar freira ortodoxa, e as suas quatro irmãs mais velhas casavam na Alemanha. Já Filipe, aos 18 anos, alistar-se-ia na marinha britânica, optando servir uma das últimas monarquias sobreviventes. Quando combateu na II Guerra Mundial, do outro lado tinha três irmãs, apoiando abertamente os nazis – acabaram por não ser convidadas para o seu casamento com Isabel, que ficou sozinha aos 94 anos, sem ninguém com quem partilhar o peso da coroa.