Cultura

Mostrar o arquitecto a pensar

Quando quer classificar esta exposição, a primeira feita de propósito para o novo espaço Garagem Sul, no CCB, Nuno Mateus encontra uma definição categórica: ARX:Arquivos, mais do que mostrar como o arquitecto pensou, «mostra o arquitecto a pensar».

e isso faz-se de forma meticulosa e palpável, através dos artefactos da arquitectura que são as maquetes dos projectos. num mundo digital em que o grosso do trabalho de desenho e pesquisa se faz num ecrã, os irmãos nuno e josé mateus, sócios do gabinete arx há 22 anos, nunca deixaram de querer produzir maquetes, que permitem ensaios em pequena escala do que se vai sentir perante o espaço de um edifício em concreto. «as pessoas continuam a precisar de olhar para um projecto de forma táctil. um esquisso não suscita emoções», sintetiza josé mateus.

há 20 anos, o pequeno arx era uma dupla de arquitectos jovem e promissora, com apenas um projecto construído, a casa dos pais, e foi convidado para se apresentar na inauguração do centro de exposições do centro cultural de belém (ccb). fizeram-no com a exposição realidade real. agora, na comemoração do aniversário redondo do ccb, a administradora dalila rodrigues, que tem a cargo o programa da garagem sul, espaço recém-aberto e dedicado à arquitectura, decidiu convidar o ateliê para um balanço. e é um passeio exaustivo pelo espólio em que se vê, olhando em profundidade, como o trabalho do ateliê se intensificou e cresceu. «nota-se que há um aceleramento nítido. os primeiros dez anos de trabalho nem ocupam o primeiro terço do espaço», sublinha josé mateus. foi nos últimos anos que o gabinte somou distinções. o importante prémio da aica (associação internacional de críticos de arte) e o mies van der rohe, ambos de 2003, foram atribuídos ao museu marítimo de ílhavo. a estes juntam-se outros prémios internacionais atribuídos ao arx pelo chicago athenaeum.

o prazer da bricolage

«mostramos tudo o que temos», diz josé mateus. para cada projecto foram feitas várias maquetes, desde a ideia inicial até aos ensaios finais. no fim da cada troço horizontal, a última maquete está suspensa por cabos. são várias esculturas flutuantes que se avistam ao longe. dentro de 241 caixas em folha de bétula criadas de propósito para a exposição, repousam todas as maquetes, mais de 1.500. só não estão a descoberto as que foram de «projectos inconclusivos». «achámos que mesmo assim deviam estar presentes, mas só iam baralhar», justifica josé mateus.

as maquetes têm um trabalho de bricolage, que não seria obrigatório, mas houve nitidamente, como diz nuno, «gozo em lhes dar vida». são bem mais que objectos de trabalho. numa delas, que foi finalista do concurso para a reformulação urbana do spreebogen (bairro do parlamento e chancelaria federal, em berlim) após a reunificação da alemanha, foram colocados três mil parafusos a simular árvores nos parques. «a princípio comprámos uma caixa com uns 200 parafusos e achámos que chegava. era preciso colocar tantos que quando alguém vinha ao nosso ateliê era logo convidado a pôr uns quantos», recorda nuno.

o arx não se limitou a produzir as maquetes com uma alegria infantil, também as guardou. há, no entanto, uma lacuna grande. das 300 que o ateliê fez para a expo 98 perderam-se todas. «perdemos todo o interior do pavilhão do conhecimento», diz nuno mateus.

na exposição aberta ao público até 21 de julho, as maquetes que ocupam o espaço gigantesco da garagem sul representam os grandes e os pequenos trabalhos. «muitas vezes as exposições de arquitectura são sobre os resultados finais e dão uma ideia errada sobre o trabalho dos arquitectos. a realidade é que por trás de um projecto acabado há um trabalho brutal. o arquitecto não é um sobredotado nem um homem do renascimento», diz josé mateus. por outro lado, acrescenta, «normalmente a arquitectura que se mostra é despojada de vida, sem o tapete de que o arquitecto não gosta ou a cortina que o cliente pôs». a ideia de que a arquitectura é trabalho de luminados feita para clientes estetas é recusada pelos irmãos mateus. e um projecto é muito mais do que uma procura de soluções visuais.

luís santiago baptista, curador da arx:arquivos, explica que a exposição se faz em três eixos. o primeiro é composto pelas maquetes expostas, que acompanham o percurso de duas décadas do ateliê, traçando o percurso de cada projecto, da ideia embrionária até um resultado final. «é importante ver através das maquetes que há avanços e recuos, não é um processo linear. é uma metodologia ensaística», explica o curador. e são processos que ao longo do tempo se tornaram mais complexos. «ensaiamos cada vez mais, procuramos cada vez mais encontrar lugares nunca antes visitados. mas acho que nesta busca se percebe o prazer da criação», diz nuno.

cada caixa tem impresso um escaravelho sobre o encaixe da tampa, que ajuda a orientação quando se fecha mas que também remete para esse universo naturalista da classificação. «há aqui uma analogia com o naturalismo, sobre o que é classificar, o que é expor», sustenta luís santiago baptista. a esta galeria de sarcófagos, o curador chamou-lhe, evocando também o conceito do gabinete de curiosidades.

há ainda um conjunto de cinco filmes feitos por carlos gomes sobre cinco obras públicas recentemente concluídas, entre as quais a do aquário do museu marítimo de ílhavo, o centro comercial fórum sintra, ou o conservatório de cascais.

num terceiro eixo, luís santiago baptista salienta a importância do ‘atlas’ onde, ao longo de 60 metros se mostram as referências pessoais e profissionais, muitas delas exteriores à disciplina da arquitectura, que influenciaram o pensamento e enquadraram o trabalho dos dois arquitectos. é lá que está também a fotografia da casa que josé mateus fez para si e cujo impulso para a compra do lote veio da tília defronte que a irá perfumar.

telma.miguel@sol.pt