Opinião

A álgebra macro e micro da covid-19

Uma política sanitária tem de ser meridianamente apreendida pelas pessoas comuns, independentemente das suas habilitações.

Por Bagão Félix

Economista

As autoridades estabeleceram um limiar de 120 novas infecções por covid-19 (nos últimos 14 dias) por 100 000 habitantes, acima do qual aumentam os cuidados e as restrições impostas e podem ser retardadas medidas de desconfinamento gradual. Não me atrevo a pôr em causa este rácio, certificado internacionalmente, por certo bem fundamentado e para o qual não tenho sequer conhecimentos para dele duvidar.

O que, todavia, me incomoda é o modo frenético e excitado como se dão as notícias sobre os concelhos que ultrapassam aquele valor. Por exemplo, ouvi na televisão pivots dizerem, sem pestanejar, que Machico é o «concelho com 500 casos por 100 000 habitantes». Distraídos, podemos imaginar o ‘caos pandémico’ no simpático concelho madeirense. Eis um modo de, perto da indigência, se darem notícias. Muita gente, sem pensar, até começará por achar ‘natural’ que Machico tenha uma população superior aos tais 100 000 habitantes! Deu na televisão, logo é verdade…

Num país onde só 6,5% (24 em 308) dos concelhos ultrapassam os cem mil habitantes, não seria melhor, nesta análise mais fina, reduzir a tal proporção, e dizer, mais claramente, que o limiar traçado é de 1,2 novas infecções por cada 1000 habitantes? Assim, toda a gente entenderia e, consequentemente, se sentiria mais desperta para esta ‘aritmética infecciosa’. 

Uma política sanitária tem de ser meridianamente apreendida pelas pessoas comuns, independentemente das suas habilitações. Continuar a insistir na razão de doentes por 100 000 habitantes é afastar ou anestesiar as pessoas da realidade que se quer prevenir e superar. E é até um convite a um menor sentido de responsabilidade por parte de pessoas propensas a infringir regras impostas, porém, entendidas, por preguiça ou facilitismo, como distantes.

Volto ao caso de Machico, que, esta semana foi noticiado como o concelho nacional com maior risco de covid-19. Segundo dados da Pordata, em 2019, tinha 19 981 residentes. Tendo atingido as tais 500 novas infecções por 100 000 pessoas, e descodificando estes macro números, é o mesmo que dizer que tem 5 x 19,9 = 99,5 novos infectados (arredondando, 100) em 14 dias.

Vejamos os dados do ‘Top 10 dos concelhos por incidência cumulativa’, excluindo o já referido concelho madeirense (fonte DGS):

1. Fonte Pordata
2. Corresponde ao quociente entre o número de novos casos confirmados nos 14 dias anteriores ao momento de análise e a população residente estimada (DGS)

Como se vê, a lógica de graduação da infecção, acaba por incidir, obviamente, sobre concelhos com mais baixa densidade. Quanto menor é o concelho, em termos populacionais, mais perto está de ultrapassar o limiar definido de 1,2 p/1000 habitantes. Por exemplo, no caso de Vila de Bispo, bastam 7 novas infecções nas últimas duas semanas para soar o alarme. Ou para citar, outros concelhos com baixa população, Barrancos que tem 1464 residentes passaria para o patamar mais preocupante apenas com 2 infectados (!), Corvo (465 h.) com um 1 infectado ou Alvito (2462 h.) com 3 novos infectados. 

A matemática não tem ruído de fundo, é o que é. Mas, pode ser apresentada de maneira mais perceptível. Por outro lado, um rácio, ainda que impositivo, é uma síntese que pressupõe uma rigorosa análise. Uniformizar situações pela fria álgebra é injusto e perigoso. Basta saber uns rudimentos de estatística, para saber que uma coisa é aplicar a um país a fórmula de 120 novas infecções por 100 000 pessoas, outra é aplicá-la forçadamente a um microterritório (concelho ou freguesia) com reduzidíssima população. É necessário ver caso a caso, antes de publicitar qualquer lista, e não se deixar conduzir apenas pela abstracção algébrica. É para isso que existe a política: para ser verdadeira e não capciosa nas análises e nos factos, para ser rigorosa na acção, e sensível na relação. Ou será que a ideia é ‘pintar as coisas’ ainda mais escuras do que são, para depois se anunciar a ‘salvação?