Um funeral com o mundo a assistir

O duque de Edimburgo terá um funeral discreto, como desejava. Mesmo a cobertura mediática será muito menor, após uma chuva de queixas à BBC.

Os britânicos preparam-se para dizer adeus ao príncipe Filipe, o duque de Edimburgo, que faleceu aos 99 anos, num funeral discreto, com umas meras 30 pessoas, em vez das 800 inicialmente previstas, devido às restrições contra a covid-19. Ainda assim, vai haver alguma pompa e circunstância, com 730 militares, de todos os ramos das forças armadas, a preparem-se para as cerimónias militares, segundo a Sky News. Ainda assim, nem todos os britânicos parecem interessados no assunto.

Aliás, a cobertura da morte do duque foi a programação que recebeu mais reclamações na história da BBC, com quase 110 mil queixas de que foi excessiva. O canal, para onde, historicamente, os britânicos se viram em momentos de crise, sofreu quebras nas audiências, enquanto as audiências da ITV caíram 60% nesse dia, em relação à semana anterior – o Channel 4, que manteve alguma programação, subiu ao topo das tabelas. Talvez seja o resultado de mudanças nos própria televisão, que hoje tem de competir com a Netflix e com as redes sociais. Ou então é um sintoma de crise para a monarquia moderna, cujo paradigma Filipe ajudou a transformar.

O certo é que, mesmo os britânicos menos interessados na monarquia, terão de passar o sábado a assistir a parte das cerimónias de homenagem ao duque de Edimburgo. Ouvindo as salvas de canhões e os ensaios de salvas de canhões, um pouco por todo o Reino Unido, enquanto as bandeiras britânicas em todos os edifícios públicos ficaram a meia haste, até ao funeral do príncipe, no sábado, às 15h, quando é esperado um minuto de silêncio em todo o país.

Não será um funeral de Estado, será apenas cerimonial, em linha com os desejos do defunto, assegura a imprensa britânica. O caixão do príncipe será levado da capela de São Jorge, a capela privada do castelo de Windsor, perante as câmaras de televisão, e colocado num Land Rover modificado, que o próprio ajudou a desenhar. Trata-se de um jipe baseado num Defender TD 130, modificado para ficar de caixa aberta, por especificação de Filipe, há 18 anos.

«A silhueta única e idiossincrática deste veículo lembra o mundo de que ele era, acima de tudo, um homem prático, que podia pegar em algo muito tradicional – fosse uma máquina ou, de facto, uma grande instituição nacional – e encontrar maneira, através do seu próprio engenho, de o melhorar, de adaptar ao século XX ou ao século XXI», considerou o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, citado pela Reuters.

Atrás do estimado Land Rover do príncipe, caminharão vários membros da família real, incluindo o filho de Felipe, o príncipe Carlos, e os seus netos, os príncipes Harry e William.

Nenhum poderá usar uniforme militar honorífico, para não embaraçar Harry. Seria o único que não o poderia usar, segundo o protocolo oficial, apesar de ter pilotado um helicóptero no Afeganistão, dado já não ter estatuto de membro da família real, avançou o Telegraph. Resolve-se assim também o problema de o príncipe André – que foi acusado de abusar de uma menor, ao lado do seu bom amigo Jeffrey Epstein, tendo respondido com uma entrevista que só aprofundou as suspeias sobre si – ter pedido para usar um uniforme de almirante no funeral, segundo o Daily Mail, uma honra que teria ganho automaticamente no seu 60.º aniversário, não tivesse sido afastado da família real.

Já para a Rainha Isabel II, que, aos 94 anos, perdeu o seu companheiro de mais de sete décadas, é difícil imaginar quão duro estará a ser todo o processo. «Creio que deve ser uma coisa muito, muito profunda, na vida de qualquer pessoa», avaliou o arcebispo da Cantuária, Justin Welby, o líder espiritual da Igreja Anglicana, em cuja hierarquia figura apenas atrás da própria monarca britânica – um papel que vem do século XVI, quando o Rei Henrique VIII andava a divorciar-se e a cortar cabeças das suas esposas, à procura de um filho varão.

Face à perda do marido, Isabel II «vai-se comportar com extraordinária dignidade, extraordinária coragem. Como ela sempre faz», garantiu Welby, à BBC. «Ela é a Rainha».

 

Polémica e queixas

Apesar do que se viu no dia em que morreu o príncipe, desta vez não haverá uma cobertura tão extensa na BBC por ocasião do funeral, dado o volume das queixas. A grelha televisiva será mantida sem grandes alterações, permitindo cobertura da semifinal da Taça de Inglaterra, entre o Chelsea e o Manchester City, bem como outros programas – muitas das queixas foram relativas ao adiamento da final do MasterChef e da popular telenovela EastEnders.

Muitos outros não gostaram que a BBC 4 saísse do ar. Ou que na CBBC, dedicada a crianças, tivesse uma faixa apelando a que se mudasse de canal, enquanto as rádios da estação só passavam música melancólica, e a BBC 1 e 2 davam exatamente os mesmo conteúdos sobre a vida do príncipe.

«Certamente que o público merece ter escolha de programação», notou Simon McCoy, antigo apresentador da BBC, citado pela Article. «Há um máximo para o que um tipo aguenta ver da BBC ser untuosa para com a realeza», queixou-se o historiador Tom Holland, no Twitter.

Contudo, «quantos se teriam queixado se a BBC tivesse feito o oposto é uma questão por responder», notou David Sillito, repórter de imprensa do canal. A verdade é que a emissora estatal não está numa posição fácil. Não só foi fortemente criticada em 2002, acusada de não dar destaque à morte da Rainha-mãe, como há um confronto entre o Governo de Boris Johnson e a BBC por fundos, sendo que esta «já enfrenta deputados conservadores que acusam a corporação de não ser suficientemente patriótica», lembrou o Guardian.